Asdrubal morreu! Asdrubal morreu!

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Era uma bela manhã de sábado, o dia estava lindo, ensolarado e o final de semana prometia. Asdrubal teve uma semana estressante no trabalho, seu chefe era o próprio demônio encarnado e o sonho dele era um dia mandar o chefe para aquele lugar que você está pensando agora. Ele foi dormir na sexta-feira já era tarde, tinha pensado muitas coisas, queria aproveitar o final de semana para relaxar um pouco, dar uma descansada legal, em resumo, recarregar as baterias.

Para não perder boa parte do sábado dormindo, Asdrubal colocou o relógio para despertar às 8 horas, pois queria ter um final de semana bem aproveitado. O relógio tocou, mas o Asdrubal não acordou. Como o despertador não parava e o Asdrubal estava lá, imóvel, sua esposa já um pouco irritada, deu-lhe um chute, mas nada do Asdrubal se mexer.

Acorda, porra! Foi o primeiro simpático som que ecoou no quarto do casal, mas Asdrubal nem ligou, continuou lá paradão. Ela então resolveu empurrá-lo da cama, mas nisso, deu um grito que acordou os dez vizinhos mais próximos: Asdrubal morreu! Asdrubal morreu! Gritava ela desesperada e aos prantos!

– Como assim, morri? Você está louca? Não está vendo que estou aqui, do seu lado, já em pé! Eu heim, essa mulher deve estar de TPM, já vi que meu final de semana vai ser outro porre!

Como a mulher não parava de gritar, os filhos logo entraram no quarto, se depararam com a cena e começaram a chorar, vizinhos começaram a tocar a campainha e o Asdrubal, já irritado, foi abrir a porta para dizer que nada tinha acontecido e que a mulher tinha surtado. No entanto, seu filho mais velho passa por ele e vai em direção a porta também.

– Asdrubal Jr, que educação é essa? Não vai me dar bom dia?

Nada do filho sequer olhar para ele e isso o deixou mais irritado ainda. Asdrubal Jr, vai até a porta, abre-a e os vizinhos começam a se acumular na sala, alguns já vão subindo para o quarto, alguns chorando, outros falando baixinho e o Asdrubal sem entender nada.

– Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece! Deus, assim não dá, hoje que eu planejei um dia calmo, um dia para relaxar, a coisa já começa assim? Vai me sacanear mesmo, então?

Foi então que o Asdrubal resolveu voltar para o quarto, queria contar que tudo aquilo era um grande mal-entendido e que cada um voltasse para sua casa, pois ele queria paz e sossego. Quando ele entra no quarto, também começou a gritar, pois olhou para a cama e se viu deitado. Nesse momento ele começou a ter a sensação de que algo muito estranho estava acontecendo, começou a tocar uma musiquinha relaxante ao fundo, um filminho começou a passar pela sua cabeça, uma luz que vinha vindo em sua direção e…

– Pode parar! Pode parar já com isso! Já sei onde essa merda toda vai dar, já assisti Ghost umas quinhentas vezes na sessão da tarde e isso não está acontecendo comigo coisa nenhuma!

É, Asdrubal, no começo é assim mesmo, ninguém aceita, todos acham que é pegadinha do Silvio Santos, pegadinha do Malandro, mas é a vida. Um dia, todos nós vamos morrer.

– Mas eu não morri! Se eu estou aqui falando com você, como posso estar morto? Estou vendo minha mulher chorando, meus filhos, meus vizinhos, todo mundo aqui! Você é que também está louco! Como posso ter morrido se estou vendo todo mundo?

Asdrubal, meu caro, você já se perguntou se eles estão te vendo? Será que eles estão te ouvindo?

– Asdrubal Jr, venha já aqui, fale com seu pai! Asdrubal Jr, não me ignore que não foi essa a educação que eu te dei! Asdru….

(Pausa dramática e mais um pouco de musiquinha, ao melhor estilo Ghost)

E mais vizinhos foram chegando, a ambulância chegou, a polícia chegou, a funerária chegou e o Asdrubal percebeu que o colocaram numa maca, colocaram um lençol branco por cima, cobrindo-o por completo e..

– E tira já esse negócio da minha cara que eu sou claustrofóbico e ficar com tudo coberto está me sufocando, será que não dá para se tocar disso?

