O Autoconhecimento

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Dessa vez, já que o assunto era o autoconhecimento, Vitor e Orlando resolveram fazer um encontro nas ruínas da Grécia, um solo que carrega, em si, muita história, muita energia, pois outrora já havia sido o palco de muitas discussões filosóficas e berço de muitos pensadores da humanidade. É um fato que toda a devastação do planeta não poupou quase nada e com a Grécia não foi diferente, no entanto, a energia do local ainda permanecia, além do que, os recursos tecnológicos existentes ajudariam a recriar a atmosfera antiga, proporcionando uma bela viagem ao longo de séculos e séculos pela busca do “Conhece-te a ti mesmo”.

O local escolhido foi o Tempo de Hefesto, localizado bem no centro de Atenas, pois esse templo, por razões desconhecidas, foi um dos poucos que sobreviveram a todo tipo de intempérie e ainda estava em pé. Sua estrutura foi conservada pela civilização atual, mas salas de estudo e com modernos equipamentos foram montados em seu interior, proporcionando aos visitantes recursos para desfrutarem de todo o conhecimento e experiência visual e sensorial sobre esse lugar, além de outros templos, infelizmente, já destruídos.

Através da holografia, Orlando e Vitor puderam experimentar a sensação de passear entre os principais filósofos e pensadores da antiguidade, assistir a reuniões da época e até ouvir, dos próprios personagens da história, muitos dos seus discursos e estudos. Esse é o lado extremamente positivo da tecnologia.

– Vitor, nesse cenário especial e com bastante tempo, vamos hoje discorrer sobre o autoconhecimento, esse caminho longo e difícil que percorremos desde os primórdios da humanidade e que se estenderá por toda a eternidade, a eterna busca pelo autoconhecimento e pelo saber, que já fascinava desde o início da história da humanidade.

– Nonno, confesso que esse era um dos temas que não via a hora de poder discutir, pois é um assunto que muito me interessa, que muito me fascina e algo que busco incessantemente. Acredito que o autoconhecimento seja a chave e a resposta para todas as perguntas e anseios da humanidade, pois tudo está em nós e essa ideia é fascinante.

– A busca pelo EU sempre foi um assunto que preocupou os grandes pensadores, sempre foi o alvo de muitos estudos e, sem dúvida alguma, o não entendimento do que somos sempre foi a causa de todos os males da humanidade. Vitor, você já prestou atenção que na antiguidade as pessoas davam muito mais importância a esse assunto do que as pessoas do século XX? O movimento, nessa época, foi contrário, com o homem cada vez mais se afastando de si mesmo, com medo de se encarar e de se conhecer e o resultado disso foi um completo desastre. Os séculos XX e XXI foram marcados por muitas doenças de ordem psicológicas, depressões, angústias, dentre tantas outras neuroses e psicopatologias, que sempre giravam em torno desse ponto que era o não conhecer-se ou a negação daquilo que eram.

– Muitos tratados sobre esse assunto foram escritos, os filósofos da antiguidade já sabiam que o progresso da humanidade estava no autoconhecimento, no constante desenvolvimento das suas capacidades psíquicas e intelectuais, no mergulho ao seu próprio interior e na busca pelas mudanças, mas isso se perdeu, em algum ponto da história e o homem deixou esse caminho e passou ao caminho do medo, da insegurança e da incerteza. As fobias, essas eram outras verdadeiras pragas do século XX e XXI e muitos medicamentos foram desenvolvidos para tentar combater esse mal, via de regra sem sucesso, pois a fobia consiste exatamente no medo e, como bem sabemos, temos medo daquilo que não conhecemos, daquilo que não está em nosso campo de compreensão.

