Que país é esse?

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A banda Legião Urbana, em 1987, através do seu líder, Renato Russo, imortalizou essa frase, numa composição carregada de críticas a um sistema corrupto e imperfeito, que rasgava a Constituição, jogando na lama a decência e a dignidade. Trinta anos após, o que mudou? Se a música fosse lançada hoje, estaria totalmente atual e continuaria adequada ao momento.

Isso é muito preocupante, pois:

  1. A deteriorização do nosso cenário político continua a mesma
  2. Nós continuamos exatamente os mesmos

Ao dizer isso, me lembrei de outro grande clássico da nossa música, Elis Regina, que também cantou: “apesar de termos feito tudo o que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.  

Em minha míope visão, acredito que passamos uma das maiores crises morais da nossa história. Não chamo de crise política ou mesmo econômica, chamo de crise ética e moral.  Estamos perdidos! Nos perdemos entre teorias conspiratórias, vitimismos e discursos demagógicos, deixamos de lado a sensatez e a racionalidade, passamos a acreditar que o certo é errado e que o errado é certo, numa completa inversão de valores.

Oscilamos entre desculpas esfarrapadas e soluções simplistas, que beiram o ridículo, como por exemplo, a volta da ditadura. Entretanto, também aceitamos como justificativa para o roubo descarado, o fato de que outro partido também roubou.  Nesse cenário, entramos num ciclo perigoso, pois quando essa sequência será quebrada? Tudo isso me lembra muito aquelas guerras entre famílias, que aconteciam antigamente, onde um matava e outro, que matava o um e o ciclo de ódio era eterno! Quando esse ciclo era quebrado? Quando algém tinha a coragem de não revidar! Um gesto nobre, de muito altruísmo e que interrompia brigas seculares, poupava que novas vidas fossem perdidas exatamente pelo mesmo argumento estúpido, afinal, a família A matou um membro da família B, só que a família B matava um membro da família A pelo mesmo motivo. Todos exigiam o direito a reparação, ninguém mais sabia quando tudo tinha começado e, pior que tudo isso, ninguém fazia mais ideia de quando tudo terminaria!

O que vemos hoje é a mesma coisa. O partido B se acha no sagrado direito de usurpar os cofres públicos, afinal, não foi ele quem inventou a corrupção. O partido A critica o roubo do partido B e, amanhã ou depois, nas alternâncias do poder, voltará ao topo e se achará no direito sagrado de também usurpar e acabamos de entrar num ciclo infinito.

É insano, é doentio! Mais que as pessoas que praticam esses atos, me causa indignação as pessoas que se empoderam desses argumentos, como advogados de defesa! Roubo é roubo, desvio é desvio, não importa quem começou, não importa o valor, não importa quem inventou, importa sim, que os culpados sejam punidos, mas me parece que esse último item se tornou irrelevante. As pessoas não clamam por punição, elas brigam e se esperneiam também pelo direito de continuar roubando e desviando! A coisa é tão descarada que muitos dos acusados sequer se dão ao trabalho de comentar ou tentar se defender dos fatos comprovados, apenas se apegam a “detalhes técnicos e jurídicos”, no sentido de invalidar a forma, mas não o fato em si. Para mim isso é admissibilidade de culpa, afinal, não vi ninguém negando as gravações, até porque, não seria possível, mas o que se questiona é como essas gravações foram obtidas. De uma hora para outra apareceram milhares de advogados de defesa, todos com os mesmos discursos produzidos em série. Mas e o fato? Não tem nenhuma importância? Não sou a favor de que tudo é válido, mas que tal deixar os critérios técnicos a quem de fato compete e começar a pensar um pouco na questão ética e moral?

Minha conclusão diante de tudo isso é simples: pode cometer todo tipo de falcatrua, só não pode ser descoberto. Se ninguém souber, está tudo bem, ao melhor estilo da fala “o que os olhos não veem, o coração não sente!”.

