A Nova Política

Como não poderia deixar de ser, também esse encontro foi realizado na Grécia Antiga, pois também nesse aspecto, ela foi o berço da história política e muitos pensadores e filósofos gregos e romanos abordaram esse tema de uma forma muito própria, com tamanha clareza e lucidez que, por muitos milênios, não foram compreendidas.

– Vitor, essa nossa conversa deve ser bastante extensa, vamos falar na nova ordem que se instaurou, a ruptura definitiva com velhos conceitos e a criação de um novo modelo de gestão pública, que incluía a remodelagem completa do sistema econômico e a ruptura do poder centralizador do Estado, pois, na nova visão, essa seria a única forma de manter o sistema em funcionamento e em equilíbrio.

– Nonno, faz tempo que aguardo por esse momento, desde as nossas conversas iniciais sobre a política, sempre tive essa curiosidade de entender melhor como essa grande mudança se processou.

– Começaremos pela completa ruptura aos velhos padrões que, como já falamos anteriormente, chegaram a níveis insustentáveis de corrupção e poder, mas não vamos voltar a falar tudo novamente, apenas salientando que por um tempo, mesmo após os fatores críticos que aconteceram, alguns resquícios dessa escola política corrupta ainda permaneceram, mas foram duramente combatidos, como também já falamos, portanto, apenas vamos deixar registrado que esse novo modelo só foi possível quando toda a história passada foi rompida e novos  conceitos incorporados, além do conhecimento, em essência, sobre a política, que já era sabido desde a antiga Grécia, no entanto, mais uma vez, deturpado e esquecido pelos homens.

– A população mundial havia sido reduzida a algumas centenas de pessoas aqui e acolá, portanto, esse era o momento fundamental para promover mudanças radicais e estruturais, incutindo o novo modelo na forma de construir a nova sociedade, pois ela precisava já ser construída de uma forma diferente, senão, todos os velhos e conhecidos problemas voltariam a acontecer. Era o momento de pensar a nova sociedade, como ela seria, como seria organizada, quais seriam seus valores principais e como seria regida, enfim, era o momento do planejamento, que tinha que ser muito bem feito, que não poderia repetir os mesmos erros de outrora, que deveria retomar velhos conceitos esquecidos e propor, com base neles, novos modelos de gestão e política pública. Uma das primeiras conclusões a que eles chegaram, nesse momento de tantas dúvidas, era que os velhos padrões de regime político não atenderiam ou seriam incapazes de manter a ordem por muito tempo, pois centralizavam nas mãos do Estado todo o poder, ainda que disfarçado sobre o manto democrático, mas era sabido que o Estado detinha o poder e oprimia o povo, de todas as formas, em todos os sentidos, portanto, manter esse tipo de regime seria uma forma certa de fracassar novamente. O poder e as decisões não pertenciam ao Estado, mas sim a todo cidadão, que era corresponsável por todas as escolhas e ações, sem a menor necessidade da intervenção de um Estado burocrático, amarrado, corrupto e centralizador, que ao contrário de toda a ideologia, somente visava poder e recursos financeiros, normalmente para fins nada louváveis.

– Nonno, é impressão a minha ou o regime proposto era a Anarquia? Já li sobre isso e é exatamente o que o senhor está descrevendo, mas também já li que ela nunca foi exercida na prática, pois também continha falhas e não funcionou.

– Não é impressão, Vitor, é isso mesmo. Diante das revoluções que ocorreram, diante do processo de autodescobrimento e autoconhecimento pelo qual a humanidade passou e diante do novo processo educacional, o regime que mais se adaptaria a tudo isso e que seria mais benéfico e com resultados duradouros, mas ao mesmo tempo com uma forma bastante flexível, capaz de se adaptar às mudanças já ocorridas e a tantas outras que ainda viriam, era, sem dúvida, o anarquismo. A anarquia foi vista, por muito tempo, como algo totalmente equivocado, como o regime da bagunça e da desordem, mas ao contrário, não era nada disso, era o regime que se livrava do peso de um Estado centralizador e opressor, mas nem por isso, tudo era permitido e o caos imperava. A Anarquia era um pensamento muito antigo e suas raízes estão lá no longínquo Iluminismo, sobretudo nas ideias de Jean Jacques Rousseau. O primeiro anarquista declarado da história foi o filósofo Pierre Joseph Proudhon, no século XIX. Infelizmente, por muitos motivos, o anarquismo sempre foi mal compreendido, abafado e marginalizado, mas seus ideais são nobres e, hoje sabemos, é a única forma de garantir que o povo não seja novamente manipulado.

