Causando o Primeiro AVC

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Ei, você mesmo que está lendo, você se lembra do final do capítulo anterior? Como assim, não? Xiiii, começo a achar que o italiano te pegou, heim.

– Mort, não é italiano.

É verdade, é argentino.

– Mort, que argentino, quem leva argentino a sério? E outra, já começo a achar que você foi picado pelo mesmo mosquitinho, heim..

(respirando fundo)

Vamos começar tudo de novo:

Ei, você mesmo que está lendo, você se lembra do final do capítulo anterior? Como assim, não? Xiii, começo a achar que o alemão te pegou, heim!

– Aeeee, parabéns, Mort, agora vai.

Asdrubal, fica quieto senão me perco!

Bom, retomando, no final do capítulo passado o Asdrubal teve algumas ideias, um pouco preocupantes, é verdade, pois descobriu que poderia tirar vantagem do fato da sinceridade das comunicações. Agora que você já relembrou, vamos lá.

A primeira pessoa que ele pensou em escrever foi para o seu chefe, pois nutria por ele alguns sentimentos não muito nobres e achava que precisava esclarecer algumas coisas. Ele escreveu uma carta bem “amável” para ele, colocou a carta no P.U.T.A. e ficou pensando no seu antigo emprego, na sua rotina de trabalho e no seu querido chefe.

Asdrubal se deu conta que naquele dia fazia três meses que ele tinha morrido e, quando percebeu isso, notou que o nível indicativo de energia acumulada atingiu o ponto máximo e foi para o C.A.R.A.L.H.O.

Rapidamente a carta sumiu, bem ali, diante dos seus olhos e então, Asdrubal correu para pegar a P.O.R.R.A. e observar o que estava acontecendo do outro lado. Ao ligar o dispositivo, já visualizou a sala do seu antigo chefe e, para sua alegria, seu ex-chefe estava conversando com uma pessoa que ele não conhecia, mas logo notou que o antigo chefe falava mal dele.

– Mort, posso falar agora? Acho que vai ficar mais emocionante eu mesmo contando isso!

Tudo bem Asdrubal, esse é o meu trabalho, mas concordo contigo, até porque, como falei, estou cansado e preciso de férias, quem sabe me aposentar mesmo. Se você quer, fique à vontade.

– Quero sim, afinal, o sangue já me ferve nas veias e  quero logo dar uns socos nesse baixinho folgado de merda. Nesse caso, merda é merda mesmo, não é acrônimo para nada, não, é baixinho de merda, no sentido mais literal possível.

Asdrubal, você precisa se controlar, senão…

– Senão o quê? Vou ter um infarto e morrer? Já estou morto mesmo!

(cara de reprovação)

– Tá bem, já entendi, vou me esforçar, mas não prometo muita coisa, não. Quando fico estressado, senão falar palavrão eu morro!

Mas você já está morto…

– Mort, pare de ser estraga prazer, você entendeu!

– Mort, veja isso! Ele está falando que eu deixei ele na mão! Mort, eu morri! Qual foi a parte de que eu morri que esse baixinho de merda não entendeu! Como assim eu não cumpri o acordo? Quem não cumpriu o acordo foi o departamento celestial que me tirou da Terra sem aviso prévio…

– Ah sim, agora ele está falando que eu dei um baita trabalho porque não passei o serviço para esse outro aí, que pelo jeito é meu substituto. Queria ver se eu levantasse do caixão e fosse falar com ele, se ele acharia legal. Mort, pensou que máximo seria isso?

Asdrubal!

– Vou falar umas verdades para esse baixinho folgado, quero só ver. Vou jogar na cara todos os podres dele, que eu sei e quero ver a cara de besta que ele vai ficar. Que me aguarde.

Nesse momento, Asdrubal se deu conta de que sobre a mesa do seu ex-chefe havia um envelope fechado, junto a caixa das correspondências internas, aquelas famosas caixas de mesa de escritório. Percebeu também que na identificação estava escrito DE: Asdrubal PARA: Baixinho de MERDA.

