O caos e a testa

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O fato acontecido recentemente, quando um adolescente teve sua testa tatuada, literalmente, jogou na nossa cara, o caos que está instaurado na sociedade.

Atualmente, simplesmente tudo vira uma partida de futebol, com torcidas apaixonadas para os dois lados, ou seja, tanto faz o que o seu time faça, tudo é válido e, por outro lado, tanto faz o que o time adversário também faça, sempre estará errado. Vivemos a Era Futebolística, onde qualquer assunto se resolve da mesma maneira como se discute um jogo. Mas a vida não é um jogo…

Obviamente, o assunto em alta no momento é a testa do garoto e a torcida vibra, com faixas e cartazes, uns defendendo, outros amaldiçoando, mas é uma testa que está dando o tom das conversas dos últimos dias.

Particularmente, nunca pensei que escreveria sobre uma testa. Normalmente, escrevemos sobre o coração, representando os sentimentos, ou as mãos, representando as forças transformadoras, ou ainda os pés, mostrando exemplos de caminhos.

Uma testa, apesar de algo quase impensável, é o que nos faz refletir sobre o caráter e a hipocrisia, quem diria. Talvez por ser a testa o que está logo na cara, literalmente falando e, por ironia do destino, tenha sido ela a escolhida para essa árdua tarefa.

A testa escancara um Estado falido, que não tem competência e nem moral, para cuidar daquilo que é básico e sua obrigação primária. Nossos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário, estão podres, falidos e o odor fétido dessa putrefação nos atinge em cheio.

O tempo todo escutamos, das bocas imundas dos nossos políticos e autoridades, que nossa democracia funciona, que todos os poderes estão funcionando. Estão mesmo? Estão funcionando para quem? Estão funcionando segundo os interesses de quem? Da sociedade é que não é!

Nesse ponto, faço um apelo, não me venha com discurso partidário, pois meu sonho é que todos esses vermes desaparecessem, tendo em vista que não existe um único que represente a vontade popular. Todos, indistintamente, só servem aos seus próprios interesses, talvez, uns manipulando o povo mais do que outros, isso é verdade, mas só muda o nível de manipulação!

A testa tatuada não refletiu uma frase preconceituosa e hipócrita, ela refletiu o Estado moral da nação, que está adoecida, que está envolta pela ânsia de uma Justiça que o Estado se nega a fazer, ou melhor, que até faz, desde que não seja contra nenhum dos membros da sua gangue. Sim, gangue mesmo, pois não temos políticos e autoridades legitimamente representadas, temos uma gangue perversa que nos corrói internamente!

Antes que já me venham com os discursos de ódio, já vou adiantando que não defendo a postura do adolescente, se ele errou, que pague, mas não pelas nossas mãos, pois se assim o fizermos, estamos declarando uma guerra civil, fato esse, que já falo há bastante tempo, vivemos de forma velada.

Eu sei que nosso Judiciário está longe de ser o ideal de Justiça, mas a nossa briga não deve ser a de tomar essa justiça para a nossa alçada, mas sim a de lutar para restabelecer a ética em nossas instituições!

Restabelecer a ética depende não somente dos políticos e já abordei esse assunto inúmeras vezes, a ética depende que cada um de nós deixe a hipocrisia de lado, ao julgar uma coisa, quando na verdade também estamos sentados em cima do próprio rabo para esconder um monte de imperfeições.

Você pode não ter roubado, mas não tem nenhum errinho para achar que pode sair tatuando o erro dos outros na testa? Caso a resposta seja não, que você não tem nada de errado, ótimo, parabéns para você, que aliás, nem mereceria os parabéns, pois, agir de forma correta é tão somente o dever de todos nós, mas enfim, parabéns. De qualquer forma, isso não te dá o direito de sair julgando e condenando. Por outro lado, se a moda pega, teria muita gente precisando implantar um outdoor na testa, para poder caber a lista das imperfeições!

O adolescente estava errado, é fato, mas nos tornamos iguais ou piores quando partimos para esse nível de entendimento e de ação. Estamos entrando num caminho sem volta, onde a justiça passa a ser praticada segundo a ótica de quem julga, segundo critérios extremamente subjetivos e passionais. Isso jamais garantirá a justiça, saciará a sede de sangue, mas não fará justiça e, talvez, você só perceba isso quando se tornar réu.

Hoje foi uma testa tatuada, mas e amanhã? Uma mão cortada? Um enforcamento público? Pense nisso, reflita se é essa marca que você quer carregar em sua alma.

Novamente, reforço, meu objetivo não é defender o que é errado, mas chamar para uma reflexão de que podemos estar caminhando para um erro maior ainda. O julgamento e a punição têm que existir, para todos, de forma imparcial. Pode ser utópico, mas esse é o ideal democrático!

Vamos usar a força que temos para pressionar e exigir de quem tem que ser exigido: o Estado, afinal, é para isso que ele existe! Esqueça suas paixões políticas, hoje o que existe é uma quadrilha organizada que coloca o Estado contra o povo e, o que é muito mais grave, o próprio povo contra si mesmo, dando início ao processo de implosão social e das garantias individuais. Tudo isso pode parecer mero discurso protecionista, mas não é, pelo contrário, é base da nossa sociedade!

Ou esquecemos que vivemos numa democracia e voltamos à Idade das Pedras ou teremos que lutar pela moralização do Estado Democrático de Direito, que é o caminho mais longo e penoso, mas é o que trará menos sangue e barbárie.

Estamos às portas de uma nova era, a mão já está na maçaneta. Vamos abrir essa porta? Pode ser que você venha citar o Antigo Testamento: “olho por olho, dente por dente”. É verdade, mas lembre-se: “quem com ferro fere, com ferro será ferido”, tudo tem suas consequências, não vá reclamar depois, quando o ferro estiver espetando a sua carne.

 

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