– As poucas tentativas de implantar o anarquismo não haviam funcionado por uma razão muito simples, as pessoas não haviam sido preparadas para isso, não haviam sido educadas para viver num mundo sem o comando centralizador. De certa forma, podemos dizer que o poder do Estado era um mal necessário, pois mesmo dentro do caos ainda conseguia manter um mínimo de ordem. Implantar um sistema como a Anarquia não é fácil, pois requer muitas mudanças posturais, mudanças de base, que nunca seriam conseguidas somente com meras discussões de ideias.  Era um longo caminho a ser trilhado e os primeiros passos já haviam sido tomados: o autoconhecimento e a educação. Um sistema educacional realmente libertador e esclarecedor era o ponto inicial para se estabelecer um sistema descentralizado de governo, de ordem pública, pois cada um, por si só, saberia e assumiria suas responsabilidades, não tomaria medidas que prejudicassem seu semelhante, nem tão pouco a coletividade, mas isso era um processo individual, resultado de um ciclo educacional muito eficiente e inovador, que despertasse em cada um o seu lado mais humano e libertador. Uma completa mudança na forma de se ver e de ver o mundo, isso era o essencial para que a humanidade pudesse caminhar por conta própria, sem precisar mais de qualquer controle, opressão ou fronteira.

– Ainda pelo Anarquismo, também não existe mais o conceito de propriedade privada, sendo que todos os bens devem pertencer a todos, sem donos, sem detentores de recursos, pois tudo é compartilhado. Essa ideia foi muito distorcida e erroneamente utilizada pelos comunistas, aos quais, via de regra, interessava apenas uma parte desse ideal, a parte onde o povo não tem nada, mas o Governo tem tudo e centraliza todos os recursos e limita, de forma até mesmo desumana, os bens de cada pessoa. O ideal da anarquia é o oposto disso, não há limitação e realmente não há centralização da riqueza, todos tem tudo o que precisam, mas ao mesmo tempo, ninguém detém nada. Ressaltando mais uma vez, no anarquismo os bens não são do Estado e são compartilhados com o povo, os bens, que vamos chama-los a partir de agora de recursos, são de todos, são benefícios de toda a população, livres de toda e qualquer distinção, mas também sem privilégios, pois para ter o direito de usufrui-los, todos devem ter suas obrigações e cumpri-las, à risca, garantindo o bem estar próprio e de todos a sua volta.

– Com esse raciocínio, o bem capital, fonte de todos os desmandos e guerras, fonte de todas as maldades e ganâncias, fonte de toda a destruição, que era o desejo de deter grandes somas de dinheiro, deixa de existir, simplesmente porque o próprio dinheiro não tem mais razão nenhuma para existir. Como não havia mais a propriedade privada, não havia necessidade de algo que servisse para comprar, para garantir poder, pois a moeda de troca agora era outra, não podia mais ser acumulada, emprestada, comprada ou roubada, ela era de propriedade apenas de cada ser humano, em caráter irrevogável, intransferível e impalpável. Todas as pessoas, em todos os lugares, teriam assegurados princípios básicos, que garantiriam o seu sustento e o seu conforto, sem exageros, mas sem limitações. Todo conhecimento adquirido teria que ser empregado no bem estar da população, de forma totalmente aberta, todos os recursos e tecnologias desenvolvidas deveriam atender aos interesses da grande massa, sem qualquer tipo de restrição ou benefícios a quem o criou, em resumo, tudo o que existisse e tudo o que viesse a existir seria um bem da humanidade.

– Para poder garantir a ordem, embora não houvesse um poder centralizador, foram organizados grupos menores, que tinham por missão garantir que esses princípios seriam replicados em todo o planeta. Observe que esse grupo não tinha o papel de cobrar ou impor nada, ele apenas daria suporte para que as ações acontecessem de forma natural. Principalmente no início desse processo houve muito trabalho, mas muito mesmo, pois a humanidade havia praticamente sido extinta, portanto, tudo precisava ser reconstruído, casas, escolas, centros médicos, centros de estudos e pesquisas e muitas outras coisas. A coletividade era o foco de todos, portanto, todos participavam da construção de tudo, cada um ajudando como podia ajudar, mas todos contribuíram para a reestruturação do planeta. Uma vez reestabelecida a ordem mínima, as demais necessidades foram sendo construídas aos poucos.