– Autoconhecimento é iluminação, é despertar, mas acordar dá muito trabalho, pois você, livre de todos os preconceitos, livre de toda hipocrisia, livre de todos os tabus e crenças, deve começar a olhar para si mesmo, buscar seus pontos falhos, ter coragem de admitir suas imperfeições, não tentar mascarar desvios de personalidade com todo tipo de justificativa, via de regra, sempre culpando os outros. Através do autoconhecimento desnudamos nossa alma, abrimos as portas do universo que está em nós, mas essa porta, para ser aberta, precisa de sentimentos muito nobres e puros, que podemos comparar a chave que fará com que a porta se abra. Não existem métodos paliativos, não existem métodos para forjar a abertura, essa porta somente se abre por dentro e só pode ser aberta por nós mesmos, pois nem mesmo a pessoa que mais nos ama nesse mundo poderá fazê-lo. Ela poderá sim, nos auxiliar, nos ajudar, mas a chave é nossa e só nós vamos escolher o tempo em que isso vai ocorrer. Muitos guardam essa chave num cofre e lá ela permanece por anos e anos, às vezes existências inteiras, mas um dia, ao fazer uma faxina interna, todas as gavetas e cofres serão abertos e lá estará a chave, intacta e pronta para ser usada.

– O autoconhecimento leva a mudança natural, espontânea, não aquela mudança imposta pelo medo, por crenças religiosas que apenas oprimem os sentimentos, ao contrário, a pessoa toma consciência de que precisa mudar, sem que ninguém lhe cobre, sem que ninguém lhe imponha nada, ela, por si só, se descobre e sabe quais novos caminhos deve seguir. Para mudar é preciso ter coragem, pois um ponto básico da mudança é admitir que algo deve ser modificado, portanto, algo estava errado e admitir os próprios erros não é uma tarefa fácil.

– O conhecimento mais amplo de si mesmo permite ter uma visão mais abrangente da vida, pois passamos a entender melhor os outros e a não os cobrar por seus erros, pois aprendemos que temos erros suficientes para passar uma vida inteira consertando, sem a menor necessidade de cuidar da vida dos outros, aliás, como já é um velho dito popular, só reconhecemos e criticamos nos outros aquilo que também temos em nós. O que nos aborrece não é a falha do outro, mas o olhar que o outro desperta em nós e que nos mostra que também erramos no mesmo ponto, no entanto, claro, isso ocorre de uma forma não consciente e logo tratamos de denegrir, rotular, ofender, quando na verdade, estamos acusando o nosso semelhante daquilo que nós mesmos somos. Só essa ideia já traria muita revolta e contestações por parte de muitos, pois jamais admitiriam esse fato, mas a busca pelo autoconhecimento nos mostra isso tão claramente quanto a luz do sol.

– Jesus, que foi uma das pessoas mais iluminadas que já passou pelo planeta Terra, sempre fundamentou todos os seus ensinamentos voltados para essa máxima. Já dizia ele “veja quem tem olhos de ver e ouça quem tem ouvidos de ouvir”. Numa análise superficial, pode até parecer uma frase meio sem sentido, mas está longe disso. Seu objetivo era claro e, mais uma vez, nos chamava a reflexão sobre o que somos, portanto, o que vemos e ouvimos, pois é natural, cada um de nós somente consegue ver até onde nossa limitação permite e só ouvimos aquilo que queremos ouvir. Essa máxima, aplicada num período em que a humanidade ainda era bastante atrasada, moralmente e intelectualmente falando, trazia uma profunda reflexão sobre a necessidade de crescer, de evoluir e, com isso, passar a ver de uma forma mais abrangente e a ouvir não somente aquilo que queremos ouvir, mas sim, ouvir a voz da nossa consciência, ouvir a voz do universo que está o tempo todo nos transmitindo novos e profundos conhecimentos. A maior prova do atraso da humanidade foi o que aconteceu com o próprio Jesus e tantos outros filósofos, pensadores e líderes da época, ou seja, todos não foram compreendidos, acabaram esquecidos, mortos, mas o legado deles estava transmitido e se perpetuaram ao longo dos milênios.

