A Grande Mudança – Parte 2

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Dessa vez, Vitor e seu avô se encontraram no mesmo local, mas resolveram que essa conversa seria feita à beira mar, pois as energias vindas do oceano sempre trazem vitalidade e inspiração. Eles pegaram um trem, numa estação próxima onde estavam e, em menos de 15 minutos estavam em frente a um mar lindo e calmo, numa praia com areias finas e esbranquiçadas, que pareciam envolver os pés enquanto caminhavam.

A temperatura já era agradável, a sensação da brisa que vinha do mar tornava tudo ainda mais confortável e tranquilizante. Eles ocuparam um dos inúmeros quiosques disponíveis na orla e começaram mais uma conversa, retomando um pouco o dia anterior com o intuito de fazer um gancho para o que seria ali discutido.

– Vitor, foi no mês de março do ano de 2301 que os representantes de diversos países novamente se reuniram, após aquele encontro realizado em outubro de 2300, de onde todos saíram com o firme propósito de encontrar soluções para o caos mundial onde todos estavam mergulhados.

– Novamente a reunião aconteceu no Brasil e, em meio a muitas dúvidas, ideias e praticamente nenhuma certeza ainda, as conversas começaram. Eles começaram a expor seus pontos de vistas, as formas com que cada um buscou para tentar chegar a um consenso, mas também era consenso que nenhuma ideia trouxe grande entusiasmo e, de uma maneira geral, todas remetiam aos mesmos moldes já adotados no passado e que, histórica e comprovadamente, não funcionavam. Novamente as ideias sobre divisões, posses, demarcações territoriais, leis, regras, mas nada de inovador, pois era a realidade ao qual estavam acostumados. Já haviam se passado dois dias de muita conversa e nenhuma solução, quando Giuseppe, o representante italiano, em meio a muitas gesticulações e num tom de voz tipicamente italiano, soltou a frase que mudaria o rumo da história: “va bene, apriamo le nostre menti a nuove idee”. Era isso que o mundo precisava, novas ideias, novos conceitos, uma nova forma de ver e entender as coisas e uma fala tão simples representou uma das maiores mudanças da história da humanidade. Ninguém soube explicar porque, mas aquela fala acabou tocando a cada um, novas ideias, novas ideias, como ter novas ideias pensando da mesma forma?

– Interessante, nonno, realmente é muito comum querermos produzir algo novo pensando do mesmo jeito, mas novas ideias requerem uma nova forma de pensar, livre de conceitos preestabelecidos, livre de vícios e livre do comodismo, que muitas vezes é muito sofrido, mas alguns preferem sofrer no que já conhecem a mudar e tentar algo novo, que pode lhes trazer uma situação muito mais agradável, mas é o medo do novo, da mudança, da inovação. Realmente, como é difícil fazer algo  diferente, aceitar isso com naturalidade e quebrar velhas crenças, que estão arraigadas há séculos, milênios, fazem parte da nossa história e já nem sabemos o porquê, mas estão lá e lá deixamos, no fundo das nossas almas, mais por comodismo do que por convicção do bem que ela nos faz.

– Exatamente, Vitor! Nesse momento, eles perceberam que não chegariam a lugar nenhum se realmente não abrissem as mentes, senão lançassem uma nova forma de olhar o antigo problema. Resolveram então encerrar a conversa naquele dia e descansar um pouco, refletir e, no dia seguinte, novamente se encontrariam para continuar as discussões, mas agora, realmente com um novo olhar.

