Minha Experiência com Artesanatos

Que eu sou uma pessoa estressada, acho que não é novidade para ninguém. Venho lutando, há anos, para tentar manter o equilíbrio, afinal, eu sei os estragos que o abalo emocional causa.

Minha esposa, vários amigos, colegas de trabalho, vivem me falando que preciso de algum hobby, de preferência coisas manuais, que ajudam a minimizar o stress. Pois bem, na maior da boa vontade, fiz a estupidez de buscar no Google algumas sugestões.

Umas já descartei de cara, por razões que não citarei aqui, para não declarar guerra, mas já foram eliminadas no primeiro critério de seleção. Olha daqui, olha dali e eis que surgiu algo que me chamou a atenção. Sempre gostei muito de iluminação, acho fascinante o efeito que uma simples luz pode trazer num ambiente e tal.

Por fim achei um site que ensinava a fazer abajures personalizado, com garrafas e vi um que se destacou, pois era feito com uma garrafa de Whisky, outra grande paixão minha. Não possuía instruções, mas também nada muito sofisticado e me empolguei com a ideia, afinal, tinha uma garrafa de Double Black que estava terminando (diga-se de passagem, uma terrível fonte de stress) e achei válido fazer uma homenagem a essa garrafa que tantas alegrias me trouxe.

A garrafa ficou na prateleira da minha cozinha uns dois meses, até que hoje, véspera de feriadão, minha esposa, carinhosamente, me convidou para irmos a uma loja de materiais de construção, a maior da cidade, só para constar, para comprarmos os apetrechos que eu precisava, que eram os seguintes: uma cúpula (parte de cima do abajur), um bocal (onde fica a lâmpada), um pedaço de fio, uma tomada tipo macho e um interruptor, próprio para abajur. Eis que meu martírio começava, e eu, ingênuo, achando que finalmente faria algo que me traria relaxamento.

Na distinta loja, havia uma cúpula muito bonita, cheia de estilo, preta, que combinava perfeitamente com a garrafa. Não só peguei uma para mim, como incentivei minha esposa a pegar uma para fazer o dela também. Eu estava realmente empolgado ficaria lindo!

Na loja, os vendedores não foram avisados da crise, pois estavam atendendo uns cinquenta clientes cada um e eu, claramente, estava só atrapalhando a rotina deles. Resolvi perguntar sobre o bocal e já recebo a resposta de que não tinham. A tomada e o interruptor? Também não. O vendedor, querendo se livrar de mim, indicou outra loja onde eu acharia tudo isso, mas me lembrei de outra, perto da minha casa e para lá fomos.

Chegando à loja e já pergunto do bocal. Não temos, senhor. Mas tem uma loja, na avenida tal que tem. Essa avenida é no outro extremo, mas tudo bem. Comprei ali a tomada, os fios e o interruptor, pois fui avisado que nessa loja, onde compraria o bocal, não tinham esses itens.  Fiquei pensando o que faz uma loja que vende materiais de iluminação não trabalhar com fios e tomadas, mas enfim, problema resolvido.

Volto para a tal avenida. Só para constar, estava chovendo e todos os motoristas barbeiros da cidade estavam na rua, mas eu até que estava tranquilo, afinal, o projeto era relaxar. Entramos na lojinha, uma senhoria simpática nos atendeu e logo pegou o tal do bocal. Pronto, simples assim, era só ir para casa, juntar tudo e ser feliz.

Chegando em casa, começo a montagem do quebra cabeças, que nem foi tão difícil, creio que nuns vinte minutos eu já tinha passado o fio, colado o bocal, deixado os fios escondidos e agora só faltava colocar a cúpula! Agora vem a parte interessante, fique tranquilo.

Tentei encaixar e quase a cúpula caiu no meu pé! Passou direto pelo bocal, com folga, dançando zumba e com sobra de espaço. No primeiro momento, pensei que tinha esquecido alguma peça, mas olhando a bancada, não tinha nada sobrando. Sabe quando você desmonta um equipamento para limpar e, quando monta novamente, sai um relógio, um robô e ainda sobram algumas peças? Dessa vez não aconteceu, tinha usado tudo que estava lá.

Peguei meu antigo abajur, tirei a cúpula e pronto, encaixou direitinho, ou seja, a p@@@ da cúpula nova era fora do padrão! Voltamos na loja. Setor de devoluções e trocas. Preciso trocar essa peça, não serve, não encaixa no bocal.

Tudo bem, vou fazer o vale aqui e o senhor pega outro. Já logo tive aquele insight fdp que sempre tenho nessas horas. E se não tiver? E se o outro for igual? Quero o dinheiro de volta.

Ah, senhor, a loja não devolve o dinheiro, só um vale. Antes de ter uma crise nervosa, fomos testar os outros e adivinhe? Sim, todos iguais, ou seja, não serviriam nunca! Quero meu dinheiro!

Vou chamar o gerente.

Pois chame quem quiser, já visivelmente alterado e mandando os planos de relaxar para a casa do baralho!

Minutos depois chega o gerente, com aquela cara de Almeida, típico chefe responsável pelo arquivo morto dos documentos inutilizados, da filial desativada. Já visualizou? Essa mesmo. Era o Almeidão. Tenho certeza de que, naquelas reuniões tediosas e esdrúxulas de treinamento de equipe, o Almeidão é bem o tipo que bate no peito e solta o clichê: “Xá comigo, Almeidão tá aqui prá resolver tudo!” 

Preciso trocar, mas a loja não tem outro. Quero meu dinheiro de volta.

Ah, mas a loja não devolve dinheiro.

Mas tem que devolver! Agora, já chamando a atenção do quarteirão de baixo.

Tive uma aula sobre tamanho dos bocais, que aquela cúpula era para um tipo específico de abajur e tal.

Onde isso está escrito no produto? Cadê a informação que ele só serve no abajur x, y ou z??

Um pouco mais de briga, patadas e eu me controlando para não socar o Almeidão. Toca o telefone do Almeida, ele fala que está resolvendo um probleminha e que já iria. Eu, já soltando fogo pelo nariz, digo que ele poderia ir já, afinal, não tinha resolvido nada mesmo, então, que se sentisse à vontade para ir onde quisesse. Sim, eu pensei que ele poderia ir para lá mesmo onde você também acabou de pensar.

E não é que o Almeidão foi mesmo! Fico lá esperando o pobre coitado do rapaz do setor, que estava perdido entre mim e o Almeidão. Uns quinze minutos depois ele volta, com um vale troca, que tinha prazo de trinta dias. Pego o papel e saio atropelando quem entrasse na minha frente, aliás, nem sei se tinha alguém na loja.

Minha esposa, com toda a paciência que Deus lhe deu, ainda querendo que eu continuasse o projeto relaxamento, sugeriu que voltássemos na loja onde compramos o bocal, pois lá também tinha a cúpula, bem mais barata, diga-se de passagem, fato que já me irritou mais ainda.

