A Grande Mudança – Parte 3

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Vitor e seu avô se reuniram novamente ao cair da tarde e, dessa vez, escolheram um parque arborizado, que ficava nas imediações, com muitas árvores e flores, para ser o cenário dessa conversa.

– Vitor, retomando de onde paramos ontem, como já havia dito, o início não foi nada fácil, as pessoas, em todas as partes do mundo, apesar das perdas e da miséria que imperava, ainda mantinham certos rancores e vaidades, que já não se justificavam. Giuseppe encontrou muita resistência entre seus compatriotas, assim como vários outros dos participantes desse encontro, cada um em seu território, pois a ideia de uma sociedade, tal qual era agora proposta, causava estranheza, medo, insegurança e, naturalmente, rejeição.

– Nonno, se eles já não tinham praticamente nada, qual era o medo?

– Vitor, mais que perder os bens materiais, as pessoas são arraigadas as suas crenças e costumes, convicções que cultivam por uma vida toda e que passa de geração para geração, tanto para o lado positivo quanto para o negativo, portanto, abrir mão das convicções e crenças não era algo fácil, pois era o que lhes restava naquele momento e a ideia de deixar isso também para trás era assustadora. Esse temor gerou outros conflitos e as pessoas lutavam e se matavam por convicções já sem sentido, mas ainda as defendiam e isso custou mais um bom tanto de outras vidas através ataques, por parte dos mais extremistas, aos que adotaram a ideia da mudança. Essa situação toda ainda durou mais uns vinte anos, entre confrontos e ajustes, até que a humanidade realmente chegou ao fundo do poço, sem mais qualquer perspectiva, sem mais qualquer ambição. As pessoas morriam não somente pela miséria, que era geral, mas também pela solidão, pela angústia e pela depressão.

– Nonno, mas fiquei curioso com uma coisa: onde estava Giuseppe durante esse tempo? Ele desistiu também?

– Não, Vitor, Giuseppe se manteve firme, mas percebeu que a única coisa que poderia fazer era começar a colocar em prática suas ideias e a mostrar as pessoas, através do seu próprio exemplo, as mudanças que ele propunha, pois tentar convencer pela argumentação era inútil e não estava dando qualquer retorno, portanto, sua tática foi sábia, ele passou a convencer pela personificação daquilo que acreditava. Ele começou um trabalho de formiguinha, a cada dia vivendo aquilo que ele acreditava, ajudando as pessoas, organizando espaços comunitários, plantando campos de flores, frutos e árvores, pois apesar do caos em que o mundo se encontrava ele sabia que o processo de regeneração era o único que restava, embora fosse lento, praticamente imperceptível, mas ele nunca perdeu suas convicções, manteve seu exemplo, sua dedicação e, com isso, começou a conquistar a adesão de outras pessoas, que se juntaram a ele, seja para aliviar a solidão, seja para fazer algo que as mantivesse vivas ou, de fato, por acreditar que esse ideal poderia promover uma grande transformação  no mundo.

– Depois de aproximadamente cinquenta anos, as coisas começaram a mudar um pouco, os alimentos começaram a voltar a fazer parte da rotina das pessoas, as produções comunitárias foram se espalhando ao redor do mundo, a miséria ainda imperava, mas já era possível começar a visualizar uma ponta de esperança e de mudança. Giuseppe estava feliz, continuava suas viagens ao redor dos países, mesmo com todas as dificuldades, mas nunca desistiu de levar sua mensagem de esperança e de exemplo. Costumava ficar um pouco em cada lugar, começava o trabalho e assim que percebia que ele começava a dar frutos ele deixava aquele lugar e ia para outro. Os anos foram passando e a idade estava avançando e Giuseppe já estava com oitenta e sete anos, mas mantinha uma vitalidade impressionante, sua vontade de viver era tanta que seu corpo não se dava conta dos anos que ele já havia acumulado.

– Era uma manhã de primavera e graças a todo o trabalho de plantio de árvores e flores, o clima já começava a dar sinais de recuperação, embora o calor ainda fosse grande, mas depois de muitos anos, Giuseppe sentiu novamente uma leve brisa a lhe tocar a face, além de algumas gotas de chuva que caiam como um carinho do universo em sua face e nesse momento ele começou a fazer uma viagem, olhando para o passado e percorrendo seus últimos anos, desde aquela primeira reunião, ocorrida no Brasil, onde ele teve um momento de profunda comunicação com as forças da natureza, uma presença de espírito muito grande, que o fez ver o mundo de outra forma. Começou a pensar em todas as dificuldades que passou, nas dores que sentiu na pele, na fome, na sede, nas angústias, nas pessoas que perdeu ao longo da sua vida e que não foram poucas, por outro lado, também lembrou das pessoas que conheceu, das novas amizades que fez, das pessoas que ele sabia que havia influenciado, do seu trabalho de formiguinha, mas que já começava, timidamente, a dar resultados. E ele foi se entregando aos seus pensamentos, perdendo a noção do tempo e do espaço, se misturando em pensamento aos acontecimentos e já não sabia mais o que era real e o que eram suas lembranças e, nesse momento, lágrimas de emoção lhe escorreram da face, lágrimas que lhe trouxeram a tona sentimentos nobres e de compaixão pela humanidade, um sentimento de que embora tudo estivesse muito difícil, todo o esforço tinha valido à pena e isso lhe trouxe uma sensação de paz muito grande, de dever cumprido e ele foi se deixando levar por essa sensação gostosa e adormeceu.

