Testando a Comunicação

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Asdrubal passou dias a fio trabalhando no projeto do FODASe, não parou um minuto sequer e, finalmente, quando conseguiu fazer o C.A.R.A.L.H.O funcionar, bingo!

– Mort! Consegui! Acho que já podemos começar os testes.

Fiz cara de surpresa, como se já não soubesse… Às vezes, o Asdrubal esquece que sou eu que estou controlando essa história, mas até acho divertido.

– Agora nós já podemos testar esse processo de comunicação, confesso que estou bem curioso para ver como isso vai funcionar. Estou pensando em qual vai ser a reação da pessoa do outro lado, como ela vai encarar o fato de achar uma carta de quem já morreu. Será que vão acreditar ou vão achar que é alguma pegadinha de mau gosto, igual aquele cara sem graça do glu glu.

Asdrubal, isso nós só vamos saber na hora em que acontecer. Você já construiu todo o equipamento, agora é usar e ver no que vai dar.

– Mort, estou pensando numa coisa aqui, acho que vou começar o teste pela minha sogra.

Nossa, não sabia que você tinha tanta consideração assim por ela?

– Que consideração, coisa nenhuma, ficou louco, é? Muito pelo contrário, estou pensando que se algo der errado e a velha morrer, dos males o menor. Na verdade, o problema passa a ser seu….

Asdrubal, Asdrubal, isso não é um comportamento apropriado, heim. Que coisa…

– Ah, vai falar que você gostava da sua sogra? Garanto que você também deve ter “esquecido” dela lá pela Terra até hoje! Não foi, não?

Bem, vamos mudar de assunto. Mas falando na sua sogra, saiba que ela está escalada para a próxima convocação. Já está bem idosa, colesterol alto, pressão alta, diabetes, sabe como é, no próximo mês ela faz parte da lista.

– Êpa, pode parar! Uma das poucas vantagens que vi na morte até agora foi me livrar da velha e lá vem você com essa sua chatice querendo acabar com a minha festa? Se vira, Mort, agora não, nem pensar!

Mas Asdrubal, você não acabou de falar que vai fazer um teste com ela? Que se desse errado…

– Exatamente, mas lembre do que falei ao final, que se desse errado “o problema passa a ser seu”, S E U, entendeu? Nem vem querer já me sacanear, não. Não vou deixar você usar o FODASe, pronto!

Ah, então é assim, vai ser na chantagem?

– Vai. Se quiser usar o FODASe, pode ir mudando de ideia.

Era só o que me faltava, o sujeito acaba de chegar e já quer mudar tudo.

– Se vira! Tenho certeza que você tem como mexer seus pauzinhos e tirar a velha da fila. Qualquer dúvida, pede uma dica para os Juízes do Supremo Brasileiro, eles são ótimos para dar dicas sobre tirar nomes de listas. Lembra daquele presidente do Senado? Então…

– Outra coisa, se der errado, bota a culpa no computador, no sistema e pronto, afinal, a culpa sempre é do sistema. Até parece que você nunca ligou para um SAC?! “Ah, Senhor, o sistema caiu e não vamos poder tá ajudando agora”, “Ah, Senhor, o sistema teve uma falha e seu nome não vai tá constando na lista”.

Asdrubal, na minha época não tinha essas coisas.

– Pois trate de se modernizar, hoje é assim, tudo é sempre culpa do sistema e, qualquer coisa, chama os “meninos do computador” e pronto. Eles mandam você reiniciar o sistema e tudo resolvido.

– Enfim, vai me ajudar ou não vai? Se você falar que minha sogra vai chegar eu vou me matar!

Asdrubal, você já está morto, seu lerdo.

– Agora surgiu uma dúvida filosófica. Estando eu morto, se eu me matar novamente o que acontece? Volto a viver?

Asdrubal, lembra da história do Rivotril? Vou achar um prá você. Agora, volte para a realidade e continue.

– Bom, o negócio é o seguinte, eu vou escrever uma carta para a minha sogra, só para testar e vamos ver o que vai dar. Será que a velha está pensando em mim?

Está.

– Como você sabe?

Porque eu sei tudo, novato. Não entendeu ainda?

– Humm, sabe tudo. Desculpa a minha ignorância!

Mas eu acho que você não vai gostar de saber o que ela anda pensando sobre você.

– Ah, sério que a velha ainda está me atacando, mesmo depois de morto? Isso é covardia, agora que não posso mais me defender!