– Cada um dos participantes, naquela noite, se acomodou como pode no prédio onde estavam, sem nenhum tipo de conforto, mas todos estavam diferentes. Alguns começaram a observar o céu, como há muito não o faziam e o próprio Giuseppe foi um dos que fez isso. Ele sentiu um estalo, uma inspiração e um novo olhar que não sabia de onde vinha, mas observar o céu o fez pensar na imensidão do universo, o fez pensar que apesar de todo sofrimento pelo qual o planeta passava, o cosmo era o mesmo, as estrelas lá estavam da mesma forma, abrilhantando o céu e promovendo um espetáculo natural, a lua continuava linda e aquilo foi lhe dando uma paz interior que ele não sentia há muito tempo, uma emoção que lhe contagiou e ele caiu em prantos, por horas seguidas, um choro que lhe lavou a alma e abriu um canal de comunicação com essa energia cósmica e, num lampejo, ele pode sentir, dentro do seu próprio eu, um pedaço da imensidão do universo e da paz e harmonia que lá estavam o tempo todo, mas da qual ele e todo o restante da humanidade haviam se distanciado. Esse pensamento e sentimento trouxeram uma forma nova de encarar as coisas e o fez começar a pensar de forma diferente, o fez pensar que toda a harmonia e equilíbrio necessários já estavam em toda parte, não havia o que buscar porque simplesmente tudo já estava ali, eles é que não viam, mas tudo o que é necessário para a vida plena estava ali, aos olhos de todos, em perfeita harmonia e em perfeito equilíbrio.

Sem se dar conta, Giuseppe adormeceu e foi acordado, na manhã seguinte, com os primeiros raios do sol, que já queimavam sua pele, logo pelas sete horas da manhã.

– Assim que abriu os olhos, Giuseppe sentiu que estava modificado, algo em seu interior havia mudado, algo que ele ainda não compreendia bem, mas que trouxe a ele uma confiança muito grande e ele logo se dirigiu a sala onde todos estava reunidos. Com um entusiasmo fora do habitual, foi o primeiro a começar a falar e falou, por horas seguidas, num entusiasmo contagiante e, mesmo os mais céticos, que no início não estavam dando muita importância, acabaram se dobrando, até porque, qual seria a alternativa? Depois de tudo o que já haviam discutido e nada havia sido resolvido, não seria ruim ouvir uma ideia realmente diferente, que trazia novos conceitos.

– Estou curioso, nonno, o que ele tanto falou? Quais foram essas ideias?

– Vitor, as grandes transformações precisam de ideias novas, no entanto, sem perder a simplicidade de conceito e aplicação e foi essa a grande intuição do Giuseppe. Ao propor algo que não era inédito, mas que havia sido abandonado e esquecido há muito, causou espanto e descrença, mas que foram superados aos poucos. Seu grande e maior trabalho foi o rompimento definitivo com velhos conceitos e formas de se fazer as coisas, uma verdadeira quebra com os paradigmas da época. O discurso dele foi mais ou menos como vou procurar transcrever abaixo:

“Nós não precisamos mais de um poder centralizador, nós não precisamos mais de uma forma de poder econômico, seja qual for, nós não precisamos mais de Leis ou regras, até porque, comprovadamente elas não funcionam, nós não precisamos mais de alguém nos dizendo, o tempo todo, o que fazer e o que não fazer, nós não precisamos mais acumular bens materiais, pois veja o que nos aconteceu, onde o mais abastado dos seres não tem mais nada, nós não precisamos mais de uma educação castradora, que nos tira a capacidade de pensar e nos enquadra em padrões ditados por alguém, não precisamos mais de convenções sociais, de artimanhas políticas, do jogo sujo do pseudo poder, não precisamos mais de qualquer molde que nos leve a caminhos já conhecidos e falidos, não precisamos mais de empresas nos massacrando em troca de salários pífios! Precisamos sim, do esclarecimento, da verdade, da luz, precisamos da evolução individual, não a evolução material, mas sim, a evolução moral,  precisamos aprender que nosso planeta não pertence a ninguém, mas ao mesmo tempo, pertence a todos nós e, se é meu, não preciso pagar para habitar um pedaço dele, precisamos aprender que absolutamente tudo o que precisamos para viver, nos é fornecido, de graça! Sim, de graça, afinal, quem foi que construiu os grandes oceanos e rios para se apoderar das suas águas? Quem foi que construiu cada pedaço desse planeta, para depois dividi-lo, e vende-lo? Não existem donos, existem pessoas que se apossaram de algo e passaram a cobrar para dividir isso com os outros, mas de onde tudo isso vem? Pensem, todas as empresas, que fabricam ou manufaturam qualquer tipo de produto ou matéria prima, qualquer uma, qual é a fonte primeira de tudo isso? Nosso planeta, seria uma boa resposta, nosso planeta que não tem dono, que não foi construído por uma pessoa e nem vou entrar em questões religiosas ou ideológicas, o fato é que é nosso! Tão nosso quanto o nosso direito de ir e vir para qualquer lugar dele, quanto o nosso direito de comer, de beber e, acima de tudo, de cuidar desse planeta para que todos os seus recursos nunca acabem, para que todos, indistintamente, tenham direito a nele habitar, com dignidade, sem miséria, mas também, sem fortunas.