– O que foi muito marcante nessa época, Vitor, era a forma como as pessoas começaram a se olhar e a se perceber, de uma forma como nunca antes haviam feito, pois todos estavam ensimesmados, enjaulados em seus mundos e, sequer, conseguiam enxergar o seu próximo, quanto menos ajuda-lo. A ajuda, quando era feita, normalmente era feita através de doações de dinheiro, mas o dinheiro não existia mais, sendo assim, a única ajuda possível era a doação de algo totalmente seu: o amor, a dedicação e o trabalho, todos valores impalpáveis e de um grande gesto de nobreza espiritual.

– Nonno, atualmente isso tudo é tão natural que não me causa qualquer espanto, mas imagino que na época realmente foi uma grande mudança e que se habituar a ela não foi fácil. O mundo girava em torno do dinheiro, tudo era feito através do dinheiro e o objetivo de todo mundo era ter dinheiro para fazer um monte de coisas, agora, diante dessa realidade onde o dinheiro não existe mais, creio que foi uma mudança e tanto!

– A completa ruptura com o sistema antigo era um item indispensável ao sucesso dessa nova fase, pois se qualquer coisa permanecesse a grande tendência é que o homem voltasse para a zona de conforto, aquilo que ele já conhecia, inclusive repetindo os mesmos erros. Embora tentassem se convencer desse fato, ainda havia muito descréditos e incertezas, as pessoas achavam que esse novo modelo poderia falhar e tudo voltaria a ser como antes, o que também trazia uma grande angústia. Essa preocupação não deixava de ter fundamento e, realmente, tudo poderia voltar, não fosse a mudança na Educação e no autoconhecimento. As pessoas haviam mudado e isso era o ponto chave para o sucesso e, qualquer outra tentativa, em qualquer outro tempo anterior, teria fracassado mesmo, mas naquele momento não, era o momento exato de modificar tudo, de remodelar todas as formas, de construir um futuro melhor e mais digno.

– Esse regime, implantado naquela ocasião e que persiste até hoje, só não falhou porque a ganância humana não tinha mais motivos para existir, não encontrava mais solo fértil para prosperar, o orgulho, a vaidade, o poder, idem, sendo assim, não havia mais competição por quem tinha a casa melhor, o carro melhor, a roupa melhor, ao passo que outros, na extrema miséria, viviam esquecidos e invisíveis sobre os olhares atentos da multidão, que os ignorava, eram como seres inexistentes. Como um mundo assim poderia dar certo? Como você pode ser “feliz” se o seu semelhante está passando fome, morrendo por falta de cuidados básicos. Era costume dizer que a plena felicidade não era daquele mundo e nisso eles estavam certos, não porque estavam fadados, por uma imposição qualquer a não ter a felicidade, mas porque realmente é impossível ser plenamente feliz nessas condições, vendo crianças sendo jogadas em latas de lixo, idosos morrendo por falta de cuidados e chefes de família, desesperados, sem ter recursos para prover a fome e os cuidados básicos das suas famílias! Realmente, a felicidade não pertencia a esse mundo.

– De uma forma bastante lenta a humanidade foi caminhando, mas dessa vez por um caminho melhor, sem buracos, sem tropeços, um caminho longo, cansativo, mas que conduziria a um lugar mais feliz, onde a paz e a harmonia existissem, onde o sentimento de fraternidade fosse verdadeiro, onde as pessoas se olhassem não mais como inimigas ou concorrentes, onde não existisse mais a superioridade ou a inferioridade, onde religiões não mais separariam as pessoas e promoveriam guerras, onde o preconceito não teria mais espaço, onde somente os sentimentos mais nobres prevaleceriam, um mundo onde as pessoas não mais se matariam por dinheiro, mas que desfrutariam de todos os benefícios desse mundo, prestando atenção a coisas que elas não viram nunca antes, um mundo onde o simples era belo e as necessidades foram minimizadas, pois o homem descobriu que para viver bem ele não precisa muito mais do que um abrigo, um bom alimento e muito amor, um mundo onde o ser era valorizado, não o ser isso ou aquilo, mas o ser em essência, o ser humano em toda sua plenitude e vitalidade, um mundo onde todos trabalhariam somente para seu próprio sustento e não para acumular riquezas ou para acumular riqueza para alguém, pois tudo além da moradia e do alimento, era também um bem geral, poderia ser desfrutado, com responsabilidade, por qualquer pessoa, um mundo onde qualquer tipo de drogas não mais existiam, pois as pessoas não precisavam mais entorpecer seus sentimentos, ao contrário, queriam que eles ficassem cada vez mais despertos e ativos.