Chega de drama e vamos trabalhar vai, não é só porque temos o resto da eternidade pela frente que não temos que ter pressa.

– Vou escrever um bilhete e vamos ver. Dá uns minutos, deixa eu pensar um pouco…

Asdrubal pensou, pensou, pensou mais um pouco e finalmente começou a escrever o bilhete, que ficou assim:

“Querida sogra, espero que esteja bem. Aqui quem fala é o seu genro, Asdrubal, que morreu recentemente e do qual, espero, a senhora esteja sentindo falta, afinal, nos dávamos tão bem, não é mesmo?

Estou escrevendo para dizer que por aqui está tudo bem. Como estou com muito tempo ocioso, resolvi criar umas coisas e uma delas é uma máquina para transportar cartas daqui até aí. O nome da máquina é…bem, deixa isso prá lá, não vai fazer diferença mesmo.

Por favor, avise a todos que estou bem e estou com muitas saudades.

Um abraço,

Do genro que te ama

Asdrubal”

– Mort, acabei, dá uma olhada nisso.

Já vi.

– O que achou?

Que está mais falso do que as declarações de inocência do Mula. Mais incoerente que os discursos da Vilma. Enfim…

– Tá, já entendi. Pegou pesado, heim!? Mas você queria o quê? Que eu falasse a verdade?

Asdrubal não fazia ideia do que estava por vir. Coisa de principiante, acha que já pode chegar causando uma revolução e fazendo tudo ao seu jeito. Mal sabia ele o que o aguardava em breve.

– Mort, vou colocar a carta na P.U.T.A.

Asdrubal! Mas de novo você está transgredindo as regras. Já não te falei que estamos num ambiente puro!

– E eu já não te falei sobre os termos técnicos? P.U.T.A. é só mais um: Post Urgent Transference Allocation, uma espécie de Alocação de Postagem para Transferência Urgente. Viu só, mais um termo técnico. Aliás, acho que vou fazer um manual, assim você não será mais pego se surpresa.

– A ideia básica do sistema é a seguinte: Você coloca a carta na P.U.T.A., espera o C.A.R.A.L.H.O acumular energia suficiente e, então, o FODASe entra em ação.

Chega, Asdrubal, tá bom, já entendi. Estou até vendo que qualquer hora eu vou levar uma advertência por conta desses seus “termos técnicos”. Até eu explicar que focinho de porco não é tomada, já vou ter tomado no mínimo uns três dias de gancho! Já pensou? Três dias sem morrer ninguém já vai causar um tremendo desequilíbrio no Planeta. Espero que o Todo Poderoso leve isso em consideração..

Mas mudando de assunto, sua sogra está conversando com sua mulher e estão falando de você, então, temos um ambiente propício para o seu experimento. Aconselho usar logo a P.U.T.A., senão pode ser que o C.A.R.A.L.H.O acabe acumulando energia e o FODASe ainda não estará pronto.

– Aeeeee, tá ficando ligadão, heim, Mort. Até parece que sou eu que estou falando. Tô gostando de ver essa intimidade com a tecnologia.

Sempre fico um pouco sem graça quando sou elogiado…

– Mas tudo bem, vamos lá, bilhete colocado na P.U.T.A., estou verificando que os níveis de energia do C.A.R.A.L.H.O já estão chegando no mínimo necessário e.. lá vamos nós!

Nesse momento uma explosão de energia acontece e o bilhete simplesmente some, diante dos nossos olhos.

– Mort, o FODASe funcionou!!!! Você viu, o bilhete sumiu!

Isso mesmo, Asdrubal. Meus parabéns, sua invenção funcionou! Agora, vamos aguardar para ver o que vai acontecer.

– Mort, você bem que poderia liberar o acesso às imagens das Câmeras Celestiais de Segurança, o que acha? Queria ver a reação da minha querida sogra.

Mas nem pensar, isso é uma violação de segurança gravíssima. Perdeu a noção do perigo, é? Imagine, nem sob tortura vou fazer isso!

– Tudo bem, mas depois você me conta então. Quero saber de todos os detalhes.

Vou tentar a liberação da P.O.R.R.A. para você, junto ao chefe do Gabinete de Segurança Celestial e..

– E, o quê? Então quer dizer que o senhor me solta um P.O.R.R.A. e, depois, vem chamar a minha atenção, ainda?

