As primeiras horas sempre são as mais difíceis

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As primeiras horas de todo morto de primeira viagem, sempre são as mais difíceis, até porque o morto sempre perde a noção do tempo e as confusões começam. Com Asdrubal não foi diferente, pois além de perder a noção do tempo e do espaço, ele também não era lá um morto muito comportado.

– Ah, então é assim, já vai começar a falar mal de mim? Mal morri e já vão começar as críticas? E eu que achei que, depois de morto, todo mundo virava santo. Assim não dá, deixa eu pelo menos desfrutar  meus momentos de santidade!

Tudo bem Asdrubal, vamos fazer do seu jeito então, vou te dar um tempo para que você possa se localizar e começar a organizar sua nova vida.

– Agradeço, afinal, um pouco de compaixão vai bem, ainda estou muito fragilizado com a minha própria morte!

Mas Asdrubal sempre foi agitado, nunca conseguia ficar quieto, era do tipo que chegava causando revolução em todo lugar e..

– E não tínhamos combinado, no parágrafo de cima, que você ia pegar um pouco mais leve?

É verdade, mas eu preciso achar um jeito de continuar essa história, senão esse negócio vai ficar chato e ninguém vai ler. Vamos ajudar um pouco também, certo? Um pouco de fragilidade tudo bem, mas já está ficando sensível demais, não está, não?

bom, vamos tentar achar um ponto de equilíbrio então. Pode falar um pouco, só não exagera, pode ser?

Vamos começar novamente, então. Asdrubal, quando se deu conta da sua nova situação, começou a articular uma forma de contornar essa indesejável e não planejada situação. Ele sempre foi do tipo que gostava de ter tudo organizado, meticulosamente planejado e, definitivamente, a morte não estava nos seus planos imediatos.

– Não mesmo, não tinha incluído esse evento nem no meu plano a longo prazo, quanto menos, como ação imediata. Logo eu que sempre falei da importância do planejamento… que vergonha, agora fiquei totalmente desacreditado, imagine se meus alunos me vissem agora.

Sem dramas, Asdrubal, lembra do que acabamos de combinar, sem dramas.

– Mas é só um draminha, não é um drama!

É, já percebi que esse vai dar trabalho. Haja negociação.

– Vem cá, estamos falando, falando e eu sequer sei como você se chama. Fica aí com essa voz de locutor de rádio FM, me interrompe o tempo todo, me critica e eu nem sei como você se chama. Já te falaram que você tem a voz parecida com aquele apresentar milenar do Jornal Nacional, que depois foi narrar a bíblia? Meu Deus, fico pensando na pessoa que resolveu comprar a Bíblia na voz dele, seria isso já uma penitência? Enfim, deixa para lá.

Oh Asdrubal, agora quem fala para você ir parando sou eu, mal acabou de chegar e já vai começar a me zoar? Me respeite, heim, faço isso há tantos anos que nem lembro mais, já recepcionei gente de todos os lugares, famosos inclusive, lembro que uma que me deu um trabalhão foi a Dercy, como era desbocada, mas gente muito boa. A propósito, já até gravei a morte desse apresentador que você falou, mas ele nada ainda. Se você quiser ouvir, te mostro, assim você dá sua opinião.

– Como gravou a morte? Eu estou falando com uma gravação, é isso?

Meu caro Asdrubal, você acha que só a imprensa humana deixa notícias e matérias de mortes prontas? Claro que não, ingênuo. Mas você não é famoso, no seu caso é tudo ao vivo.

– Nossa, essa doeu heim: “Você não é famoso”. Quer dizer que até na morte tem preconceito, então? Privilégios?

Não temos privilégio nenhum e se você quiser, pode reclamar para os Direitos dos Mortos, vai lá e protocola uma reclamação.

– Humm, agora ficou ofendidinho também. Pronto, estamos empatados: 1 X 1. Mas não foge do assunto não, quero saber seu nome, como eu te chamo? Quem é você, voz do além?

Pode me chamar de Voz do Universo, Narrador do Cosmo ou..

– Pode parar, que coisa mais chata e sem noção. Quem se chama Voz do Universo? Narrador do Cosmo? Puta cafonice, não achei que a morte fosse tão chata. Nome, quero nome!?

Mas é que meu nome é um pouco diferente, sabe?

– Sim, claro e você vem falar isso para um cara que se chama Asdrubal Hermenegildo Roberto da Costa Lima e Silva? Amigo, conta outra e vai soltando o verbo, anda.

(Bem baixinho)

Mortício das Cruzes.

– Não ouvi. Logo você com essa voz forte, sussurrando desse jeito.

Mortício das Cruzes.

(Cinco minutos de risos)

– Mas é um predestinado, mesmo, não é? Com um nome desse só poderia ser o narrador do além.

Pensei que não iria me zoar, já tinha avisado.

– Ihh, vamos parar com o drama também. Um pouco de humor cai bem para todo mundo, até para a Voz do Além. Vai fazer o quê? Morrer de tristeza?

Olha, quer saber, vamos mudar de assunto que essa conversa já me cansou e vamos ter o restinho da eternidade para conviver, então, é melhor nos darmos bem.

– Não precisa apelar, tudo bem, vamos ficar amiguinhos então, mas vamos combinar uma coisa, vou te chamar de Mort, pode ser?

Pode, até gostei, ficou simpático, Mort.