– Seu corpo fora encontrado algumas horas depois, sem vida, mas com um sorriso discreto entre os lábios e os olhos, ainda abertos, fitavam a imensidão do céu, como se estivesse buscando ou encontrando alguém muito querido. Seus restos mortais foram sepultados junto ao primeiro jardim que ele cultivou, localizado na região da Toscana, Itália, sem qualquer tipo de lápide, somente com uma pequena e discreta identificação. Depois de alguns meses uma pequena árvore ali nasceu e foi crescendo, crescendo e se tornou, anos mais tarde, uma imensa árvore, que ficou conhecida, no mundo todo, como a árvore da vida e até hoje é visitada por muitas pessoas.

Orlando percebeu, nesse momento, algumas lágrimas de emoção em seu neto, que logo quis saber mais sobre a vida de Giuseppe.

– Nonno, gostaria de saber um pouco mais da vida dele, pois pelo que você já me contou, sei que ele teve um papel fundamental em todo esse processo, mas ele teve uma família também, não teve?

– Sim, teve sim, Vitor. Numa dessas viagens do Giuseppe para o Brasil ele acabou conhecendo uma moça que se chamava Francisca. Ela tinha perdido toda sua família, sendo a única sobrevivente entre todos os seus parentes, era uma moça triste, assim como a maioria das pessoas da época e que resolveu se juntar aos ideais dele, até mesmo, como uma forma de encontrar forças para continuar vivendo. Foram meses e meses de convívio, idas e vindas do Giuseppe, mas num dado momento eles resolveram constituir uma família, pois também sabiam que nenhum esforço seria válido, no sentido de melhorar esse planeta, se a vida não continuasse seu ciclo, com mais pessoas chegando a esse mundo e, diante disso, tiveram cinco filhos, sendo três meninos e duas meninas e se chamavam: Francesco, Enzo, Luigi, Bianca e Giovanna. No início as coisas eram bem complicadas, pois Giuseppe viajava muito e Francisca, com tantos filhos pequenos, não tinha como acompanha-lo e, por um bom tempo, permaneceu no Brasil mesmo, ajudando aos demais companheiros que também haviam abraçado a causa, enquanto Giuseppe continuava sua caminhada entre os quatro cantos do mundo.

– Após aproximadamente vinte e cinco anos vivendo  dessa forma, seus filhos como já nasceram dentro dessa nova mentalidade, foram fieis defensores e trabalharam arduamente pela causa, ajudando a construir campos de alimentos, reerguendo prédios, buscando conhecimento entre livros semidestruídos, que haviam sobrevivido as constantes guerras e destruições. Nunca tiveram uma vida fácil, sempre trabalharam muito, desde pequenos, mas também, por outro lado, sempre tiveram um amor muito grande por parte dos pais, que se empenhavam muito em transmitir valores sólidos e a construir neles um caráter que se sobrepusesse a qualquer dificuldade. Francisca, a essa altura, já estava com sessenta e seis anos, cansada, mas com a consciência em paz, com a certeza de que estava plantando uma sementinha num novo mundo e, com essa idade, resolveu se mudar para a Itália, junto com Giuseppe e toda sua família, pois o ritmo de ambos já estava diminuindo e, por outro lado, eles também já haviam feito vários replicadores dos seus ideais, não que pretendessem parar, mas se dedicariam a outras atividades, como ensinar, por exemplo.

– Assim que chegaram à Itália, Giuseppe os levou para a região da Toscana, onde ele pessoalmente começou sua primeira plantação e jardim, há anos e onde também tinha uma casinha muito humilde, mas que os acomodaria bem e assim viveram por mais alguns anos. Francisca se dedicou a ensinar as crianças, não somente conhecimentos técnicos, mas principalmente, a transmitir valores morais, éticos, cuidando de cada um como se estivesse cuidando dos seus próprios filhos e, nesse ideal, ainda trabalhou por mais onze anos, incansável, quando numa noite, após tomar o tradicional caldo de legumes, ela sentou-se num banquinho, ao lado de fora da casa, deu um suspiro fundo e simplesmente apagou, sem qualquer reação, sem qualquer palavra, sem qualquer sentimento, simplesmente apagou, tal qual uma vela que termina de queimar. Giuseppe e seus filhos sofreram muito, é claro, pois eram muito ligados, mas sabiam que o momento da Francisca havia chegado e que ela agora deixava seu legado, seus exemplos, aos que aqui ficaram. Seu corpo também foi sepultado no jardim da casa e um pé de rosas vermelhas foi plantado sob sua sepultura.