No universo tudo funciona assim, em perfeito equilíbrio e se aprendermos a respeitar isso, também entraremos nessa zona de equilíbrio, nós fazemos parte desse universo, nosso corpo físico é composto de material universal, temos em nossas células materiais que já pertenceram a outros planetas, a outros seres, vivos ou não, mas que hoje, reorganizados, mantém nosso organismo funcionando, podemos dizer que somos uma parte indissociável de todo o universo, portanto, somos todos nós o próprio universo e, em nossa essência, tudo já está contemplado. Agora, se nós próprios somos o universo, por qual motivo chegamos ao ponto que chegamos? Por qual motivo saímos dessa linha de equilíbrio e nos perdemos ao longo do caminho?”

– Nonno, esses questionamentos são muito pertinentes, aliás, nos dias de hoje isso é visto com muita naturalidade, mas estou aqui pensando, pois na época, isso não era comum e estou pensando em como as pessoas reagiram a essa ideia.

– Vitor, inicialmente as coisas ficaram complicadas, pois alguns acharam que ele estava perdendo a lucidez, que eram divagações de uma mente que não estava mais suportando a realidade e que estava entrando em colapso, criando um mundo onde pudesse se refugiar, numa tentativa de continuar vivendo, mas aos poucos, depois de mais algumas horas e horas de conversa, começaram a perceber que a situação era outra, além do que, que mal faria fazer uma tentativa nova se tudo já lhes havia sido tirado? Nesse caso, literalmente, não havia nada a ser perdido, no máximo, continuariam na mesma.

– A fala do Giuseppe, ao mesmo tempo em que era natural, trazia muito desconforto, pois como fazer todo aquele discurso virar prática e modificar algo? Ele começou dizendo aos participantes da reunião que era necessária uma grande mudança de postura individual, que não seria um trabalho fácil e que essa mudança levaria anos, mas que poderia sim gerar bons resultados.

– Segundo a fala dele, as pessoas teriam que assumir um grande compromisso, mas não com ninguém e sim, consigo mesmas, compromisso de se modificarem, pois até então, todo processo de mudança sempre foi encarado como algo externo, dai o grande erro, dai o motivo de nunca nenhuma ter dado certo, pois não se mudava o coletivo antes de mudar o individual. Como a situação era crítica, as pessoas não tinham nada a perder, portanto, talvez tudo isso tivesse acontecido para que cada pessoa voltasse os olhos a si mesmo e não mais ao outro. Não havia mais o que criticar, não havia mais em quem por a culpa e também não havia mais uma pessoa que pudesse ser eleita como o grande representante e salvador, todo esse processo de “salvação” teria que ser construído, com trabalho muito duro e individual, que naturalmente, com o passar do tempo, iria refletir na coletividade. Da mesma forma, como não havia mais posses, também inexistia a inveja, por isso, as pessoas começaram a lidar com sentimentos desconhecidos, ou pelo menos, com a falta de outros muito conhecidos, um deles, por exemplo, a própria inveja, a luxúria, a prepotência, que não faziam mais sentido algum, pois nenhum desses sentimentos prevalece quando sequer a dignidade existe.