Ah, esqueci de avisar que P.O.R.R.A. também é um termo técnico: Portable Reviser Rapid Access, ou Revisor Portátil de Acesso Rápido, que nada mais é do que um dispositivo eletrônico que usamos para monitorar algumas pessoas, especificamente. Como ele só recebe o sinal de uma pessoa específica, acho que não teria problema você ter acesso a um. É tipo uma tornozeleira eletrônica, aquelas que os presos da Lava Jato nunca podem usar porque acabou..também, roubaram tanto que acabou o dinheiro até da tornozeleira…

– Entendi e agradeço, mas preciso dizer que o senhor aprendeu direitinho, heim!? Esse Mort está me saindo melhor do que a encomenda. Daqui a pouco a criatura está superando o criador.

Pode parar de ir se achando, Asdrubal, e que história é essa de criatura e criador. Se enxerga, você acabou de chegar! Ah, poupe-me, vá.

– Era só brincadeirinha, calma. Mas obrigado pela consideração. Vou esperar então para ver se você consegue essa P.O.R.R.A.

Depois de um tempo, volto para falar com o Asdrubal, pois a chefia liberou a P.O.R.R.A. numa boa e ele poderá assistir, em tempo real, a reação da sua sogra.

A carta, conforme Asdrubal previu, realmente apareceu no quarto da velha, digo, no quarto da sogra, mas ela demorou para perceber, o que foi positivo pois, agora que o Asdrubal já estava com a P.O.R.R.A. do equipamento, poderia assistir, embora, particularmente, não ache que seja uma boa ideia, mas ele precisa se familiarizar com sua nova vida e, assim como na Terra, aqui também não é muito diferente e, na maioria das vezes, só aprendemos com os erros e com as consequências desses erros. Asdrubal estava prestes a descobrir que não podia manipular tudo.

– Poxa, Mort, você foi muito brother agora! Já estava frustrado por não poder ver, mas você é parça mesmo e conseguiu resolver meu problema.

Asdrubal, obrigado pelos elogios, mas vamos mudar um pouco essas gírias?! Sou velho para essas coisas, não gosto disso, não. Não precisa ser um Machado de Assis, mas tudo isso é muita modernidade para mim e não estou acostumado. Me irrita!

– Tá bem, pode deixar, Mort, prometo que não falo mais nenhuma gíria, brow.

Bom,  liga a P.O.R.R.A. ai que sua sogra acabou de achar o bilhete.

– Opa, vamos lá então! Olha lá, Mort, ela acabou de ver o bilhete dobrado sobre o livro de cabeceira dela. Vamos ver o que vai acontecer.

E a sogra do Asdrubal começou a ler o bilhete, foi ficando vermelha, roxa, azul, verde e soltou um sonoro “filho da “. Bem, vocês já entenderam.

– Mort, mas o que aconteceu? Fui tão simpático no bilhete, o que a deixou assim tão brava? Por que ela está me xingando tanto?

Asdrubal, dá um zoom na tela e veja o bilhete que ela tem em mãos.

– Mas eu não escrevi isso. Essa máquina está com defeito! Você leu meu bilhete, tudo bem que você falou que era mais falso do que a declaração de inocência do Mula, mais incoerente do que os discursos da Vilma, mas tá vendo, não era isso que eu havia escrito!

Meu caro Asdrubal, vamos retomar alguns conceitos. Lembra-se do que falamos sobre energia?

– Claro que lembro, mas que pergunta, o FODASe e o C.A.R.A.L.H.O foram feitos com base nisso!

Exatamente. Lembra-se da sua própria explicação sobre como o C.A.R.A.L.H.O iria funcionar? Que ele captaria a energia de todos os envolvidos?

– Sim, Mort, lembro. Essa conversa já está me dando tédio. Onde você quer chegar com tudo isso?

Elementar, meu caro Asdrubal. Se tudo é energia e você está desmaterializando um objeto aqui e materializando lá, tudo isso pelo reagrupamento energético, o que você acha que vai sair do outro lado?

– Energia reagrupada.

Exato. E dá para mudar uma energia já emitida?

– Até dá, mas é um pouco complicado e não pensei em nada disso.

E nem funcionaria, mesmo que você tivesse pensado. O que vai sempre chegar lá na Terra é a energia in natura, ou seja, aquilo que você pensou, aquilo que você sentiu e nunca aquilo que você manipulou, pois isso não era sua energia. Sua energia é aquilo que você sente, aqui que está no seu pensamento, no calor da discussão e não aquilo que você elabora, dentro de uma política de boa convivência social.

– Poxa, Mort e você sabia de tudo isso e não me falou nada? Assim você me quebra as pernas, heim?