– Nonno, estava pensando aqui que basicamente duas coisas foram as causas de todas as desgraças da antiga humanidade: dinheiro e poder. Tudo o que existia de errado, todas as guerras, todos os horrores experimentados pelos homens, se analisados a fundo, chegariam sempre a esses dois itens.

– Foi isso mesmo, Vitor, motivo pelo qual, nessa nova sociedade, eles foram extintos por completo. Se qualquer um deles permanecesse, tudo tomaria o mesmo caminho, os mesmos erros seriam cometidos, pois os velhos padrões de sentimentos e comportamentos seriam novamente despertados. O dinheiro e o poder formam uma combinação que, na maioria das vezes, é completamente desastrosa, pois despertam a ambição e a vaidade e as consequências disso já sabemos quais são. Caso o dinheiro e o poder fossem mantidos, jamais seria possível imaginar um mundo sem fronteiras, sem limitações e sem desigualdades, pois cada povo, novamente, começaria a lutar pelas suas terras, por suas propriedades, pela sua forma de administrar o dinheiro e o poder e, com isso, tudo retornaria ao mesmo ponto desastroso, sendo somente uma questão de tempo. Sem esses dois fatores, não havia mais sentido que nada disso acontecesse e já temos alguns bons séculos que provam isso.

– Aquilo que era impensável, aos poucos foi se tornando comum, as pessoas foram se acostumando com a ausência do poder absolutista, mas nem por isso deixaram de ter responsabilidades, ao contrário, era exatamente a soma das responsabilidades e comprometimentos individuais que tornavam o poder centralizador totalmente desnecessário. Não fazia mais sentido ter uma figura ou uma entidade ditando regras, seja qual fosse, pois cada pessoa já sabia o que tinha que ser feito e o fazia, não por obrigação, mas por consciência do bem que fazia a ela mesma e também aos demais a sua volta. O poder não pertencia mais a uma pessoa ou a uma entidade, o poder agora era um bem individual, que era exercido, que não mais oprimia, era a força aplicada em todo processo de mudança e reorganização da sociedade.

– Uma fala muito comum na época era a de que as regras existiam para ser quebradas, fato que já demonstra a ineficiência de um sistema baseado somente num conjunto de normas, pois é isso mesmo, as pessoas só respeitam algo quando veem sentido nisso, quando há uma autoridade moral atrás do discurso, do contrário, será um grande esforço inútil, capítulos e mais capítulos de uma Constituição que não servirá para nada, além de belos discursos. O exemplo moral é a maior regra que pode existir, regra, aliás, que não pode ser quebrada, que não pode ser violada, pois aquilo que se vive através do exemplo tem o poder de modificar a alma, toca o semelhante naquilo que ele tem de mais puro, mas aquilo que apenas sai da boca para fora, sem lastro moral, nada resulta, nada muda, pelo contrário, só estimula a aversão e a falta de comprometimento.

– Esse processo demorou séculos para se concretizar e para chegar a realidade que hoje vivemos, mas se concretizou e se solidificou a cada ano, os valores morais e éticos passaram a nortear qualquer discussão e ação a ser tomada e isso fez com que esse sistema se mantivesse eficiente por tanto tempo. Certamente, como um processo normal da evolução e da espécie, acredito que chegará um tempo em que algo melhor ainda seja desenvolvido e, talvez, daqui a uns dois ou três mil anos, um outro avô e outro neto estejam tratando dessa nossa realidade assim como hoje, tratamos a realidade dos nossos antepassados.

– Também acredito nisso, nonno, é o principio universal da evolução, portanto, negar esse fato equivaleria a negar tudo o que já vivemos e estudamos.

– Vitor, também acredito que com isso encerramos mais esse encontro. Em outros momentos voltaremos a falar sobre esse assunto, talvez complementando coisas que tenham escapado nessa conversa, mas o essencial foi dito. Em nosso próximo encontro falaremos sobre as novas tecnologias e a forma como elas chegaram ao nosso mundo. É um assunto curioso!

Seguindo a rotina, eles se abraçaram com muito carinho e se despediram.

 

 Leia aqui sobre As Novas Tecnologias

clube_autores_compre

Se você gostou da história e quiser contribuir com o autor, faça sua doação pelo botão do PagSeguro, logo abaixo.

Toda doação é bem vinda e agradeço de coração!