– Nonno, dentro do turbilhão de sentimentos, emoções e sofrimentos que as pessoas passaram, como elas foram levadas a essa reflexão?

– Vitor, os caminhos foram diversos, alguns buscaram essa reflexão para poder entender o momento de muita dor pelo qual passavam, outros, para encontrar formas de sobreviver a tudo isso e, outros ainda, para tentar achar um novo caminho, mas o que importa é que em todos eles a busca pelas mudanças era o objetivo central. Eles sabiam que precisavam mudar e, como já falamos, quando você já não tem mais o que perder, fica mais fácil olhar para si mesmo, pois tudo o que é externo se foi e só restou aquilo que cada um era. Seguindo esse caminho de lógica, ao perderem tudo acabaram encontrando o caminho do encontro consigo mesmos, pois era natural que em momentos de dor o homem paresse para pensar, buscasse explicações, porém, o maior problema era que esse sentimento de busca e reflexão também era interrompido assim que o problema que o levou a esse estado passasse,  e com isso, ele retornava aos seus velhos hábitos e costumes errôneos, voltando aos velhos padrões mentais e comportamentais, sem estabelecer qualquer mudança verdadeira.

– Na antiguidade, como falei há pouco, a preocupação com o autoconhecimento era maior do que a que havia nos séculos XX e XXI e isso deve-se ao fato de que na antiguidade as pessoas não tinham tantas coisas, não acumulavam tantos bens, os padrões de vida eram totalmente diferentes, os recursos eram menores. Claro que desde essa época existiam posses, ricos e pobres, mas a questão em pauta era outra, havia menos formas de se ocupar com o externo. O estudo, a leitura, as atividades intelectuais eram presentes e o homem dava mais valor a elas, buscava responder aos questionamentos e anseios da alma, mas o grande erro foi na forma como esse conhecimento foi evoluindo, pois o homem passou a entender que a evolução intelectual e material era-lhes permitida somente para acumular recursos e não como uma forma de melhorar a humanidade em geral. Faltou esse sentimento de compaixão mais amplo, faltou essa visão mais abrangente das reais necessidades de todos e não somente da de cada um, em resumo, o homem começou a perder a direção do seu futuro quando passou a cultivar o egoísmo, o seu bem estar em detrimento do bem estar da totalidade, esse talvez tenha sido o principal fator que desencadeou todos os demais, como as guerras, as perseguições religiosas, as corrupções sem fim e toda forma de se auto beneficiar, sem o mínimo de preocupação com o outro, que era seu semelhante.

– O homem foi se perdendo em seus sentimentos de tal forma que passou a não se encontrar mais consigo mesmo, fato antagônico, pois ao mesmo tempo em que se preocupava somente com ele mesmo, deixou de se olhar, de se analisar e de entender suas reais necessidades. Por fuga ou por necessidade de suprir carências e sentimentos que ele não dominava, exatamente pela falta de autoconhecimento, passou a buscar em coisas externas a sua felicidade, depositou nos bens materiais os motivos das suas alegrias e das suas realizações, tanto pessoais quanto profissionais. Essa busca por algo que estava além do seu alcance só os fez ficarem cada vez mais distantes de si mesmos, pois para conquistar mais e acumular bens materiais, trabalhavam cada vez mais, deixaram suas famílias de lado e corriam atrás de um sonho inalcançável. Nascia nesse ponto a sociedade do consumismo, aquela que achou que quanto maior a soma de bens materiais, maior seria sua felicidade.

– Naturalmente que isso não deu certo, nonno, pois o resultado já sabemos.

– Ao fugirem das suas próprias vidas,  os homens criaram abismos colossais, se fecharam em cascas que eram traduzidas em forma de egoísmos extremos, violências gratuitas, rancores e todo tipo de sentimentos negativos, que tomavam conta de boa parte das pessoas. Como consequência natural a degradação da espécie humana só foi aumentando, o respeito era algo que praticamente já não mais existia, fato natural, pois se a pessoa sequer se dava ao respeito, como é que poderia respeitar alguém?