A mesma velhinha simpática veio nos atender, minha esposa explicou o acontecido e ela solta a pérola. Ah, mas então a sua cúpula é importada, é outro padrão, tem outro bocal.

BARALHO! Ninguém me avisou que para fazer um abajur eu tinha que fazer uma faculdade de engenharia elétrica! Custava ter perguntado qual era o padrão antes? Não que eu soubesse que existiam vários padrões, mas pelo menos me chamaria a atenção. Eu só quero montar um abajur, será que vou ter que estudar o ANTONOV também? Entender de turbina de avião?

Ainda sobre padrões, adoro essa p@@@ de padrão internacional brasileiro, que só existe aqui. Igual a p@@@ da tomada três pinos, que segue padrões internacionais, mas que só existe aqui e que não é compatível nem com os próprios equipamentos aqui vendidos! Só isso, para mim, já justifica outro Impeachment!

Enfim, ela mostra um outro bocal, que daria certo. Compramos mais esse e voltamos para a fatídica loja, que me recusei a entrar, afinal, tinha acabado de prometer que não pisaria mais lá nunca e minha promessa tinha que valer, ao menos hoje. Minha esposa foi e volta com as mesmas cúpulas.

Volto para casa, ainda tremendo de raiva, mas tentando me controlar, afinal, o projeto era relaxar, não sei se você ainda está lembrado disso? Pego meu projeto de abajur, troco o bocal e??? Não deu de novo! Dessa vez eu tive a nítida certeza de que faltavam peças na p@@! do bocal. E lá vamos, outra vez,  para a loja da vozinha. Mais trânsito, mais motoristas barbeiros, mais stress e chegamos.

Ela olha e sentencia: é, está faltando. Nessa hora eu já estava rindo, provavelmente um pré surto psicótico, porque alegria é que não era. Agora, tudo devidamente testado, volto para casa e só estava pensando em montar tudo e a lâmpada queimar! Não, isso não aconteceu, afinal, estou aqui escrevendo, prova de que não surtei definitivamente.

Dessa vez tudo deu certo, montei, ele ficou até bonitinho (a foto é dele mesmo), mas vou ter que trocar a lâmpada, não porque ela tenha queimado, mas pelo fato da cúpula ser preta, parece que não tem nada nele, a lâmpada literalmente foi para um buraco negro.

Resumo da minha experiência com artesanato:

  • Para montar um abajur que, pronto, custaria uns R$ 50,00, eu devo ter gasto uns R$ 350,00, andei uns 600 km e me estressei umas duzentas vezes mais.
  • Sabe aquela história de que artesanato relaxa? Não rolou! Comigo não rolou, definitivamente.
  • Não estou aceitando encomendas, aliás, boa sorte se quiser montar.
  • Esquece a porra do abajur, prefiro só o Whisky mesmo!
  • Continuo procurando outras fontes de relaxamento! Aceito dicas! Tai chi, não adianta, esses movimentos muito lentos me irritam e, como diz uma amiga minha, o único movimento de animal que me daria bem é no coice de mula.

Mas tem uma coisa que eu gostaria de deixar registrado: CHUPA RODRIGO HILBERT! Que meu abajur saiu, saiu!




A saga de uma cólica renal – Eu sei o que vocês fizeram na cirurgia passada! – Nova Temporada

Caros leitores, creio que essa minha saga já virou uma franquia e ao melhor estilo de uma franquia de terror, resolvi parodiar a saga Eu sei o que vocês fizeram no verão passado.

Mas e a vida? A vida é uma caixinha de surpresas e eis que numa bela madrugada de sono você acorda com a sensação de que um trator acabou de passar por cima das suas partes e se levanta da cama com medo de que, da cintura para baixo, seu corpo tenha sido desmembrado. E assim começou mais um episódio da nova temporada.

Foram mais ou menos umas quatro cólicas mais fortes, daquelas que te obrigam a ir para o hospital. Perguntas de rotina:

– O senhor já teve cólica?

– Várias

– Onde dói?

– Tirando o cabelo que eu não tenho, tudo.

– É, é cólica renal.

Nesse momento tenho cada pensamento, mas enfim, beleza.

– Alergia a algum medicamento?

– Não, na verdade eu tenho alergia a dor, dá para mandar logo um coquetel com todos os medicamentos possíveis!?

Isso se repetiu umas quatro vezes, até que, diante do quadro que não melhorava e pelo fato de já estar menstruado há quase um mês, resolvi procurar a clínica de sempre. Você leu certo, eu falei menstruado mesmo, porque era a sensação que eu tinha todas as vezes que fazia um inocente xixizinho, afinal, era tanto sangue, mas enfim, vamos em frente.

– Pois não, senhor André.

– Cólica.

Nesse caso, bem monossilábico mesmo, afinal, só quem já teve cólica renal sabe o quanto é confortável conversar. Esse é um bom teste de autocontrole, pois a vontade é a de sair socando todo mundo que te pergunta se está doendo muito, mas como isso é feio, vamos de autocontrole.

– Já teve outras, certo? Estou vendo aqui que o senhor já fez até cirurgia.

– Sim

– Vamos examinar, por favor, deite-se ali.

– Aperta daqui, aperta dali e eu contando até um milhão para não ter um reflexo condicionado e mandar um soco na cara do médico.

– Vamos fazer um tomografia e ver o que vai ser necessário.

Ai começa um episódio a parte, a tomografia. Já no laboratório, vira-se o enfermeiro:

– Para fazer esse exame o senhor precisa estar com a bexiga cheia, tudo bem?

– Já estou, faz umas quatro horas que não vou ao banheiro. Quem já teve cólica renal sabe que sua bexiga está eternamente cheia. Sabe quando você acorde pela manhã, com a impressão de que ela vai explodir? É assim o tempo todo!

– Mas para garantir é melhor o senhor tomar mais uns quatro copos de água e mais uns dez minutos eu já chamo.

– Já que é para garantir, tomei logo mais sete copos e o querido técnico demorou 50 minutos para me chamar. A essa altura, tinha certeza de que eu precisaria de duas cirurgias, uma para tirar o cálculo e outra, para reconstruir a bexiga, que já deveria ter explodido.

Finalmente vem uma enfermeira, toda educada e me chama. Fico feliz, finalmente agora vai!  Mas não, fui para outra sala onde veio mais um questionário com todas as perguntas de rotina e o pedido para eu aguardar, que ela estaria arrumando a sala e já me chamava.

Depois de mais uns vinte minutos, pronto, finalmente exame feito e já posso “aliviar a bexiga”, como se ela ainda existisse.  Agora era só aguardar umas duas horas pelo resultado e voltar ao médico.

