A Grande Mudança – Parte 1

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Após o descanso necessário, na tarde do dia combinado, avô e neto se encontram novamente, num lindo jardim, com flores de cores vivas e cheiros muito agradáveis, vindos da natureza exuberante que rodeava o local. A tarde era típica, com temperatura e luminosidade agradáveis. Eles se sentaram num quiosque, tomaram um copo de água pura e cristalina, que já estava numa mesa, aconchegaram-se nas poltronas e retomaram o diálogo.

– Nonno, fiquei pensando, depois que fomos embora ontem, no caminho da humanidade, em como as coisas foram acontecendo, pois, pela nossa conversa, percebi que a espécie humana caiu num abismo, perdeu parte de todas as suas conquistas materiais e mergulhou num mar de lamas. Quanto tempo isso durou? Como eles conseguiram sair disso?

– Vitor, sei que você tem pressa em saber o final dessa história, mas vamos devagar, pois se atropelarmos os fatos, pode ser que o objetivo final dessa conversa não seja alcançado.

– Esses eventos trágicos ocorreram, conforme falamos, por volta do ano de 2250, mas suas consequências ainda se estenderam por mais aproximadamente 200 anos, até que num dado momento, o ser humano, já cansado e praticamente sem forças, percebeu que era hora de retomar o seu processo evolutivo, mas antes disso, muitas coisas ainda aconteceriam.

– Vitor, para que você possa ter uma compreensão melhor da dimensão desses fatos, aproximadamente duas mil pessoas morriam, por dia, só no Brasil, em consequência dos conflitos, da violência e, principalmente, da fome e da sede.

– Nonno, duas mil pessoas por dia? Isso é impensável.

– Atualmente, concordo com você, isso é um fato impensável, mas na época foi exatamente o que aconteceu. Os corpos eram simplesmente abandonados e se decompunham a céu aberto, ou quando não, eram utilizados como alimentos para outros, num ato de extremo desespero e apego pela sobrevivência.  As pessoas sabiam que a hora da mudança havia chegado, que não havia mais outra alternativa, mas ainda não sabiam como agir e como fazer, estavam totalmente perdidas, uma vez que todas as suas crenças e estruturas haviam sido retiradas delas.

– Novamente aplicando a mesma máxima de que, em situações extremas, medidas extremas são necessárias, o homem dessa vez percebeu que era hora de promover uma mudança, pois a vida no planeta estava praticamente extinta. De toda a população mundial, estimava-se que haviam restado pouco mais de 10%, em todo o mundo, portanto, era chegada a hora de mudar ou a vida seria extinta por completo.

– O homem normalmente só percebia as coisas que realmente eram importantes em sua vida, quando praticamente tudo lhe era retirado. Nesse ponto da história, meu neto, chegamos a essa triste constatação. Através de todo o sofrimento, de toda a miséria, de toda a fome, de toda situação extrema que viviam, as pessoas começaram a perceber o que realmente lhes importava. Perdendo tudo, passaram a perceber que pouco era necessário para uma vida plena e feliz, aprenderam que bens materiais nada significam, que mesmo o dinheiro não é nada quando o essencial, o básico não faz mais parte do seu dia a dia, aprenderam que o dinheiro não podia comprar tudo, principalmente se esse tudo já não mais existia e que a felicidade podia ser muito mais simples do que se imaginava.

– Com toda essa situação, já estamos próximos do ano de 2300, que foi um novo ciclo, um período de renovações e mudanças profundas, mas lentas e necessárias para que a humanidade voltasse ao seu ciclo. Em meados desse ano, começaram a surgir algumas pessoas que queriam promover uma mudança desse cenário desolador, pessoas com uma força que nem elas mesmas sabiam de onde ela vinha, mas o desejo de mudar era grande e entre conversas e algumas articulações, ficou decidido que o Brasil seria a sede de um encontro com representantes de todos os países, que buscariam uma solução para essa situação caótica em que o planeta Terra se encontrava.

– Era o mês de Outubro de 2300, num dia extremamente quente, com temperaturas beirando os 50º graus, que esse encontro aconteceu, num prédio abandonado, em meio à ruinas, por todos os lados. O encontro em nada lembrava as pomposas reuniões de chefes de Estado, pois nada havia de luxuoso. O objetivo do encontro era exatamente discutir formas de mudar a história de sofrimento, portanto, ainda que de uma forma muito precária, todos estavam engajados e com muita força de vontade.

– Ainda arraigados a velhos conceitos, inicialmente, as pessoas não sabiam como começar uma mudança, pois a estrutura que eles tinham como poder fora totalmente destruída. Como organizar algo em meio a tanto caos? Quais regras deveriam seguir? Quem coordenaria tudo isso? Essas eram perguntas de difíceis respostas, pois não havia mais meios para se responder a isso de uma forma objetiva e clara, não havia mais recursos para se controlar mais nada.