Enfiaram a maca numa gaveta, dentro do carro funerário e lá foi o Asdrubal, reclamando ao ouvido do motorista, que seguia pelas ruas, completamente alheio as reclamações do Asdrubal, mas nem por isso, menos puto da vida, afinal, quem era esse sujeito que resolveu morrer logo numa manhã ensolarada de sábado, para acabar com sua folga?!

– Amigo, eu não morri coisa nenhuma, deve estar acontecendo algum engano, vocês não vão me ouvir? Parem de me ignorar. Aliás, como foi que eu escutei o seu pensamento? Se você nem falou, como sei o que você está pensando?

(Mais pausa dramática e mais musiquinha)

As próximas horas do Asdrubal seriam as mais difíceis, mas isso não era só ele, todos são iguais, reclamam, protestam, falam que vão processar, alguns ficam alegando que são importantes, que tem gente aguardando por eles, mas isso não muda nada. A morte é que muda tudo, muda a perspectiva, muda o foco, muda a dimensão das coisas.

Asdrubal começou a se dar conta do que realmente tinha acontecido, ou seja, de que ele realmente havia morrido, quando os médicos começaram a fazer sua autopsia. Ai ele enlouqueceu, gritou, berrou, chutou e se deu conta que nada aconteceu.

Nesse momento ele começou a perceber a luz, o filme e todos aqueles clichês que todo mundo fala e percebeu que era inútil lutar. Asdrubal tinha morrido e agora ele sabia disso.

– É, saber eu sei, mas continuo contestando! Vou entrar com recurso no Supremo Tribunal Celestial, pois isso não é justo, só fui morto em primeira instância, nunca tinha morrido antes, ou seja, sou um morto primário e tenho direito a permanecer vivo até que todos os recursos tenham sido julgados!

O corpo do Asdrubal foi liberado, colocaram-no num caixão bonito.

– Que caixão bonito, desde quando caixão é bonito? Bonito porque não é seu!

As coroas de flores foram chegando, os amigos, parentes, alguns chorando, outros conversando, um outro grupo contando piada e…

– Epa! Pode parar! Como assim, eu morro e alguém vai contar piada??? Cadê o respeito? Cadê o sofrimento?

O velório foi seguindo, como todo velório, com momentos muito tristes, outros menos pesados e assim foi. Chegado o momento do enterro, as pessoas se juntaram próximas ao caixão e foi quando o Asdrubal, que acompanhava, incrédulo ainda, a todo o processo mortuário, resolveu fazer um discurso.

– Bom, já que aqui estamos reunidos, no meu velório, gostaria primeiramente de agradecer a presença de todos vocês e dizer que…. Dizer que não agradeço coisa nenhuma, onde já se viu alguém agradecer pelo seu próprio velório! A morte não está me fazendo muito bem, só pode! Quero dizer que eu quero sair dessa porcaria e voltar para minha vida, eu reclamava dela, é verdade, mas eu até que gostava, sabe? Não me deixem aqui, eu gosto de vocês…. quer dizer, nem de todos, aliás, não sei o que algumas pessoas estão fazendo aqui, falsas do caramba, aposto que vieram só para ver se eu estava sofrendo!

O corpo foi sepultado no jazigo da família, aos poucos todos foram saindo e o Asdrubal ainda não tinha certeza para onde iria, afinal, nenhum ser de luz ainda tinha aparecido para vir lhe buscar.

– Ok, tudo bem, não apareceu nenhum ser de luz, mas pelo menos também não veio nenhum ser das trevas. Depois da musiquinha, já estava começando a ficar com medo.

Na dúvida, resolveu voltar para casa, pelo menos era um ambiente que ele conhecia e até que algum ser iluminado aparecesse, era por lá mesmo que ele ficaria.

Mas a confusão estava só começando. Asdrubal, como todo recém falecido, ainda iria causar muito tumulto e confusão. Confira nos próximos capítulos.

– Nossa, estou me sentindo numa novela daquele autor que adora um sofrimento , além das “Helenas”, é claro. Só falta agora começar a tocar “quando a luz dos olhos teus…”. Aliás, falando nele, acho uma sacanagem eu ter morrido e ele .. enfim, deixa para lá, vai que ele me processa.

Foi nesse momento que Asdrubal percebeu uma das grandes vantagens de se estar morto. Ele não poderia mais ser processado, portanto, poderia falar o que quisesse, sem medo de ser feliz.

– Quer saber, estou começando a ver vantagem nesse negócio de ter morrido…

E o Asdrubal teve o seu momento “Fiat Lux”… agora, ninguém mais segura essa alma.

As primeiras horas sempre são as mais difíceis

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