Volto para pegar a tomografia e a atendente vai buscar o exame com o médico, que estava emitindo o laudo. Chegou e perguntou:

– O senhor está com cólica, certo?

– Sim, estou.

– É, pelo tamanho da sua pedra aqui, imaginei.

Senti até um frio, afinal, se a atendente tinha visto a pedra na tomografia, creio que já não era mais só uma pedra, já tinha mudado de categoria e agora era um sedimento vulcânico ou uma formação rochosa.

Voltando ao consultório.

– O senhor está com um pedra relativamente grande e começou a dar todas as características técnicas dela.

Fiquei imaginando que ela foi muito bem feita, praticamente uma obra prima, pena que não serve para nada além de me causar dor! Depois, o nobre doutor começou a me explicar as minhas opções, que aos meus ouvidos soavam mais ou menos assim: o senhor pode optar pela cadeira elétrica ou pela forca. A forca eu não recomendo porque é um procedimento dolorido e pode ser que não mate logo e, se isso acontecer, nós vamos ter que pegar o senhor, já meio morto, e colocar na cadeira elétrica, para acabar de matar.

– A escolha é sua, o que o senhor prefere?

– A guilhotina! Creio que seja bem mais rápida e eficiente. Mas como não era uma opção válida, voltei à realidade e optei pela cadeira elétrica. Já que tinha que ser, vamos lá.

– O senhor já fez esse procedimento, né?

– Sim, doutor, já fiz.

Notei aquela cara do tipo, “bom, já que o senhor já fez, nem vou tentar dourar a pílula, porque não vai funcionar”. E eu penso “é, eu sei o que vocês fizeram na cirurgia passada”.

– Vou fazer a sua guia de internação, o senhor já vai para o quarto e amanhã fazemos o procedimento.

A noite, já no quarto, umas três enfermeiras diferentes vieram falar comigo, todas com algumas perguntas e explicações sobre o procedimento. Nada a reclamar, pelo contrário, acho super importante o paciente ter plena consciência do que vai acontecer e como será, mas algumas perguntas me fizeram ter um déjà-vu.

– Seu peso e altura?

Novamente eu me senti na frente de um papa defunto, só faltou ela tirar uma fita métrica e começar a tirar minhas medidas. Respondi a mais umas quinhentas perguntas e pronto.

Outra coisa muito “interessante”, foi a caça às veias. Todas resolveram estourar e a enfermeira chamou outra, que chamou a responsável pelo plantão, que fura daqui, fura dali e nada. A essa altura eu já estava tranquilizando as enfermeiras, até porque, se elas ficassem agitadas vai saber onde resolveriam achar uma veia, então, calma, respira fundo, é assim mesmo, mas vai dar certo.

– Peguei, gritou uma.

Imediatamente parei de respirar, com medo de que o movimento do diafragma fizesse a veia estourar também. Felizmente não aconteceu.

No outro dia, já as cinco da manhã, começam os preparativos para a execução, digo, operação. Depois de algumas horas escuto uma maca vindo pelo corredor e já imagino que minha hora tinha chegado, e tinha.

Com aquele bom humor insuportável e irritante, as duas entram no quarto, todas sorridentes e com aquelas vozes docemente intragáveis, falam:

– Vamos dar um passeio?

Já imaginaram minha cara. Sorriso mais falso que político falando que não roubou e lá vamos nós para os 275 km de corredor entre o quarto e o centro cirúrgico.

Já na sala pré anestésica, haviam mais três pessoas aguardando. Duas estavam tranquilas ou em pânico completo e  já nem falavam mais, mas enfim, estavam quietas, já um ilustre senhor que estava ao meu lado, creio eu que, por nervoso, afinal, é tensa a situação, mas o nobre não ficava quieto um minuto, fez umas duzentas perguntas para a enfermeira, que tentava acalmá-lo, falando que o médico iria explicar tudo para ele depois, mas ele continuava perguntando e perguntando e eu rezando para ele ou eu irmos logo para a execução, porque mais alguns minutos eu mesmo faria a cirurgia nele, ou pelo menos extrairia sua língua! Fui primeiro.

Já no centro cirúrgico, procedimentos de praxe, conecta aqui e ali, acerta posição aqui e ali e entra o anestesista. Explicou todos os procedimentos, fez mais algumas perguntas e decidiu que seria anestesia geral mesmo. Perguntou meu gosto musical ao que respondi que gostava de Rock, ele disse que também sim, colocou um baita som o seu iPhone que até me fez sentir um pouco melhor. Gostei dele! Nunca o tinha visto, mas já passei a considerá-lo pacas!

– Vou aplicar agora essa injeção, o senhor vai sentir um grande sonolência e…..

Só lembro de ter começado a tossir e pronto. Se morrer for assim, fiquem tranquilos, não vamos sentir nada.

Estava num sonho bom, a impressão que eu tinha é que estava num jardim, sei lá, algo parecido, mas era muito iluminado, bonito e começo a sentir um aperto na garganta, tosse e um mal estar foi tomando conta. Nisso ouço:

– Senhor André, tudo bem?

E o inocente aqui foi tentar responder e foi quando percebi que o incômodo na garganta era porque eu estava entubado. Ai fica a pergunta: por que perguntar a alguém se ele está bem se a pessoa não pode falar? Seria um sadismo disfarçado?

Nisso escuto alguém entrando na sala, entendi que era o médico novamente e sinto como se alguém estivesse extraindo as amígdalas que já não tenho. Sinto um alívio, pronto, voltei a respirar. Acho que apaguei mais um pouco e acordei já no corredor, a caminho da sala de recuperação.

Bom, pensa que são só os médicos e enfermeiras que tem check-list de procedimentos? Nada! Eu também já tenho os meus, depois das minhas experiências cirúrgicas, criei minha check-list também, que basicamente se resumem a dois itens:

  1. Verificar se algo que deveria estar no lugar, não está;
  2. Verificar se algo que não deveria estar no lugar, está.

Felizmente, dessa vez, constato que nenhuma das situações tinha ocorrido. Tudo estava onde deveria e nada sobrando também foi localizado. Alívio.

Assim que vi o médico, a primeira pergunta foi se ele tinha conseguido tirar tudo e, como música aos meus ouvidos, ouço que sim.

De resto, tudo transcorreu do jeito de sempre. Para maiores detalhes, por favor, reveja os outros episódios da primeira temporada.

Ao final do dia tive alta. O médico passa pelo quarto, mais algumas perguntas e me olha, novamente, com aquele olhar de “já que você já sabe, nem vou tentar dizer que vai ser tranquilo”. E não foi! A cada inocente xixizinho eu invocava todas as forças do universo!

Chegou o dia de tirar o cateter. Lá vou eu para mais uma sessão de tortura. Era outro médico que estava de plantão.