Não iria adiantar, sei como você é teimoso, você já iria logo dar um jeito e…

– Ah, tá bom, mas agora estou sem ter o que falar. Quer dizer que não adianta nada eu escrever um monte de coisa aqui?

Adianta sim, desde que seja o que está no seu coração, na sua alma. Se você escrever qualquer outra coisa, quando houver o reagrupamento de energia, vai sair no papel aquilo que você pensou e sentiu no exato momento em que escrevia e não o que, de fato, você escreveu.

– Agora os berros dela fizeram sentido….

Asdrubal, dá uma olhada no que ela leu:

“Detestável jararaca, espero que esteja morrendo de dor naquela sua joanete nojenta. Aqui quem fala é o seu genro, Asdrubal, que morreu recentemente e do qual, espero, você não sinta falta alguma, pois eu não sinto a sua, afinal, nunca nos suportamos, não é mesmo?

Estou escrevendo para dizer que você é uma chata e que por aqui está um tédio. Como não tenho nada prá fazer, to inventando umas coisas aqui e uma delas é uma máquina para transportar cartas até ai, já que não posso mandar um escorpião venenoso para te picar, que seja uma carta e que, ao ler, você morra de susto. O nome da máquina é FODASe, mesma palavra que sempre tive vontade de te dizer, mas que me controlava, por mera educação.

Faça alguma coisa de útil e, ao menos, dê o recado para todos que estou com saudades, menos de você, é claro. Acho que isso você vai conseguir fazer, não é?

Um chute na sua bunda

Do genro que te detesta.

Asdrubal”

– É, agora acho até que ela gritou pouco. Mas não posso negar que foi divertido.

– Olha lá, a velha está doida, está achando que eu sabia que iria morrer e que deixei isso escrito e pedi para algum amigo  entregar.  Sabia nada, até pareceu que se eu soubesse que iria morrer, me preocuparia de escrever para você, se toca!

– Veja que doida, está ligando para alguns dos meus amigos para perguntar. Vai se passar de louca. Nossa, a velha surtou!

Asdrubal, deixa essa P.O.R.R.A. de lado agora. Comece a pensar nos seus atos e perceba que daqui você não vai conseguir esconder mais nada. Tudo o que você mandar para lá, será exatamente o que você sente, acabou a mentirinha da boa convivência. Tem que ser 100% sincero e pronto.

– Mas, Mort, assim não dá. Quem nunca contou uma mentirinha para não magoar o outro? Isso é impossível.

Lá sim, aqui não. Aqui, somos pura energia e a energia não pode ser disfarçada. E, antes que já venha com mil argumentações, se tiver reclamações, passa lá no departamento de Criação e reclama. Não fui eu que fiz a Lei, só estou cumprindo.

Também, só para te avisar, ultimamente Ele anda meio sem paciência…

– Bom, sendo assim, vou ter que reestruturar tudo o que eu queria fazer. Assim não vale, complicou demais.

O meu caro ingênuo, por qual motivo você acha que nunca ninguém antes se arriscou a fazer o que você está fazendo?

– Quer dizer então que outros já tinham pensando nisso?

Asdrubal, estamos aqui a bilhões de anos, sério mesmo que você está se achando tanto assim? Claro que sim! Hããããã.

– #Chateado, aliás, #Chateadão..

– Me diz uma coisa, da Terra alguém já conseguiu mandar uma resposta para cá?

Asdrubal, acho que você ficou lesado mesmo, heim. Não acabamos de ver a reação da sua “querida” sogra?

– Não foi nesse sentido que falei, hããã. Alguém de lá conseguiu conversar com alguém daqui?

Não.

– Hummm, então acho que toda essa sinceridade vai ser muito boa!

Ai meu Deus, lá estou eu novamente sentindo um frio na espinha que nem tenho. O que você vai aprontar agora?

– Aguarde cenas dos próximos capítulos.

Asdrubal, Asdrubal, desembucha.

– Não, vai ficar no suspense até o próximo capítulo. Esse já ficou longo e está na hora de acabar, senão nenhum leitor vai aguentar. Chega!

E assim encerramos mais um capítulo, onde eu mesmo ficarei curioso até o próximo, pois conhecendo o Asdrubal, já estou até com medo do que ele está pensando em aprontar. Até breve!

– Ei, Mort?!

Fala, Asbrubal.

– Nada não, só para te chamar mesmo, ver se você estava ai ainda..

Vamos, pode parar agora. Podem continuar seus afazeres ai que, por aqui, hoje não tem mais nada.

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