O que nos toca a alma?

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Qual foi a pior dor que você já teve? Tenho certeza de que uma parcela significativa das pessoas responderá que a pior dor que já tiveram não é física, mas sim, alguma dor ligada a alma, seja a dor da perda de um ente querido, o sofrimento por um sentimento não correspondido e assim por diante.

Minhas piores dores também não são físicas, embora tenha muitas. Convivo com as dores há anos e, acreditem, não é uma convivência pacífica. Em algumas épocas até que entramos num acordo e habitamos bem o mesmo corpo, mas em outras parecemos vizinhos em guerra e fica um tentando expulsar o outro. Até o momento tenho ganhado, mas que saem umas brigas feias, saem.

Por outro lado, as dores são sinais, sinais de que há algo errado em nós, algo que precisamos compreender e mudar ou simplesmente aceitar, afinal, como em toda guerra, nunca vencemos todas as batalhas.  Existem sentimentos que trazemos em nossas almas e que são transgeracionais, muitas vezes sequer sabemos porque os temos, mas lá estão eles, nossos eternos companheiros de jornada.

Passei boa parte da minha vida tentando mudar isso, entender porque tenho alguns sentimentos, aparentemente sem qualquer explicação, sentimentos que teimosamente estão presentes em minha vida, como a tristeza, por exemplo, mesmo quando tudo aparentemente vai bem. A explicação para isso pode transcender aos nossos sentidos, a nossa compreensão e, portanto, também a nossa explicação. Temos essa tendência, tudo tem que ser explicado, tudo tem que ter um motivo lógico e racional, mas nem sempre isso acontece, nem sempre encontramos esse fator desencadeante, seja porque ele realmente não existe em nós, sendo algo que herdamos dos nossos ancestrais, fato que a psicologia classifica como o transgeracional, ou seja, aquilo que vai passando, de geração para geração, seja porque a realidade seria demasiadamente insuportável e, como medida de defesa e autoproteção, bloqueamos essa racionalidade que tanto buscamos, mas que simplesmente poderia nos destruir. 

Antes da dor chegar ao corpo ela já passou pela alma, que já deu sinais, por vezes sutis e que, por serem sutis, ignoramos. Porém, não há como ignorar para sempre e chega uma hora em que essa dor se materializa e o corpo grita, faz você parar e encontrar respostas. Não é fácil e não se iluda, não será um livrinho de auto ajuda que resolverá seu problema, nem uma enciclopédia de medicina alternativa, com as suas causas e efeitos para qualquer sintoma, quem dera as coisas fossem assim tão simplistas. Isso só resolve um problema, que é a falta de grana do autor, que certamente ficará rico, mas seus problemas, bem, seus problemas irão permanecer até que você mesmo tome ciência do que está causando suas dores e, diante disso, mude o que for possível mudar ou aceite aquilo que é imutável, pois eis uma outra grande verdade e que demoramos para aceitar: não temos o poder de mudar tudo.

Temos que lutar, temos que nos esforçar, fazer o melhor que podemos, mas chega um ponto em que nos encontramos limitados, limitados em conhecimento, limitados em emoções, limitados em nossa capacidade de ação e isso também dói muito, pois constatamos que não somos deuses, como algumas vezes nos supomos. Somos humanos, demasiadamente humanos, como já disse Nietzsche, portanto, somos limitados e aprender a conviver com isso pode ser libertador.

Normalmente quando algo nos atinge é porque nos identificamos com aquilo, algo em nós encontrou um ponto de identificação com a situação, por pior que ela possa parecer, mas novamente são as armadilhas mentais entrando em ação. O adulto indignado com todas as injustiças do mundo pode ser o reflexo de uma criança que teve o papel cruel de tentar salvar a mãe ou pai de algo que ela considerava injusto e, não tendo conseguido isso, assumiu a culpa por ter deixado aquele a quem amava sofrer. Essa culpa passeia pelo inconsciente e, por vezes, até adormece, mas ao menor gatilho mental, volta com força total. São sentimentos primitivos, remontam às nossas origens e, por isso, são tão difíceis de serem identificados e aceitados.

São em pontos como esses que as dores chegam, elas podem atingir níveis muito fortes, pois as causas também são incisivas. Precisamos aprender a diferenciar dores musculares de dores profundas. As primeiras, podem ser facilmente curadas com analgésicos, já as demais, nem morfina dá jeito. Infelizmente não existe uma receita pronta, uma fórmula, uma mágica, cada um terá que encontrar em si mesmo a melhor resposta, o melhor remédio, que pode estar nos lugares mais inusitados, mas certamente estará naquilo que te toca a alma. Também ainda não encontrei minhas respostas, para algumas sim, para outras, ainda nem faço ideia e talvez nunca as encontre, mas em qualquer desses casos, a solução é a mesma, o que farei com isso? Não basta encontrar, é preciso saber o que fazer com o achado.

Também temos outra grande capacidade que é demasiadamente humana, que é a capacidade de transformar. As piores dores podem ser transformadas em lindas poesias, em quadros memoráveis, em clássicos literários, em descobertas científicas que trarão a cura a outros. Temos essa capacidade, podemos demorar um pouco para encontrar a forma como nos curaremos, mas temos essa capacidade de transformação. Mas, e se não transformarmos isso em algo, o que aconteceria? Bem, nesse caso ele se transformaria num problema transgeracional e, de alguma forma, atingiria nossos descendentes, assim como muitos hoje já nos atingem.  Responder a essa curta, porém muito complexa pergunta, pode ser a chave da nossa cura: o que nos toca a alma?

Através daquilo que toca nossa alma vamos conseguir transformar sentimentos e emoções, talvez não os resolvendo, mas os resignificando e com isso, dando um novo destino a nossa própria vida, curando nossa alma e minimizando nossas dores físicas.

 

 

 

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