– O senhor já fez isso antes?

– Sim.

– Bom, então já sabe que incomoda um pouco. Aquele olhar de eu sei…

Um pouco? Abomino essa minimização de impacto de sintomas! Incomoda um pouco um chute no saco! Isso incomoda para ¨!@*&!@.

– Pronto, saiu.

Fiquei com medo de olhar se o que tinha saído era o cateter ou os meus rins e bexiga. Fico feliz ao constatar que foi só o cateter.

E assim termina mais um capítulo da série de terror mais temida da minha vida. Pior que vale a pena ver de novo, pior que sessão da tarde com filme sem graça, e bem ao estilo, nem tente explicar pois, eu sei o que vocês fizeram na cirurgia passada.

Novamente, assim como nos outros contos, não estou criticando aos profissionais da saúde que me atenderam, pelo contrário, todos agiram com o maior profissionalismo e atenção possível e tenho total gratidão pelos atendimentos pelos quais passei. É tão somente uma forma descontraída de abordar um tema extremamente dolorido!

Gostou? Então leia também o início dessa saga (poder rir da desgraça alheia, nesse caso o objetivo é esse mesmo)

A saga de uma cólica renal – onde tudo começou

A saga de uma cólica renal – o retorno

A saga de uma cólica renal – o grand finale

 




Deus é brasileiro (coisa nenhuma!)

Essa é uma fala comum por aqui e normalmente é dita com orgulho. Chato que sou, desmistificarei esse mito e darei argumentos para mostrar que Deus nunca foi brasileiro.

Se Deus fosse brasileiro o mundo não teria sido criado até hoje. Isso mesmo, ainda estaríamos fazendo a licitação dos materiais, que custariam 200 vezes mais caro que o normal, não seriam entregues no prazo e, quando entregues, teriam uma qualidade muito inferior ao contratado, ou seja, quando Deus estivesse lá pela quinta-feira, tudo o que foi construído entre a segunda e  a quarta-feira já teria desmoronado. Diante disso, seria aberto um procedimento administrativo para verificar o processo de compra, que ficaria alguns séculos analisando documentos e pedindo laudos para chegar a conclusão que a culpa não era de ninguém.

As empreiteiras contratadas para o processo de construção do mundo iriam abandonar a criação pelo meio do caminho, alegando que precisavam de mais uns dez mil aditivos de contrato. O dinheiro seria liberado, mas nunca chegaria ao seu destino final, ao contrário, seria desviado para paraísos inter espaciais. O Ministério Público Celestial abriria um processo para averiguar se houve má utilização e gestão das verbas celestiais, mas nunca chegaria a um acordo, pois Deus iria afirmar que tudo foi feito dentro do estipulado, mas que alguns imprevistos aconteceram e a criação poderia sofrer alguns milênios de atraso, entretanto a culpa era do Diabo, que por sua vez iria negar tudo, afinal essa herança maldita não tinha nada a ver com ele. O Instituto Infernal soltaria uma nota dizendo que não sabia de nada sobre esse assunto e que tudo isso era intriga da oposição! Mas espera ai, a oposição não seria o próprio Diabo?! Enfim, deixa para lá.

Seria marcado um evento para a inauguração do Mundo, mas no dia estipulado haveria apenas cerca de 5% das obras concluídas e Deus falaria do legado da construção do Mundo, que alguns esforços teriam que ser feitos, mas que isso traria muitos benefícios para todos, mas que isso demandaria  mais alguns trilhões para que as obras pudessem ser concluídas. Os ingressos para a inauguração do mundo seriam superfaturados e só a elite iria participar, mas fariam protestos contra a burguesia para aparecer no Bom dia Céu e no Jornal do Paraíso.

Mas fica uma dúvida, todos esses ditos “adicionais de contrato” não são obrigatórios e, portanto, já não deveriam estar incluídos no projeto original? Claro que não! O projeto inicial não contemplava  que seria necessário água para o mundo e, para isso, teria que ser feita uma transposição de algum outro lugar que também ainda não existia, mas essa obra seria indispensável para que a água chegasse até aqui. Obras e mais obras ligando nada a lugar nenhum teriam que ser feitas em caráter emergencial, sem licitação, desviando mais alguns bilhões e atrasando a entrega final em mais alguns séculos. Deus então faria disso sua promessa de campanha e ficaria mais alguns milênios investindo trilhões nessa obra que também nunca seria concluída, mas que todos acreditariam ser a única alternativa viável para resolver o problema.

Nesse jogo de empurra-empurra, o Diabo acusaria Deus de não ter cumprido a Lei de Responsabilidade Celestial e Deus, por sua vez, abriria um processo na Comissão de Ética contra o Diabo, por quebra de decoro celestial.  Os assessores do Diabo entrariam com “putilhões” de recursos na Comissão, adiando por mais alguns bilhões de anos o andamento do processo. Depois de tanto tempo, ninguém mais se lembraria qual por qual motivo o processo tinha sido aberto e ele seria arquivado por falta de provas. Mas e o mundo, quando terminaria de ser criado? Quem se importa com isso!?

Com todas as obras paralisadas, superfaturadas, verbas desviadas e nada concluído, Deus sairia de férias no final da quinta-feira, ao invés de somente sair no sábado, que seria o dia de descanso, mas aproveitaria para dar uma esticadinha e o mundo continuaria de pernas para o ar.

Depois do recesso, ele voltaria animado para terminar tudo e fazer as coisas funcionarem e então, daria uns tapas aqui e ali, jogaria umas sujeiras aqui e acolá e pronto, eis que o mundo se fez, bem verdade que nas coxas, mas estava feito.

Chegado o momento da criação do ser humano, ele iria começar a selecionar as características importantes para as pessoas, tais como: caráter, ética, amor, respeito, humildade, inteligência, mas como os recursos financeiros estavam escassos devido a todos os desvios, ele teria que fazer alguns cortes de orçamento no processo da criação humana também. Sem saber exatamente o que fazer, ele cortaria algumas coisas que aparentemente não trariam graves consequências como, por exemplo, o caráter, a ética, o respeito, a humildade e a inteligência.

– Mas isso não era tudo o que eles tinham?