– Acertos diplomáticos à parte, vamos ao que interessa. Preciso muito falar com minha esposa, nós estávamos combinando uma grande viagem e tenho algumas coisas para acertar com ela, além disso, guardei algumas coisas do trabalho que só eu sei onde estão, informações importantes e preciso passar isso para meus colegas. Pensando bem, tem uns amigos que queria me despedir, outros que eu queria aproveitar e mandar para a ..

Opa, sem baixaria por aqui, olha lá o que você vai falar! Além do que, Asdrubal, pode esquecer, você não vai conseguir falar com mais ninguém e as pessoas vão ter que aprender a se virar sem você. Sabe aquela velha máxima de que ninguém é insubstituível? Pois bem, essa situação é a aplicação prática desse ditado popular.

– Mas tem que ter um jeito, nunca fui pessoa de aceitar um não e pronto. Sempre tem que existir um plano B, um contingenciamento, sei lá, dê o nome que quiser, mas tem que haver uma alternativa.

Não tem.

– Oh sujeito teimoso!

Ah, eu sou teimoso? Você acabou de chegar, já quer mudar as regras e eu sou teimoso?

– Mas é que..

Mas nada, aceita que dói menos, playboy.

– Nossa, que moderninho que você está, heim? Fez curso de reciclagem? Especialização à Distância nas Faculdades..

Nem complete, aqui também não permitimos propaganda de nenhum tipo.

– Chatão mesmo, heim. Mas voltando ao assunto, sou teimoso sim, tem que existir um jeito e, se não tiver, eu invento.

E assim seguiu Asdrubal, inconformado, brigando com a Mort (no caso, comigo mesmo), tentando achar um jeito de estabelecer a comunicação com os vivos. Ele passou alguns dias assim, agitado, depois ficou depressivo, agitado de novo, depressivo outra vez, na verdade já estava era ficando chato, mesmo.

– Estou escutando o que você está falando, não penso que só porque estou morto, também estou surdo!

Nesse momento, Asdrubal olha para uma mesinha onde haviam algumas folhas de papel em branco e uma caneta tinteiro. Eu sei, é mais um pouco de clichê, afinal, porque sempre as coisas de outra dimensão, que não podemos explicar, tem que nos remeter ao passado, com coisas antigas, mas vai ser assim e pronto, afinal, o narrador sou eu. Não, não sou muito democrático.

– Já sei, vou escrever e mandar cartas!

Asdrubal, meu caro, aqui não tem Correios.

– Graças a Deus que não.

Mas como é que você vai mandar essas cartas?

– Sei lá, não pensei nisso ainda, mas você bem poderia me ajudar, afinal, você conhece todo mundo mesmo, tem seus contatos que eu sei, já é velho de casa, sabe das coisas, poderia mexer seus pauzinhos aqui e ali e me ajudar, não pode?

Não, não posso. Está achando que vai me subornar, é?

– Nossa, está difícil heim! Que suborno, que suborno? Estou pedindo ajuda. Está pensando que está em Brasília? Nem todo mundo vive só de suborno, não. Ajuda, eu preciso de A J U D A, entendeu?

Entendi sim, mas não posso.

– Está bem, já entendi, vai só ficar com essa voz daquele locutor, me recriminando e me desanimando. Não tem problema, fique ai com seu mau humor que vou dar um jeito sem você mesmo.

Essa eu quero ver.

– Está me desafiando? Pois agora virou questão de honra!

Asdrubal começou a escrever algumas cartas. Fez um pouco de drama, como era de se esperar, mas também teve momentos de alegrias, em outros, realmente se emocionou e chorou e assim seguiu, escrevendo muito nos dias que se passaram.

– Eu escrevi por dias?

Sim, na verdade, por meses. Como falei lá no começo desse capítulo, é comum os mortos recém-chegados perderem a noção do tempo e isso aconteceu com você. Veja o monte de cartas que você tem nessa mesa. Quero só ver como você vai mandar isso.

– Simples, vou instituir aqui o FODASe

Asbrubal! Vou ser obrigado a lhe aplicar uma sanção, afinal, já te expliquei que não tolero baixaria por aqui.

– Que baixaria que nada, o FODASe será um serviço revolucionário, deixa de ser mente suja, estou falando de um serviço que vai revolucionar a comunicação entre os mundos!

Explique melhor isso. Tenho até medo de te perguntar, mas explique melhor essa história de FODASe.

– Bom, vamos começar por esclarecer que o FODASe não é um palavrão, mas sim um acrônimo para a revolucionária tecnologia: Fast Open Delivery Architecture Service, traduzindo, Arquitetura Aberta de Entrega Rápida de Serviços.

Tudo bem, já entendi que não é palavrão, mas só isso. Não entendi mais nada.

– O FODASe é um padrão de arquitetura, baseado em tecnologias livres, ou seja, não tem segredo de mercado, até porque, não vou ter como ganhar dinheiro aqui mesmo, mas enfim, resolvendo meus problemas, já estou satisfeito. Mas voltando, o FODASe será um protocolo, um padrão de Arquitetura de Serviços, que vai me ajudar a mandar essas cartas para os vivos.

Acho que continuo não entendendo, mas vamos ver onde isso vai dar.

– Você que me desafiou, agora aguente! Mas não vou explicar isso agora, estou cansado, faz meses que morri e não descansei ainda. Já vi que esse papo de descanso eterno é outra história que contaram para morto ver.

E assim, Asdrubal, após alguns meses, pode finalmente tirar sua primeira noite de sono na eternidade.

No próximo capítulo continuamos essa história do FODASe.

Sou obrigado a concordar que a “classificação livre” para esse livro já foi, mas viva o FODASe, e até o próximo.

 

 

 

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