– A ideia dele era simples do ponto de vista operacional, mas complexa quanto aos conceitos envolvidos e quanto as mudanças que iria proporcionar. Ele propunha que cada um voltasse ao seu território, mas que levasse essa vontade de mudança e discutisse com seus pares esses ideais,  os benefícios que poderiam ser gerados ao longo do tempo. Ele propunha que as fronteiras entre países não mais existissem, afinal, como já havia exposto, todos são os proprietários do planeta, independente de qual região nasceram, mas isso não os tornava melhores ou piores que ninguém, aliás, segundo seu pensamento, a regionalização seria apenas conceitual, como uma forma de manter o equilíbrio no planeta, pois se todos resolvessem viver no mesmo lugar os recursos naturais seriam prejudicados, como já acontecia, mas o que mudaria drasticamente era o fato de não haver mais uma “nacionalidade”, pois todos, sem exceção, seriam apenas terráqueos, habitantes de um mesmo planeta e ponto final.

– A proposta de Giuseppe era acabar com tudo o que promovesse a separação dos povos e isso envolvia o idioma, o território, os domínios, religiões e qualquer outra coisa que implicasse num movimento natural de separação, pois ele acreditava que para vencer a difícil situação pela qual passavam, só com muita união e comprometimento, do contrário, a raça humana poderia ser definitivamente extinta, tendo em vista que aproximadamente 90% da população mundial já havia desaparecido, portanto, os outros 10%  seriam apenas questão de tempo, meses talvez, e caminhavam para a extinção completa.

– Nonno, que coisa impressionante! Pensar que a raça humana quase foi extinta e de uma forma tão brutal é algo muito cruel.

– Vitor, podemos dizer que isso foi somente o efeito de uma lei da natureza, que é a lei de causa e efeito, a lei do retorno, ou seja, toda ação gera uma reação, isso é física pura, não é superstição, não é esoterismo, é ciência exata, por isso, a humanidade colheu aquilo que ela plantou por milênios, que foi o descaso com tudo, com o planeta, com as pessoas e, principalmente, consigo mesmos, motivo pelo qual o Giuseppe, sabiamente, ressaltou que a principal mudança seria individual, do contrário, era questão de tempo até que tudo se perdesse novamente.

– Que assunto cativante, nonno, quero muito saber a continuação disso, pois vejo que esse foi o primeiro passo apenas, mas que a caminhada foi muito longa.

– Foi sim, Vitor, foi muito longa  e tudo isso aconteceu logo num primeiro momento, num insight, mas muitas outras coisas ainda iriam acontecer, mais algumas polêmicas, dores e perdas ainda seriam necessárias até que as pessoas realmente mudassem.

– Vamos apenas fechar esse encontro e terminamos por hoje, dessa forma, nossos próximos encontros poderiam ser divididos praticamente em capítulos, onde a cada dia trataríamos de um período dessa grande mudança que se iniciou.

– Finalizando o encontro, todos os presentes assumiram o compromisso de voltar aos seus países e que levariam essa ideia, discutiriam, anotariam as ponderações, formariam grupos para estudar e discutiriam os impactos dessa ideia e voltariam a se reunir em seis meses, para continuar o assunto e traçar novos rumos desse caminho.

– Muito bem, nonno, paramos por hoje! Agradeço muito por esse tempo dedicado a esse nosso estudo, sei que isso é importante para todos nós e hoje entendo, melhor do que nunca, a importância de estudarmos tudo isso.

Avô e neto pegaram o trem e retornaram ao seus lares, tendo uma noite tranquila, onde puderam se recuperar física e emocionalmente.

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