– Ah, hoje o bicho vai pegar! O FODASe funcionou direitinho e o baixinho recebeu meu recadinho do coração (peludo). Primeiro que ele odeia ser chamado de baixinho, segundo que o adjetivo “de MERDA” vai complicar um pouquinho mais.

Asdrubal deixou o P.O.R.R.A. ligado e ficou assistindo, de camarote, todo o falatório do seu ex-chefe. O substituto do Asdrubal saiu da sala, falou muito pouco, pois também achou a situação muito estranha, afinal, ele sabia que estava sendo contratado para a vaga de um morto. O chefe voltou a seus afazeres diários.

– Sim, os principais afazeres diários dele eram infernizar a vida de todo mundo. Aposto que ele vai pegar o telefone e ligar para o cara do faturamento para dar uma bronca nele, pois é o que ele sempre faz, todos os dias. Deve anotar na agenda, para não esquecer de nenhum. Aliás, ele não chama de bronca, chama de feedback. Acaba com a vida do sujeito, mas ele deu um feedback.

E, de fato, foi o que aconteceu. O sujeito pegou o telefone, ligou para o pobre coitado do faturamento, que ficou ouvindo impropérios por uns vinte minutos.

– Agora ele vai fazer uma reunião, chamar todo mundo e lá vem mais “feedback”. Pode apostar! Esse baixinho vive de mau humor. Eu tenho uma teoria para isso, mas..

Asdrubal, nem pense em contar essa sua teoria aqui, conheço bem qual é.

– Mas se você já conhece, sabe que ela tem fundamento.

Até que tem, mas não podemos falar disso aqui!

– Isso aqui também é uma ditadura, heim! E depois o povo fica lá na Terra, fazendo protestinho pela defesa da democracia, deixa só eles morrerem para ver o que é lutar pela democracia.

Regras, são regras, Asdrubal.

– Você é um chatão, isso sim, Mort. Puritano! Só porque eu ia falar que o cara fica de mau humor porque sente cheiro de merda o dia todo, afinal, o nariz fica perto do …

Asdrubal, chega!

– Tanto faz, agora todo mundo já entendeu mesmo…

Apesar do gênio difícil, Asdrubal acertou novamente. O chefe chamou todo mundo para uma reunião e detonou todo mundo. Chamou de incompetente, folgado e muitos outros adjetivos nem um pouco nobre. Que o Asdrubal não me ouça, mas vendo isso, acho que o sujeitinho merecia mesmo uma boa lição.

– Viu, não falei, olha lá o que ele está fazendo. Agora a coitada da secretária vai sair chorando, o estressado do financeiro vai ter uma crise de hipertensão e a baba ovo do RH vai achar que ele está um pouco alterado, mas que todos devem compreender o stress que ele também vive e por aí vai. Aliás, essa é outra que vai receber uma cartinha minha, ahhh vai!

Asdrubal foi cirúrgico nas suas previsões, também, depois de já ter tomado tantas, conhecia bem o ser das trevas. Depois da reunião, todos saíram arrasados e o sujeito foi sentar-se, confortavelmente, na sua cadeira e ficou se deliciando com as ofensas que tinha proferido, estava se achando “O Gestor do Ano”, já estava até idealizando sua foto na cara da revista Faces.

– Que Faces, que nada. Esse sujeito só ficaria bem na Revista Bundas! Imagine a manchete, troféu Bundão do Ano e ele com aquela cara de bunda que Deus lhe deu, posando para foto, iria ser a matéria perfeita.

Asdrubal, agora vou até te dar um desconto.

– Agradeço pela compreensão. Agora você me entende!

Nesse momento, através do P.O.R.R.A., Asdrubal percebeu que ele notou o envelope na sua caixa e foi logo pegando. Já pode perceber uma inquietação somente ao ler o campo DE/PARA.

– Agora o bicho vai pegar! Preparem-se! Veja lá, ele abriu o envelope e vai começar a leitura.

A medida que foi lendo, Asdrubal foi percebendo que ele foi ficando igual a um semáforo, trocava de cor, quase piscava, sinalizando incêndio. Soltou o botão da camisa, pegou água, deu alguns murros na mesa e soltou um palavrão, aos berros, que por razões óbvias, não vamos reproduzir aqui.