– Hummm, verdade, mas enfim, é o que dá para fazer com os recursos disponíveis, então, é o que temos para hoje. Posteriormente, eles poderiam ingressar no Programa Bolsa Celestial e pedir essas características, que já seriam inerentes à condição humana e fundamentais para sua existência,  na forma de benefícios sociais que naturalmente, se transformariam numa nova fonte de desvio de verbas, mas seria a bandeira do programa de Deus, que se orgulharia de beneficiar seus filhos com esses benefícios, mas só para lembrar, esses benefícios eram características da própria constituição humana, só que agora custam mais um pouco…

Claro que não entendo Deus dessa forma e esse texto foi só uma forma de tentar abordar um assunto sério de forma descontraída. Não há motivo nenhum para esse orgulho tolo de achar que Deus é brasileiro, afinal, é exatamente esse jeitinho brasileiro  que acaba com o país. Se você já acha que está ruim, pense que se Deus fosse brasileiro, poderia estar bem pior! 

mimimi




Um critério de “chatificação”

Eu sou chato, você deve ser chato, pelo menos um pouquinho, toda pessoa normal é um pouco chata, tem lá suas manias e esquisitices, mas alguns, ahh, alguns estão de parabéns! Sim, de parabéns, porque não é qualquer pessoa que consegue atingir um nível tão refinado de chatice, para nossa sorte.
Todo mundo convive com algum chato e, caso você não conviva com nenhum, preocupe-se, pois o chato deve ser você. Tem o chato do colega de trabalho, o chato do vizinho, o chato que só conhecemos de vista, mas já achamos que ele é chato sem nem mesmo ter trocado uma palavra com ele, tem o chato da família e engana-se quem acha que vou falar da sogra, pois a sogra é “oconcur”. Para quem não sabe, oconcur é uma palavra derivada do francês hors-concours, que serve para designar uma pessoa ou trabalho que está fora de julgamento ou competição, dado seu grau de destaque e de superioridade, como a sogra, por exemplo, na categoria chatice, pois seria uma covardia em qualquer premiação alguém competir com ela.
Tem o chato do cunhado (a), o tio mala que sempre tem as mesmas piadas a duzentos e vinte e cinco anos, enfim, o chato é uma espécie que não corre risco algum de extinção, pois se prolifera com uma rapidez viral, uma epidemia, para a qual, aliás, não há tratamento ou vacina ainda.


De tempos em tempos surgem novas categorias de chatos, pois a espécie também evolui e vai para outras áreas, sendo que uma das mais recentes é o chato cibernético ou o chato social, aquele que vive infernizando a vida de todo mundo pelas redes sociais, aquele que te inclui em todos os grupos sem você pedir, que acha que você vai gostar de um perfil e fica de sugerindo, de minuto em minuto uma página nova, que acha que você passa seu dia jogando e, portanto, manda convite de todos os jogos disponíveis no Universo para você, além do chato que só da indiretas e acerta todo mundo menos a pessoa que ele queria, o chato que entra na sua publicação sem ser convidado e dá palpites com coisas nada a ver com o que você falava, que contesta tudo, só pelo fato de ser chato e nem adianta você mudar de opinião para concordar com o chato, pois como bom chato, ele vai mudar de opinião também e vai ser contra aquilo que ele mesmo disse, só para exercer seu direito divino de ser chato.
Existem os chatos que somos obrigados a conviver e aqueles que podemos escolher se queremos ou não, pena que nem todos podem ser assim, mas o chato cibernético enquadra-se na categoria dos chatos que podem ser facilmente removidos, basta um “Desfazer amizade” e, se for um chato Master Pluz Blaster Mega, também vale usar o recurso “Bloquear” e pronto, em dois clique seus problemas sumiram. Pena que essas opções não existem na vida real, já pensou como seria ótimo simplesmente bloquear algumas pessoas? Você passaria perto dela e ela não iria te ver, você poderia estar numa roda de amigos comuns, conversando todos juntos, mas o chato não iria ver você e nem você a ele, não saberiam as chatices faladas, mas conviveriam harmoniosamente entre os amigos, mas pode voltar para a realidade, pois isso não existe!
Eu estabeleci algumas regras para classificar os chatos do meu perfil, atribuo a eles pontuações seguindo a escala de critérios CQQ , que é uma abreviação para Critério Que eu Quiser, logo que o critério é meu, o perfil é meu e o chato inferniza a minha vida eu vou usar o CQQ a hora que bem entender. Vamos lá, a minha escala é mais ou menos assim:
• Posta tudo o que vai fazer, às vezes até o fato de ir ao banheiro = chatinho (10 pontos por comentário)
• De vez em quando aparece e faz algum comentário infeliz = chato de leve moderação (25 pontos por comentário)
• Mensagens que parecem as famosas correntes sobre temas bíblicos com ameaças do tipo: se não compartilhar é porque não ama a Deus ou a Jesus = chato nível 1 (50 pontos por mensagem)
• Toda hora posta indiretas (que você fica na dúvida se é para você ou não) = chato nível 2 (60 pontos por indireta)
• Manda convite de jogos = chatão (80 pontos por convite enviado)
• Marca seu nome numa publicação sobre alguma forma milagrosa para emagrecimento ou para ganhar dinheiro fácil, junto com outras 49 pessoas = chato Master Pluz Blaster Mega (100 pontos por marcação e bloqueio imediato)
Pelo meu critério CQQ, toda pessoa que atinge 100 pontos está excluída, pois vejo que isso é uma forma democrática e que dá ao chato o amplo direito a defesa, afinal, ela não será banido instantaneamente, menos no caso da marcação com os outros 49, porque esse não tem jeito e é besteira tentar insistir. Todo mundo tem seus deslizes, eu mesmo já cometi minhas gafes, mas como falei, alguns estão de parabéns!
Tenho certeza de que acabei de produzir provas contra mim mesmo, ignorando meu direito Constitucional, mas chato é isso, sempre quer compartilhar um pouco da sua chatice e esquisitice, portanto, se alguém quiser me bloquear fique à vontade e, de agora em diante, também tornei público meus critérios. Se você também tem o seu, compartilhe e ajude as pessoas a ficarem menos chatas ou, pelo menos, para que elas saibam o quanto são chatas.




A saga de uma cólica renal – o grand finale

Como já devem ter percebido, eu sobrevivi a hecatombe da retirada do cateter, que é o grand finale, fechando com chave de ouro essa odisseia.

Meus sentimentos para esse final eram muito controversos, pois ao mesmo tempo em que não via o instante de me ver livre e poder fazer meu xixizinho em paz, já sofria com ideia do que vinha pela frente, pois é claro que tranquilo não seria. No dia agendado lá vou eu, sem pensar muito, mas já prevendo um pouco mais de dor.

Estava esperando por alguns atrasos no atendimento, mas para minha surpresa, antes da hora combinada a enfermeira já chamou, me deixando meio desestabilizado, pois mentalmente eu ainda não estava totalmente pronto, mas lá vamos. “Sala de Procedimentos 1”, era a inscrição na porta, mas eu lia “Sala de Tortura 1”. Entrando, já dou de cara com aquela maca monstruosa, objeto de tortura, com os apoios para a perna já a postos. Embora já soubesse que seria assim, constatar o fato não me agradou. A enfermeira já me entregou um lençol e disse que eu poderia usar o banheiro para tirar toda a parte de baixo, tudo, reforçou ela.

