A saga de uma cólica renal – o grand finale

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Como já devem ter percebido, eu sobrevivi a hecatombe da retirada do cateter, que é o grand finale, fechando com chave de ouro essa odisseia.

Meus sentimentos para esse final eram muito controversos, pois ao mesmo tempo em que não via o instante de me ver livre e poder fazer meu xixizinho em paz, já sofria com ideia do que vinha pela frente, pois é claro que tranquilo não seria. No dia agendado lá vou eu, sem pensar muito, mas já prevendo um pouco mais de dor.

Estava esperando por alguns atrasos no atendimento, mas para minha surpresa, antes da hora combinada a enfermeira já chamou, me deixando meio desestabilizado, pois mentalmente eu ainda não estava totalmente pronto, mas lá vamos. “Sala de Procedimentos 1”, era a inscrição na porta, mas eu lia “Sala de Tortura 1”. Entrando, já dou de cara com aquela maca monstruosa, objeto de tortura, com os apoios para a perna já a postos. Embora já soubesse que seria assim, constatar o fato não me agradou. A enfermeira já me entregou um lençol e disse que eu poderia usar o banheiro para tirar toda a parte de baixo, tudo, reforçou ela.

O pouco da dignidade reconquistado nos últimos dias já estava indo para o espaço novamente, mas é por uma boa causa, era o que eu tentava me convencer o tempo todo para não pensar em nada. Voltei, enrolado no lençol e ela me falou para sentar na maca que a doutora já viria. Enquanto isso, vou observando seus movimentos, tirando todos os instrumentos de tortura possíveis, caixas monstruosas que eu me recusava a imaginar o que continham. Num dado momento, ela me pergunta se eu já havia tirado alguma vez o cateter. Digo que não e que não estava muito à vontade com a ideia, mas enfim, fazer o que, pelo menos iria acabar. Ela, toda profissional, concorda comigo e fala que realmente iria ser rápido e pronto. Me aliviou muito…

Continuando os preparativos para a execução, digo, procedimento, ela pega um frasco de soro, deixa todo preparado, coloca num suporte ao meu lado, mas já se adianta em dizer que eu poderia ficar tranquilo, que eu não iria tomar o soro, mas ele seria utilizado no equipamento. Novamente, uma paz infernal tomou meu ser, até parece que um frasco de soro seria o motivo da minha preocupação depois de ter visto o aparelho monstruoso que eu havia visto há pouco. O tamanho da ponta do aparelho era umas trezentas vezes maior do que a agulha, portanto, quisera eu todo o meu sofrimento ser uma picada para um soro. Ela me diz que já estava tudo pronto e que iria chamar a doutora. Fico lá, sentado, enrolado no lençol e só pensando no que viria. Os minutos pareciam horas e, num dado momento, a porta se abre e entra o rosto conhecido da minha médica, com aquele ar sereno, me perguntando como tinham sido os últimos dias. Com muita dor, digo eu, mas o importante é que estamos chegando ao fim. Ela me explica como seria o procedimento, que seria rápido e caso eu não aguentasse, ela parava e me encaminhava para o centro cirúrgico, onde seria sedado e pronto.

Me deito, na linda posição de quem vai fazer um parto natural e lá vamos nós. Prepara daqui, prepara dali e vem as instruções iniciais. Vou colocar bastante anestésico em gel na sua uretra, para que não sinta dor, mas vai incomodar um pouco. Esse vai incomodar um pouco me irrita profundamente, pois já sei que vai doer prá ca…..lho. Com toda a calma ela começa a introduzir o dito gel, com uma seringa que parecia um pet de coca-cola de 2,5 litros,  que queima e ia tomando conta das minhas entranhas. Depois de alguns segundos (pareciam horas) ela me diz para relaxar, pois facilitava e faria com que o anestésico fosse até a bexiga. Antes que eu pudesse pensar, ela já se adianta e diz que sabe que era difícil relaxar. Só dou um sorriso que nem amarelo já era mais e quase arranco a borda da maca de tanto apertar, respiro fundo e sinto uma explosão atômica em minha bexiga. Bom, provavelmente o gel chegou ao seu destino.

Ela comprova, disse que estava pronto, mas que para evitar que o gel vazasse, ela teria que fechar o dito cujo. Antes que eu pudesse imaginar qualquer coisa, sinto um laço apertando e penso que se ficasse assim por muito tempo ele iria gangrenar!  Continuo respirando fundo, já vendo algumas luzes, que imagino sejam do plano espiritual já a postos para me receber. Aquele silêncio incômodo na sala e ouço ela falando alguma coisa com a enfermeira, mas fiz questão de não entender.