– O baixinho de merda vai chamar todo mundo de volta, quer ver?

Asdrubal acerta novamente. Ele pegou o telefone, saiu ligando para todo mundo e, em menos de cinco minutos, sala cheia de reuniões cheia novamente. Recomeça a sessão tortura, agora com ameaças de demissão, afinal, ele estava achando que aquela carta foi uma brincadeira dos funcionários. Mais choradeira, mais crises de hipertensão e a reunião acabou sem ninguém falando nada.

Ele  foi para sua sala e começou a reler a carta.  Asdrubal notou que, em certo ponto, ele parou, ficou branco, colocou a mão no peito e caiu. Foi então que o Asbrubal lembrou do recurso de zoom e conseguiu ler a carta, que reproduziremos a seguir:

“Prezado baixinho de merda,

Primeiramente, gostaria de deixar claro que você é um baixinho de merda, um frustrado, em resumo, um MERDA.

Tendo isso ficado esclarecido, vamos ao segundo ponto, baixinho de merda. Gosto de chamá-lo assim, aliás, só para você saber, toda vez que eu falava “sim, senhor”, mentalmente, eu estava falando “vai pro inferno, baixinho de merda”.

Vamos por partes, como você gostava de falar nas suas escrotais reuniões, que são um tédio. Sabe aquelas suas piadinhas infames? Pois é, ninguém acha graça naquilo. Todo mundo só ri porque você é um baixinho de merda e, caso ninguém soltasse um riso, era bem provável que você já mudasse esse seu humor, que é mais instável que horário de trem em São Paulo, em dia de chuva e com greve de ônibus.

Mas voltando, só para reforçar, você é um baixinho de merda! Sim, baixinho, todo mundo te chama de baixinho. De frustrado e todo mundo comenta que você deve ter o “amiguinho” bem minúsculo, porque vou te contar, para ser tão mal-humorado assim, motivos bem sérios devem existir.

Lembra daquele livro com mensagens bonitinhas que você deu de presente para todo mundo? Sabe onde todos pensaram em mandar você guardar aquilo? Lá mesmo, seu baixinho de merda. Aquilo foi patético, heim. Nesse dia, você se superou no quesito “sou babaca”, mas nisso você é bom mesmo, tenho que admitir.

Ah, já estava esquecendo de uma coisa: faz duas linhas que não te chamo de baixinho de merda. Você é um covarde, mas tão covarde, que só sabe atacar para esconder suas frustrações, você é fraco, inseguro, tem negócio pequeno (nunca vi, mas tenho certeza disso). Alguns sentem até pena de você, já eu, bem, eu sinto pena do diabo, pois quando você morrer e for para o inferno, coitado do capeta por ter que te aguentar. Chego a pensar que nem ele merece tanto castigo, seu baixinho de merda.

Sabe, estou me sentindo tão bem em te chamar de baixinho de merda que vou até repetir: baixinho de merda!

Você fica com essa pose de santidade, mas eu bem sei das suas falcatruas! Apesar de você subestimar todo mundo, eu entendia bem as coisas que via e sei que você é só mais um hipócrita, seu baixinho de merda. Aliás, chego a pensar que merda para você é elogio, afinal, ao menos a merda serve para algo, já você….

Ninguém te respeita, no máximo, te toleram porque precisam do emprego, você é odiado por todos, seu índice de rejeição é superior ao da presidente que estocava vento, na véspera do Impeachment, ou a popularidade do Conde Drácula, que assumiu a presidência depois.

Mais de uma vez eu senti vontade de socar sua cara, aliás, eu sentia isso com a minha alma e era o que me dava um pouco de alívio para te aguentar. Já sonhei que estava te estrangulando, te afogando num vaso sanitário e que tinha colocado veneno no seu lanchinho natureba.

Já te matei de tantas formas e tantas vezes que você nem imagina, seu baixinho de merda!

E você ainda acha que vai para o céu, o que é mais hilário! Queridão, nem o diabo te aceita, te prepare para vagar o resto da eternidade.