O pouco da dignidade reconquistado nos últimos dias já estava indo para o espaço novamente, mas é por uma boa causa, era o que eu tentava me convencer o tempo todo para não pensar em nada. Voltei, enrolado no lençol e ela me falou para sentar na maca que a doutora já viria. Enquanto isso, vou observando seus movimentos, tirando todos os instrumentos de tortura possíveis, caixas monstruosas que eu me recusava a imaginar o que continham. Num dado momento, ela me pergunta se eu já havia tirado alguma vez o cateter. Digo que não e que não estava muito à vontade com a ideia, mas enfim, fazer o que, pelo menos iria acabar. Ela, toda profissional, concorda comigo e fala que realmente iria ser rápido e pronto. Me aliviou muito…

Continuando os preparativos para a execução, digo, procedimento, ela pega um frasco de soro, deixa todo preparado, coloca num suporte ao meu lado, mas já se adianta em dizer que eu poderia ficar tranquilo, que eu não iria tomar o soro, mas ele seria utilizado no equipamento. Novamente, uma paz infernal tomou meu ser, até parece que um frasco de soro seria o motivo da minha preocupação depois de ter visto o aparelho monstruoso que eu havia visto há pouco. O tamanho da ponta do aparelho era umas trezentas vezes maior do que a agulha, portanto, quisera eu todo o meu sofrimento ser uma picada para um soro. Ela me diz que já estava tudo pronto e que iria chamar a doutora. Fico lá, sentado, enrolado no lençol e só pensando no que viria. Os minutos pareciam horas e, num dado momento, a porta se abre e entra o rosto conhecido da minha médica, com aquele ar sereno, me perguntando como tinham sido os últimos dias. Com muita dor, digo eu, mas o importante é que estamos chegando ao fim. Ela me explica como seria o procedimento, que seria rápido e caso eu não aguentasse, ela parava e me encaminhava para o centro cirúrgico, onde seria sedado e pronto.

Me deito, na linda posição de quem vai fazer um parto natural e lá vamos nós. Prepara daqui, prepara dali e vem as instruções iniciais. Vou colocar bastante anestésico em gel na sua uretra, para que não sinta dor, mas vai incomodar um pouco. Esse vai incomodar um pouco me irrita profundamente, pois já sei que vai doer prá ca…..lho. Com toda a calma ela começa a introduzir o dito gel, com uma seringa que parecia um pet de coca-cola de 2,5 litros,  que queima e ia tomando conta das minhas entranhas. Depois de alguns segundos (pareciam horas) ela me diz para relaxar, pois facilitava e faria com que o anestésico fosse até a bexiga. Antes que eu pudesse pensar, ela já se adianta e diz que sabe que era difícil relaxar. Só dou um sorriso que nem amarelo já era mais e quase arranco a borda da maca de tanto apertar, respiro fundo e sinto uma explosão atômica em minha bexiga. Bom, provavelmente o gel chegou ao seu destino.

Ela comprova, disse que estava pronto, mas que para evitar que o gel vazasse, ela teria que fechar o dito cujo. Antes que eu pudesse imaginar qualquer coisa, sinto um laço apertando e penso que se ficasse assim por muito tempo ele iria gangrenar!  Continuo respirando fundo, já vendo algumas luzes, que imagino sejam do plano espiritual já a postos para me receber. Aquele silêncio incômodo na sala e ouço ela falando alguma coisa com a enfermeira, mas fiz questão de não entender.

Vamos começar, diz a voz suave, que me diz que agora viria a parte mais incômoda. Nesse momento, já entrego minha alma nas mãos do senhor e peço perdão pelas minhas falhas, esperando que ele tivesse misericórdia e me recebesse de braços abertos.  Só vejo uma ponta metálica de uns quinze metros sendo colocada em pé diante de mim, bem na mira do meu amigo e lá vamos nós. Confesso que, de início, realmente não senti nada, fiquei até feliz, mas como a alegria nessas situações duram frações de segundos, lá vem mais uma instrução satânica: agora vem a parte mais chata, você vai sentir uma pressão… PQP, QUE P…A É ESSA! EU NÃO VI O ELEFANTE QUE SE SENTOU NO MEU COLO AQUI DENTRO ANTES, ONDE ELE ESTAVA?, penso eu, gritando mentalmente, porque a voz não saia. Uma pressão que parecia que que todos os meus órgãos iriam explodir, sinto o dito cujo sendo forçado e puxado para baixo e pensei que ela iria realmente tirar tudo, que o rim, a bexiga e o que mais viesse pela frente iria sair a qualquer momento. Senhor, receba minha alma, AMÉMMMMMMM, PQP, CA*****LHO!!!! Pronto, acabou, disse ela, calmamente.

Abro os olhos e vejo que ainda estou na sala, nem um rosto desconhecido ao lado, portanto, acho que ainda não foi dessa vez que morri, sinto um raio de fogo saindo da minha uretra e chego a pensar que ela havia tirado o cateter e implantado um dragão.

Quer ver, pergunta ela. Claro que quero, digo eu e ela ergue uns duzentos metros de mangueira toda torcida em ambas as extremidades. Nessa hora entendo o motivo da dor e penso que minha uretra nunca mais seria a mesma. Pensa que acabaram as boas notícias? Claro que não, ela diz que um dos possíveis sintomas, depois da retirada do cateter, são cólicas, que alguns pacientes relatam sentir cólica e penso que era tudo o que me faltava, faço tudo isso para não ter mais dor e a primeira coisa que vou sentir, depois de tudo isso, é a mesma dor que me levou a fazer tudo isso? Bom, para evitar, vou  passar um soro com medicamento antes de sair, depois que terminar você vai embora.

Feliz e parecendo ter sido atropelado por um trem, vou ao banheiro me vestir e conferir se era realmente só cateter que ela tinha tirado, pois a dor e a pressão ainda não tinham saído da minha mente. Felizmente era só ele mesmo.

E assim termina esse episódio da minha vida e, com ele, algumas lições e aprendizados:

  1. Quando o médico diz que não vai doer, vai doer.
  2. Quando ele diz que você vai sentir um leve desconforto, comece a rezar e a pedir a Deus pela sua alma, porque vai doer muito.
  3. Quando ele diz que o procedimento não vai te impedir de fazer nada, entenda que você vai vegetar por alguns dias e uma respiração mais profunda pode ser um movimento muito brusco, portanto, não indicado.
  4. Só dez por cento dos pacientes sentem dor. Claro, os outros noventa já desencarnaram, portanto, a dor já não é algo que os preocupe mais.
  5. Dois dias = uma semana.
  6. Sorrisos tranquilizantes só te irritam mais ainda.
  7. Tente relaxar = tente respirar para não morrer asfixiado.
  8. Se sentir dor, você toma esse remédio = é fato que você vai sentir dor, o remédio não vai ajudar muito, mas tome porque vai ser bem pior sem ele.
  9. Vai ser rápido = vai demorar, afinal, o tempo é muito subjetivo e depende de qual lado da dor você está.

