Nessun dorma

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Nessun dorma (Ninguém durma) é uma ária, do último ato da ópera Turandot, criada em 1926, por Giacomo Puccini e que foi imortalizada na voz e inigualável interpretação de Luciano Pavarotti. De forma muito resumida, a ária refere-se a ordem da princesa Turandot, de que ninguém poderia dormir, até que o nome do príncipe fosse descoberto.
Normalmente toda ópera retrata um drama, no seu sentido mais literal, motivo pelo qual resolvi usar, nessa reflexão, essa temática.
A vida humana, de certa forma, pode ser comparada a uma ópera. É trágica, é intensa, é linda e emocionante, ao mesmo tempo que é sofrida, levando-nos às lágrimas, tal qual uma boa obra musical.

O drama cotidiano está representado no sofrimento humano, nos milhões e milhões de seres humanos sem um lar, sem alimentos, sem o mínimo de dignidade e esperança de uma vida justa.
Dor, desesperança, fome, frio, vontade de que tudo se acabe o mais rápido possível, pois além do corpo, também dói a alma. A vida fica completamente sem sentido, as forças se esvaem e o vazio toma conta.
Por vezes, carregamos em nós todo esse sofrimento, que se expressa na melancolia sem explicação, na depressão que vez ou outra vem nos beijar a face, na insônia que nos acompanha e penso que não poderia ser diferente, exceto aos socialmente inaptos.
A tragédia vai tomando dimensões cada vez maiores, com a corrupção, a ganância desenfreada, a sede pelo poder e a completa indiferença para com as mazelas humanas. O que se acumula em cantos esquecidos é o que falta a tantos outros, o alimento desperdiçado é o mesmo que é cobiçado pelos famintos. Como pode haver paz sabendo que um semelhante, nesse momento, morre de inanição?
Que nunca nos falte a gratidão por tudo o que temos e a compaixão e a ação pelos que padecem na completa miséria.
A esperança é a de que um dia esse mundo seja mais justo, mais igualitário. O desejo é o de poder se deitar à noite sabendo que todo semelhante também está protegido, se alimentar pensando que ninguém mais passa fome. Infelizmente, isso ainda é utópico e tragicamente distante e miseravelmente humano.
As comemorações de final de ano estão chegando, presentes serão trocados, mesas fartas serão servidas e isso não é errado, pois a vida merece ser celebrada, essa é a condição que todos deveriam ter, não somente no final do ano, mas todos os dias!
É importante que mantenhamos a consciência, evitando os exageros e os desperdícios, pois muitos de presente, sequer um abraço e, além de não haver fartura, haverá privação do alimento essencial.
Na ópera, ninguém poderia dormir (nessun dorma) até que se descobrisse o nome do príncipe. Na vida, ninguém poderia dormir até que todo ser humano tivesse uma vida digna e, ainda assim, esse fim estaria longe de ser exultante e merecedor de aplausos, pois seria somente a garantia do mínimo necessário.
Talvez todo esse sofrimento explique porque, desde o Antigo Testamento, já nos tenha sido dito que “a felicidade não é desse mundo”. E como poderia ser?

 

Nessun Dorma – Luciano Pavarotti

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