E, quer saber, você é tão patético, mas tão patético, que vai ler essa carta e vai chamar todo mundo para uma reunião, vai berrar, xingar, ameaçar, pois é só o que você sabe fazer, seu baixinho de merda.

Durante essa fatídica reunião, sabe quando você ameaçou demitir o novo funcionário, que acabou de assumir minha vaga? Deixa de ser patético, seu baixinho de merda! Como ele poderia saber de algo, se acabou de chegar!?

E quando você ameaçou demitir o cara do faturamento, falando que os filhos dele iriam passar fome? Como pode ser tão baixo? Aliás, essa eu mesmo respondo, você foi tão baixo porque é um baixinho de merda!

Enfim, você é um verme desprezível, um aborto da natureza, um erro de cálculo do Universo. Quero que você se exploda, seu baixinho de merda e que, ainda em vida, lembre-se de todo o mal que você já causou.

Finalizando, um belíssimo chute nessa bunda, seu baixinho de merda!”

Nossa, Asdrubal, agora você pegou um pouco pesado, não?

– Mort, que pesado que nada, fui até simpático perto de tudo o que ele já fez. Mas sabe de uma coisa que me surpreendeu? Percebi que a versão 1.0 da carta não tinha essa fala final, sobre a reunião. Isso só apareceu aqui na revisão 1.5 do documento.

Isso mesmo, você agora aprendeu que as cartas, uma vez enviadas, vão se elaborando sozinhas, pois com a força do pensamento, é possível influenciar qualquer coisa do outro lado. A propósito, foi isso que causou um AVC nele, pois nesse momento ele teve certeza de que não era ninguém que tinha escrito, afinal, se ele estava com a carta o tempo todo no bolso, como aquele trecho que não estava lá, de repente, apareceu?

– Mort, eu causei um AVC nele??

Bem, Asdrubal, não sei se necessariamente você, mas toda essa situação. Mas não se preocupe, tem mais gente na frente dele, do que na fila de requerimento de aposentadoria do INSS. A senha dele está longe ainda..

– Já falei, nem o diabo quer esse baixinho de merda…

Mariano (nome do ex-chefe) passou dois meses e meio na UTI, até que um dia acordou. Ele conseguiu se lembrar de tudo o que tinha acontecido e, com isso, algo dentro dele mudou. Dias após ele voltou ao trabalho e foi procurar a carta, mas não a encontrou em lugar algum. No entanto, mesmo sem o conteúdo, ele se lembrava de cada palavra.

Isso o fez refletir muito e, desse dia em diante, muitas coisas mudaram. Ele chamou todos para uma nova reunião, esperou com que todos se sentassem, deu boa noite, abriu suas anotações e começou a cobrança dura de sempre, já xingou o cara do faturamento, para não perder o costume, deu um “feedback” no financeiro e, aos poucos, a vida voltou ao normal.

Ah, desculpe se fiz você se iludir. Ingênuo, você heim, estava realmente achando que ele tinha mudado e que passaria a ser outra pessoa depois disso. Amigão, isso só acontece em filme e novela, aqui é vida real e essas coisas não funcionam. Quando a morte passa perto, a pessoa até reflete um pouco, mas não dá dez segundos e já está fazendo besteira de novo.

No que ele mudou, então? Ele só passou a considerar que era possível falar com os que já partiram e ficou tentando achar um jeito de dar o troco no Asdrubal, ou seja, continuou sendo um babaca, mas agora um babaca que acredita que é possível falar com os mortos, só isso.

– Mort, ainda bem que você falou que a fila dele está longe. Continuo não gostando dele e não quero encontrá-lo tão cedo!

Pois é, as pessoas acham que a morte muda tudo, mas na verdade ela não muda nada, nem do lado de quem fica e nem do lado de quem vem. A mudança verdadeira depende de muito mais, do que simplesmente uma mudança de dimensão.

Por hoje é isso, amiguinhos, já chega, podem ir fazer outra coisa agora. Já deve estar na hora da novela. Aproveita para sonhar um pouco com as novelas, afinal, só com o autor que gosta das Helenas, é que tudo se resolve no último capítulo.

 

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