 

Mas é claro, tudo poderia ser muito pior sem os cuidados desses profissionais e, como disse logo no início, estou tratando a coisa com humor, mas agradeço muito a toda a equipe que cuidou de mim e de tantos outros que estavam na mesma situação.  A medicina é uma profissão muito nobre, afinal, lidar com a dor alheia não é fácil. A toda equipe de enfermagem, que não cansa nunca, quer dizer, nunca demonstra cansaço, mas é claro, também sentem dores, angústias, cansaços, mas que estão sempre prontas a ajudar e aliviar o nosso sofrimento, também meus sinceros agradecimentos e respeito!

E, para terminar,  só mais uma coisa. Sabe essas brincadeiras machistas sobre o temido exame da próstata. Então, depois dessa minha experiência vou achar que o exame não é nada, afinal, o que é um dedo perto de um tubo de duzentos metros? Deixa de bobeira, afinal, sua masculinidade não vai valer nada dentro de um caixão e, convenhamos, ninguém é mais homem ou menos homem por um simples exame.

O objetivo desse meu conto não é causar pavor, mas compartilhar a todos que possam ainda ter que passar por essa experiência, que ela pode ser sofrida, doida, mas você vai sobreviver. Tente tratar a coisa com humor, eu sei que é complicado, mas acredite, se fazer de vítima e se entregar não vai ajudar muito.

Parte 1                        Parte 2




A saga de uma cólica renal – O retorno

Não aguentando de dor, achando que o cateter tinha saído do lugar, perfurado minha bexiga, necrosado meu rim e por ai vai, voltei para a emergência, pois não dava, era impossível fazer o xixizinho sem berrar e como esse ato tinha que se repetir, no máximo, a cada quinze minutos, não haveria muitas chances de sobrevivência.

Fui atendido, dessa vez, por uma médica, que tranquilamente falou que esse era um efeito comum do cateter. Mas espera ai, não era indolor?????  Se isso era indolor, fico com pavor de pensar no que seria dor para eles. Seriam discípulos de Hitler e estavam fazendo novas experiências com torturas? Resumindo a história, fiquei  internado, pois era a única forma de tomar medicamentos mais fortes e, com isso, minimizar a dor e eu ficaria internado até a cirurgia definitiva, que foi marcada para depois de cinco dias. Não tenho nada contra médicos, enfermeiros, mas hospital não é um ambiente que eu ame e onde ache legal passar uns dias, mas enfim, lá vamos nós.  Analgésicos, antibióticos, dilatadores, entre outros passaram a ser comuns.  As sádicas das enfermeiras já chegavam com o copinho e falavam, sua dose de MM chegou. Eu sorria, não sei se de raiva, vontade de socar a cara da ajudante de Hitler ou, por desespero mesmo. Essa foi a rotina, de duas em duas horas, dia e noite, por cinco dias.

Todo dia, na visita médica, vinha a pergunta: “dormiu bem?”. Sim, claro, uma tranquila e amável noite, dormi um sono só! Dois dias depois de hospitalizado, finalmente, senti um alívio, já conseguia fazer meu xixi sem muito sofrimento. Que alívio! Mas, como nem tudo são flores, chega o dia da cirurgia. No dia anterior, os procedimentos chegam a dar medo, respondi a mais uns dois ou três questionários, perguntaram se eu já havia assinado um termo de ciência do procedimento. Do nada, no meio da noite, uma enfermeira abre a porta e pergunta meu peso e altura, para passar para o centro cirúrgico. Pelo tom da voz e pela naturalidade, achei que ela iria passar era para o papa defunto, enfim, lá vamos nós.

Chega o dia, minha médica passou no quarto, fez uma marca no meu abdômen, no lado direito, procedimento normal e necessário para evitar que coisas erradas sejam operadas ou cortadas, desnecessariamente, fato que no meu caso, em específico, poderiam ser trágicas, então, pode marcar, pega um pincel marca texto, uma lata de tinta, pinta com tinta fluorescente, sei lá, mas identifique muito bem! Nos vemos daqui a pouco, disse ela.

Dessa vez já desci para o centro cirúrgico mais tranquilo, o corredor tinha só uns 375 km. Aperta campainha, trocas de informações, procedimentos de praxe e lá vou eu para o pré anestésico novamente. Dessa vez fiquei lá só uns 10 minutos e já fui levado para a sala. Novamente os procedimentos de praxe, o anestesista veio falar comigo e percebi que ele ficou me olhando, olhando e acabou perguntando : “eu acho que te conheço, você…”. Conhece  sim, digo eu, o senhor já me anestesiou na semana passada, tá lembrado? “Opa, verdade, e ai, como está?” ?”. Estou ótimo, pensei, estou passando aqui só para dar um oi, mas de qualquer forma foi bom ter um rosto conhecido, já estava quase criando vínculos afetivos no centro cirúrgico, quase que já ia falando se depois ele não queria tomar uma, bater um papo, quem sabe um churrasco, mas não deu tempo, dormi antes… Mas, antes de dormir escutei uns papos meio estranhos entre uma enfermeira e o anestesista, por um momento lembrei do seriado Gray´s Anatomy, e lá vou eu para o meu sono profundo novamente, sei lá o que fizeram e falaram depois.

Acordei praticamente três horas após, já na sala de recuperação, ainda meio tonto, o primeiro impulso foi o mesmo, dar uma conferida se tudo estava onde deveria estar e, espera ai, notei algo que não me pertencia junto comigo. É uma sonda, disse amorosamente a enfermeira, com aquele sorriso irritantemente tranquilizador! Que ótimo, pensei, acho que pensei ou falei, sei lá, não sabia ainda o que estava fazendo, só sei que não gostei. Ela me disse que eu tinha que ficar quieto, não poderia me mexer muito, mas que estava tudo bem. Como estava curtindo meu barato novamente, fiquei na paz, meio zen, zen noção nenhuma do que me aguardava!

Passado mais algum tempo, que poderia ter sido alguns dias, talvez, ouvi uma voz me dizendo que eu já voltaria para o quarto, que estava tudo bem.  Passei novamente pelos 375km do corredor e cheguei no quarto e, novamente, minha mulher lá me esperando, com aquele sorriso lindo, esse sim, confiável. Duas enfermeiras me ajudaram a ir da cama para a maca, arrumando a linda bolsinha da sonda que eu havia ganho e ajeitando as partes baixas. Nesse momento comecei a perceber que a coisa não iria ser muito boa, pois o movimento da sonda doeu um pouco, mas, entorpecido que ainda estava, nem  me dei conta da tragédia que se seguiria. Depois de um tempo um dos médicos passou no quarto, ergueu o lençol, dá aquela olhadinha, cara de tudo normal. Pergunto se posso me levantar, me mexer e ouço que sim, que só teria que ficar imóvel por mais algumas horas, devido a anestesia, mas que depois das dezoito horas poderia levantar, mas sempre com a ajuda de alguém. Achei ele meio exagerado, mas tudo bem.