O historiador e professor Leandro Karnal, tem uma fala muito interessante, diz ele “eu queria ter a ingenuidade que essas pessoas tem, essa ingenuidade de achar que o problema é tão simples, de que é só trocar o político e tudo se resolve, eu seria muito mais feliz se eu acreditasse nisso”. Penso exatamente dessa forma. Meu Deus, como eu queria ter essa ingenuidade também, pois tenho certeza de que minha felicidade seria muito maior, minhas gastrites e úlceras seriam mais leves e minha ansiedade e irritabilidade não existiriam. Mas eu não faço parte dessa classe privilegiada de seres humanos que são felizes, pertenço a classe dos indignados, dos que tem úlcera, gastrite e todas as demais “ites”, pois não há um único dia, desde que eu me entendo por gente, que eu não tenha me indignado com fatos da natureza como os que hoje vejo. Talvez eu seja o errado, tenho essa humildade de admitir que o problema pode ser meu. De repente, a vida é muito mais simples e eu é que estou complicando.

Meu amigo, não adianta bater panelinha na janela se você fura fila, fica com troco errado, estaciona em vaga de deficiente, pois você é responsável pelo fato do país estar nesse buraco que está. Não vou ficar enumerando a lista de pequenas, porém não desculpáveis, arbitrariedades que cometemos todos os dias, mas repense suas atitudes.

Se você consegue achar argumentos para defender essas imundices que vemos todos os dias, melhor eu nem falar o que penso sobre você, pois fatalmente resultaria num processo. E, por favor, não me venha com os discursos de sempre: “golpe da mídia”, “vazamento seletivo”, “atentado a democracia”, poupe-me, pois esses clichês também são responsáveis por alguns dos meus problemas estomacais. Vou me utilizar de uma fala popular, mas que adotei: eu não tenho corrupto de estimação! Não defendo partidos, defendo a ética, a moral, em resumo, a vergonha na cara, coisa que aprendi com meus país, que sempre foram pessoas muito simples, erraram em muitas coisas, como a maioria dos pais erram, mas se tem uma coisa que jamais vou poder falar é que não me passaram valores morais e éticos e, por isso, serei eternamente grato a eles. Todo acusado tem o direito ao  justo julgamento, mas não a completa absolvição dos seus erros, e o que estamos vendo hoje, é isso. Sob o pretexto de um justo e imparcial julgamento, toda desculpa imunda é admitida, toda fala, que chega a ser um atentado à moralidade, é aceita como natural. Não me preocupo com partidos, me atento a conduta ética das pessoas, pois a partir do momento em que o caráter tenha valor, o partido será um mero detalhe, uma convenção apenas.

Realmente me assusta ver os comportamentos dos últimos dias, analisando a história recente, é fato inegável que algumas características nazistas são percebidas e todos sabemos onde isso vai dar. Não se trata mais de um partido ou de uma pessoa, agora a coisa virou uma seita de fanáticos, que não ouvem, não veem e não aceitam qualquer coisa contra o seu deus. Por favor, um pouco de bom senso não faz mal a ninguém!

Fico triste em pensar que daqui a 30 anos alguém poderá estar escrevendo as mesmas coisas que escrevi agora, talvez até piores, pois do jeito que tudo caminha, não teremos qualquer mudança tão cedo. Eu poderia até acreditar que tudo isso que está acontecendo é para trazer uma renovação, uma limpeza profunda das nossas bases, mas não acredito. Não acredito porque percebo que a grande maioria das pessoas simplesmente rejeita essa mudanças, coaduna com as falcatruas, justifica-as e ainda assume o papel de defensor de todas essas descabidas situações.

Não sou ninguém para julgar nada, isso é um fato, mas também não preciso defender. Deixa que a pessoa se explique e se resolva, se ela fez o que fez, deve ter algum motivo que, realmente, acredito que não tenhamos que julgar, mas dai a defender, é outra história.

Termino esse meu texto com a mesma frase com a qual iniciei: Que país é esse? Que povo é esse? Quais são nossos valores éticos e morais? Não precisa me responder, se você parar alguns segundos para refletir em tudo isso, penso que já será um bom ponto de partido. Só mais uma dica: mudar de ideia não é crime. E veja bem, não estou falando para mudar de ideia só para concordar com o que penso, porque só o que penso é certo, mas por favor, pense! Por mais que a verdade possa doer, tente enxergá-la. Não acredito que tudo o que está sendo jogado aos quatro cantos seja uma verdade irrefutável, mas por outro lado, também existem muitas coisas inegáveis e, igualmente, isso é um fato!

Que país é esse? – Legião Urbana

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