Vamos começar, diz a voz suave, que me diz que agora viria a parte mais incômoda. Nesse momento, já entrego minha alma nas mãos do senhor e peço perdão pelas minhas falhas, esperando que ele tivesse misericórdia e me recebesse de braços abertos.  Só vejo uma ponta metálica de uns quinze metros sendo colocada em pé diante de mim, bem na mira do meu amigo e lá vamos nós. Confesso que, de início, realmente não senti nada, fiquei até feliz, mas como a alegria nessas situações duram frações de segundos, lá vem mais uma instrução satânica: agora vem a parte mais chata, você vai sentir uma pressão… PQP, QUE P…A É ESSA! EU NÃO VI O ELEFANTE QUE SE SENTOU NO MEU COLO AQUI DENTRO ANTES, ONDE ELE ESTAVA?, penso eu, gritando mentalmente, porque a voz não saia. Uma pressão que parecia que que todos os meus órgãos iriam explodir, sinto o dito cujo sendo forçado e puxado para baixo e pensei que ela iria realmente tirar tudo, que o rim, a bexiga e o que mais viesse pela frente iria sair a qualquer momento. Senhor, receba minha alma, AMÉMMMMMMM, PQP, CA*****LHO!!!! Pronto, acabou, disse ela, calmamente.

Abro os olhos e vejo que ainda estou na sala, nem um rosto desconhecido ao lado, portanto, acho que ainda não foi dessa vez que morri, sinto um raio de fogo saindo da minha uretra e chego a pensar que ela havia tirado o cateter e implantado um dragão.

Quer ver, pergunta ela. Claro que quero, digo eu e ela ergue uns duzentos metros de mangueira toda torcida em ambas as extremidades. Nessa hora entendo o motivo da dor e penso que minha uretra nunca mais seria a mesma. Pensa que acabaram as boas notícias? Claro que não, ela diz que um dos possíveis sintomas, depois da retirada do cateter, são cólicas, que alguns pacientes relatam sentir cólica e penso que era tudo o que me faltava, faço tudo isso para não ter mais dor e a primeira coisa que vou sentir, depois de tudo isso, é a mesma dor que me levou a fazer tudo isso? Bom, para evitar, vou  passar um soro com medicamento antes de sair, depois que terminar você vai embora.

Feliz e parecendo ter sido atropelado por um trem, vou ao banheiro me vestir e conferir se era realmente só cateter que ela tinha tirado, pois a dor e a pressão ainda não tinham saído da minha mente. Felizmente era só ele mesmo.

E assim termina esse episódio da minha vida e, com ele, algumas lições e aprendizados:

  1. Quando o médico diz que não vai doer, vai doer.
  2. Quando ele diz que você vai sentir um leve desconforto, comece a rezar e a pedir a Deus pela sua alma, porque vai doer muito.
  3. Quando ele diz que o procedimento não vai te impedir de fazer nada, entenda que você vai vegetar por alguns dias e uma respiração mais profunda pode ser um movimento muito brusco, portanto, não indicado.
  4. Só dez por cento dos pacientes sentem dor. Claro, os outros noventa já desencarnaram, portanto, a dor já não é algo que os preocupe mais.
  5. Dois dias = uma semana.
  6. Sorrisos tranquilizantes só te irritam mais ainda.
  7. Tente relaxar = tente respirar para não morrer asfixiado.
  8. Se sentir dor, você toma esse remédio = é fato que você vai sentir dor, o remédio não vai ajudar muito, mas tome porque vai ser bem pior sem ele.
  9. Vai ser rápido = vai demorar, afinal, o tempo é muito subjetivo e depende de qual lado da dor você está.

 

Mas é claro, tudo poderia ser muito pior sem os cuidados desses profissionais e, como disse logo no início, estou tratando a coisa com humor, mas agradeço muito a toda a equipe que cuidou de mim e de tantos outros que estavam na mesma situação.  A medicina é uma profissão muito nobre, afinal, lidar com a dor alheia não é fácil. A toda equipe de enfermagem, que não cansa nunca, quer dizer, nunca demonstra cansaço, mas é claro, também sentem dores, angústias, cansaços, mas que estão sempre prontas a ajudar e aliviar o nosso sofrimento, também meus sinceros agradecimentos e respeito!

E, para terminar,  só mais uma coisa. Sabe essas brincadeiras machistas sobre o temido exame da próstata. Então, depois dessa minha experiência vou achar que o exame não é nada, afinal, o que é um dedo perto de um tubo de duzentos metros? Deixa de bobeira, afinal, sua masculinidade não vai valer nada dentro de um caixão e, convenhamos, ninguém é mais homem ou menos homem por um simples exame.

O objetivo desse meu conto não é causar pavor, mas compartilhar a todos que possam ainda ter que passar por essa experiência, que ela pode ser sofrida, doida, mas você vai sobreviver. Tente tratar a coisa com humor, eu sei que é complicado, mas acredite, se fazer de vítima e se entregar não vai ajudar muito.

Parte 1                        Parte 2

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