Segue a tranquila vida de quem está internado, soro, remédios, verificações e ouço uma das enfermeiras falando para avisar quando a bolsinha ficasse cheia, como se eu pudesse ver, mas enfim, minha esposa estava junto e estava tudo tranquilo. A primeira foi meio assustadora, vermelha, aspecto nada agradável. A segunda já foi mais tranquila, a enfermeira disse que ela já estava mais bonitinha. Quem entende, urina bonita, mas enfim, vamos lá. Passava das dezoito horas quando resolvi que iria tomar um banho, afinal, estava sujo de sangue lá onde você está pensando mesmo. Levanto da cama, sinto um pouco de tontura, mas tudo bem, minha mulher ajudando, segurando a bolsinha e lá vamos nós para o banho. Descubro, nesse momento, que tomar banho com soro e sonda não é uma tarefa simples, era melhor chamar o Macgayver ou o Tom Cruise, afinal, era uma missão impossível. Lavo onde tinha que ser lavado e começa o drama para se secar.  Cada movimento que minha mulher fazia com a bolsinha eu morria de medo, doía, parecia que o dito cujo iria cair no chão, explodir, sei lá. Entre trancos e barrancos, visto um novo avental e vamos para a cama, onde decidi ficar, catatônico, completamente imóvel, quase em coma, até o dia seguinte.

Nesse ponto entendi o comentário do médico: “poder, pode”, quer dizer, eu posso me mexer, mas se você vai conseguir é outra história e, em nome do bom senso e por querer ainda me manter inteiro, resolvi  que o maior movimento que eu faria seria respirar, com cuidado. A noite foi muito tranquila, confortável e a cada pouco alguma enfermeira entrava para dar uma conferida em tudo, olha bolsinha, olha o dito cujo e eu lá, me sentindo uma múmia exposta a visitação pública. Também, depois de tudo o que já deveriam ter feito, o que tinha dar uma olhadinha? Relaxei, pelo menos tentava me convencer disso.

Na manhã seguinte minha médica passa, também dá a olhadinha, examina e sentencia: “está tudo bem, vou pedir para tirar a sonda”. Aquilo soou como a nona sinfonia de Beethoven, não via a hora, mal ela saiu do quarto e eu já me senti tentado a apertar a campainha e chamar a enfermeira para tirar logo, mas me controlei, afinal, aquela altura, um movimento brusco como apertar uma campainha poderia colocar tudo a perder e me contive. Quase quarenta minutos depois entra a enfermeira e me animo, mas ela me deu meu saquinho de MM para tomar e falou que estava aguardando um medicamento que eu deveria tomar antes de tirar a sonda. Me senti deprimido, mas fazer o que, vamos aguardar.

Mais ou menos uma hora depois entra ela novamente, com uma seringa pronta e avisa que vai aplicar o medicamento que a doutora passou, que descobri nesse momento, era morfina. Ela aplicou e eu viajei, não sentia mais nada, não sentia perna, braço, boca, sentia calor, frio, enjoo, tudo junto e ela, percebendo que não fiquei bem, me pediu para falar com ela. Falar o que, minha filha???? Você acha que eu conseguia falar alguma coisa??? Escutei ela falar que eu fiquei muito vermelho, imagino, devo ter ficado pink, pois pelo calor que senti, achei que estava pegando fogo.  Como ainda não podia me mexer, afinal, a bendita sonda ainda estava lá, vejo ela levantando o lençol e pensei, pronto, lá vamos nós novamente, mas pelo menos dessa vez era por uma boa causa, ela iria tirar aquilo que tanto me ….AAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. Nesse momento, sinto que não fiquei mudo e que ainda podia falar, gritar, gemer, e confesso, novamente me veio aquela vontade de socar a enfermeira, mas me contive. Vejo o tubo que ela tirou do meu amigo e pensei em pedir para ela deixar comigo, afinal, dava para colocar um bico e lavar o quintal com aquela mangueira! Assim que ela saiu do quarto volto a me examinar para saber se ela tinha arrancado somente a sonda mesmo e, para alívio, constato que o restante ainda estava no lugar certo. 

Fico lá, imóvel, por mais um tempo, recuperando a respiração e a dignidade, que a essa altura, já tinha ido para o espaço há muito tempo. Ela volta e fala que agora precisa observar se vou conseguir fazer xixi normalmente. Me lembro da minha primeira experiência após a colocação do cateter e novamente senti o polo norte em minha coluna. Se um cateter tinha dado toda aquela dor, imagine aquela mangueira de irrigação. Vou ao banheiro com o mesmo ânimo de quem vai para o corredor da morte, posição tomada e pronto.  Dessa vez foi um tsunami junto com uma erupção vulcânica, aliado a um tornado e uma tempestade raios. Esse foi meu primeiro xixizinho após a retirada da tubulação transoceânica que estava no meu canal.

No outro dia entra a médica, toda atenciosa, pergunta como estou. Penso num monte de possíveis respostas, nada educadas, mas me limito a responder que tudo bem. Ela falou que me daria alta e disse que o cateter que eu ainda usava seria retirado depois de dez dias, no consultório, com anestesia local. Não me atrevi a fazer qualquer outra pergunta sobre o assunto, prefiro já não saber mais nada. Ela só disse que é “só relaxar e pronto”. Claro, tranquilo, muito confortável a ideia de ter algo entrando em você, talvez pela zona mais sensível do seu corpo, indo até sua bexiga e puxando algo que está dentro do rim para fora. Acho que vou guardar essa imagem e lembrar dela quando estiver praticando meditação, afinal, nada mais tranquilizador do que ter essa imagem na mente!

Já em casa, o incômodo é absurdo novamente, passo uns dias melhor, mas depois de três dias, eis que a dor volta e cada ida ao banheiro se transforma numa sessão de tortura. A dor sobe pelas entranhas, vai para o rim, que parece que está sendo picotado com um cortador de gelo, sabe aquele que a Sharon Stone utilizou, em Instinto Selvagem, pois é, sinto como se ele estivesse nas minhas costas. Um outro ponto é a região mais baixa, o testículo, que parece que vai inflando, que vou explodir e, nesse ponto, lembro lá do tal padre que sumiu pendurado nos balões e tenho medo, será que vou sair voando também de tanto que ele está inflando, mas olho e vejo que ele está normal, é só uma sensação mesmo, dos males o menor, imagine… bem, deixa para lá.

Parte 1                Fim