– Giuseppe, apesar da dor da perda, continuou seu trabalho, assim como seus filhos, sempre mantendo, acima de tudo, os ideais e reais desejos de construir um mundo melhor, com simplicidade, respeitando a natureza e seu ciclo, aprendendo a escutar os ensinamentos que eram passados, todos os dias, com a observação do universo, seu ciclo e toda sua perfeição.

– Nonno, acho que entendi o sorriso nos lábios do Giuseppe e também seu olhar para o céu, no momento da sua morte, penso que além da consciência do dever cumprido, da semente plantada, ele também deve ter visto sua amada Francisca, que lá deveria estar para recebê-lo e, juntos novamente, recomeçarem uma nova jornada.

– Acredito nisso também, meu neto. Ambos foram sepultados próximos um ao outro e tanto o que sobrou do corpo físico quanto a alma, permaneceram juntos, cada um na sua dimensão.

– Nonno, não posso deixar de perceber que o mundo, apesar de ainda difícil, mas já apresentava sinais de melhoras nessa época e isso, em menos de um século após tudo acontecer. Confesso que estou surpreso, pois achei que o processo seria muito mais lento, mas vejo que as coisas até que caminharam bem.

– Sim, Vitor, de fato, esse início aconteceu de forma rápida, mas entre esse início de mudança e o que temos hoje, foram muitos séculos de mudanças, aprendizados, tropeços e  acertos  até chegarmos ao ponto que chegamos hoje.

– O trabalho teve sequência tanto com os filhos do Giuseppe e da Francisca, mas também com tantos outros, em vários cantos do mundo. O fato interessante e que marca o início desse novo modo de organizar as coisas é que, embora distante, com todas as dificuldades possíveis, os grupos constantemente se reuniam, discutiam problemas, propunham soluções comuns e os ideais de igualdade eram sempre mantidos. Tudo era comunitário, nenhum bem pertencia a uma ou outra pessoa, mas todos tinham responsabilidades, todos tinham que produzir seus alimentos ou qualquer outro bem, mas o fato é que não havia exploração, comércio, troca ou qualquer outro tipo de coisa que lembrasse a antiga civilização, onde tudo era movido pelo dinheiro, pois esse foi totalmente abolido do mundo.

– Nonno, mas como foi esse período de adaptação a essa nova cultura? Todo mundo aceitava e fazia as coisas naturalmente ou também houveram velhos vícios que tentavam manipular as situações?

– Houveram sim e não foram poucas as tentativas de perverter os novos costumes, principalmente porque ainda havia, nessa época, pessoas que haviam sobrevivido a época das trevas, portanto, ainda com muitos vícios arraigados. A mudança foi se tornando natural a medida que as gerações foram passando, os novos que chegavam a esse planeta já nasciam dentro desse novo conceito, por isso, era-lhes algo natural, fato que não acontecia com nossos ancestrais. Para controlar essas tentativas de manipulações, medidas enérgicas foram tomadas, como por exemplo, o completo isolamento da pessoa que tentava estragar tudo novamente. Ninguém falava com ela, ninguém lhe cedia nada e ela era colocada às margens dos demais até que percebesse o que havia feito e se modificasse. Nessa época, Vitor, a humanidade reviveu um período muito sombrio da história, mas que foi necessário, pois caso nada funcionasse e a pessoa não demonstrasse nenhuma vontade em mudar ou aceitar, normalmente ela era eliminada por alguns grupos mais radicais, embora isso nunca tenha sido uma orientação ou norma, mas era o que habitualmente acontecia.

– Nonno, mas isso também não era um perigo? Normalmente ideias e ações muito radicais só geram violência.

– Entendo perfeitamente sua posição, era preocupante sim, mas naquele momento, também não haviam outras formas, pois como já discutimos muito, a humanidade vivia um período de guerras, de profundas mudanças, de atitudes extremas e, claro, eles não tinham certeza se isso seria positivo e se funcionaria, mas por outro lado, tinham certeza absoluta do que não funcionava mais. Mas, para deixa-lo mais tranquilo, aos poucos esse tipo de postura não foi mais necessária, não porque foram abafados ou porque passaram a aceitar isso de forma imposta, mas sim, porque o entendimento de que realmente seria algo bom foi tomando conta de todos e, em duas ou três gerações, esse processo passou a ser natural e foi se aprimorando cada vez mais, pois é claro, muitas melhorias e ajustes foram sendo feitos na ideia original, o que nunca mudava era o sentimento de mudança e de igualdade, sem qualquer tipo de distinção, fosse qual fosse.

– Vitor, creio que está na hora de pararmos por hoje também, pois já vimos muitas coisas, muitos sentimentos já vieram a flor da pele, portanto uma pausa para o repouso se faz mais que necessária. Continuamos amanhã, por hoje, saia com seus amigos, divirta-se, descanse e amanhã nos reencontramos.

Leia aqui sobre O Início da Nova Era

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