– Foram longos dias de discussão e nenhuma conclusão definitiva foi feita, apenas ideias soltas, vontades e desejos, mas parecia que não havia mais uma saída adequada, em alguns momentos, o desânimo era aparente e parecia que realmente a humanidade caminhava para o fim. Finalmente, depois de cinco dias reunidos e sem qualquer sucesso, essas pessoas resolveram dar o encontro por encerrado, mas assumiram compromissos individuais de continuar a pensar no que poderia ser feito, em cada um construir um plano e marcaram um novo encontro em seis meses, tempo que julgaram como suficiente para que as ideias pudessem ser organizadas. Cada um retornou ao seu país, de barco, que foi o único meio de transporte coletivo que sobrou e, já durante os longos dias da viagem de retorno, começaram a arquitetar o que seria o novo capítulo da história da humanidade, capítulo esse que resultou nos dias que hoje vivemos.

– Nossa, nonno, isso é emocionante, pois como já nasci nessa época, muitas vezes tenho a impressão de que o mundo sempre foi assim, não tinha a menor ideia de todo o caminho que já foi percorrido antes.

– Meu neto, esse é um ponto importante, um ponto que nossos ancestrais não se deram conta e que foi um dos motivos pelo qual passaram tudo o que passaram: o fato de não valorizarem a história, o fato de não darem valor as conquistas dos seus antepassados, o fato de acharem que tudo era fácil e nenhuma consequência viria e, felizmente, nós aprendemos isso muito bem, tanto é que a nossa geração, desde muito pequena, já começa a estudar a história dos nossos ancestrais, história essa que é estudada em detalhes, discutida, analisada até a exaustão, como aqui estamos fazendo, desde o nosso primeiro encontro, exatamente para impedir que novamente venhamos a nos perder, para que não tenhamos que passar por todo esse sofrimento novamente.

– A memória, a cultura de um povo é algo muito rico e que não pode ser perdido, tem que ser preservado, estudado, discutido incessantemente, pois tudo é muito mais brando quando aprendemos com os erros já cometidos, com os fatos já superados e não precisamos, a todo o momento, repetir situações dolorosas. Agora você consegue perceber porque nossa geração valoriza tanto os antepassados?

– Entendo sim, nonno, sempre achei muito importante essa valorização, essa história, mas hoje, é claro, interpreto isso de uma forma muito mais abrangente, pois estou aqui pensando que se a humanidade tivesse valorizado sua história, ao longo dos milênios, teria aprendido muito mais e todo esse sofrimento não precisava ter acontecido, afinal, antes desse período turbulento, muitas outras coisas já haviam acontecido, a história é repleta de acontecimentos sombrios que, se devidamente estudados e interpretados, poderiam ter poupado a humanidade de tanto sofrimento e dor.

– Sabe, meu neto, as pessoas da época, pelo menos alguns grupos religiosos, tinham muito medo do fim do mundo, falavam que Jesus voltaria e julgaria a todos, que falanges de fogo desceriam dos céus e tantas outras coisas apocalípticas, só não percebiam que eles mesmos estavam causando o apocalipse, eles estavam destruindo o mundo em que viviam. Mas, nesse ponto, voltamos para mais uma observação importante sobre o padrão de comportamento, que era sempre esperar que fatores externos fossem os agentes de mudança,  o próprio fim do mundo, como pregavam, não era por conta dos inúmeros erros cometidos, mas porque um Ser superior iria acabar com o mundo. Eles diziam que a culpa de toda a corrupção seria dos políticos, mas não assumiam as parcelas de culpa que lhes cabiam, da desonestidade velada e da conivência com muitas coisas erradas, do qual, boa parte também participavam.

– Vitor, sei que esse nosso encontro foi menor, mas gostaria de parar por hoje, preciso finalizar um estudo, mas prometo que amanhã voltamos a falar sobre isso. Amanhã te conto como foi o início do processo de mudança, que foi iniciado com aquela primeira reunião no Brasil, reunião de onde todos saíram comprometidos a achar um caminho. Só para te adiantar, conforme eles combinaram, em exatos seis meses eles voltaram a se encontrar e todos os envolvidos trouxeram suas anotações e ideias, mas isso será nosso assunto para amanhã, tudo bem?

– Combinado, nonno, tudo bem, assim também aproveito para estudar um pouco mais e continuamos nosso encontro amanhã. Pode ser aqui mesmo, nesse mesmo horário?

– Por mim, tudo bem. Ficamos combinados então.

Despediram-se com um afetuoso e caloroso abraço e cada um foi para o seu lar.

 

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