– Como bem sabemos e já falamos, o processo evolutivo se dá independente da vontade humana, portanto, ainda que as pessoas não estivessem prontas, a evolução ia dando seus ares nas diversas áreas do saber, como por exemplo, tecnologia e saúde, além de muitas outras. Formas de comunicação foram se aprimorando e a Internet foi um fator muito importante nesse aspecto, evoluiu muito rapidamente e em cerca de duas ou três décadas se tornou muito popular. O interessante em tudo isso é que quanto mais as formas de comunicação avançavam, menos as pessoas se falavam, o contato humano foi ficando cada vez mais distante, o interesse pelo outro foi sendo substituído pela necessidade constante de auto exposição e auto promoção, sentimentos passaram cada vez mais a ser mascarados, pois é fácil escrever dizendo que está bem ou feliz uma vez que ninguém o vê. Todos esses fatores, somados, só foram levando o ser humano a um estado de constante negação do que eles realmente eram, do que sentiam, dos seus medos e angústias e dos seus desejos.

– Nonno, o fato de não ver a si mesmo é muito mais nocivo do que o fato de não ver o outro, pois não ver o outro é tão somente o reflexo de não se ver. Creio que isso explique a frieza com que as pessoas se tratavam, a falta de amor, de respeito, de humanidade! O maior problema era a falta de um olhar mais humano a si mesmo, do perdão e da compreensão consigo mesmo. Quando não me enxergo, não me vejo, não vejo mais nada, motivo pelo qual a violência e a vida humana passou a ser tão banalizada, pois a própria vida já não tinha mais sentido algum.

– Perfeito, Vitor, é isso mesmo. Todos esses fatores trouxeram uma cegueira muito grande para a raça humana e isso foi um processo que durou milênios, tanto é que, novamente voltando a fala a Jesus, ele também já havia dito que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Com essa fala ele também, mais uma vez, se voltava ao EU interior, ao se ver, pois não querer se ver é a pior cegueira que existe. Ao dizer isso, milênios antes de onde tudo realmente se perdeu, ele já sabia o caminho que a humanidade iria tomar e fez sua parte. Não podemos dizer que ele ou qualquer outro que o tenha tentado falhou em seus objetivos, pois como falamos há pouco, as chaves que abrem as portas do nosso ser maior só pertencem a nós mesmos.

– Voltando novamente aos trágicos fatos que marcaram o fim da era das trevas e o início da era da luz, vamos agora falar um pouco sobre as reflexões e análises feitos pelas pessoas que buscavam a luz e o conhecimento. Esse momento de refletir começou a acontecer logo após as tentativas frustradas de reconstrução dos velhos padrões, pois para eles, inicialmente, a única tarefa que teriam era a de recomeçar e reconstruir o que já existia, mas não eram esses os planos da evolução universal, pois se a reconstrução acontecesse, os mesmos erros voltariam e, em mais alguns séculos a história estaria novamente se repetindo, portanto, para realmente evoluírem, eram necessárias mudanças estruturais de comportamento, que acabariam se refletindo nos demais campos.

– Ao analisarem que as mesmas ações já conhecidas não estavam levando aos resultados esperados, eles foram obrigados a começar a rever a forma de pensar e de agir, começaram a pensar na forma como estavam fazendo e não somente mais em fazer, apenas replicando conhecimentos passados. Ao fazer isso, sem se dar conta, inauguravam um novo período da história, que era o período do auto esclarecimento, do autoconhecimento.

– Uma das primeiras coisas que começou a despertar a atenção era exatamente a tentativa de explicar tudo o que havia acontecido de ruim, os motivos, os porquês, preocupações muito pertinentes para não incorrer nos mesmos erros. Com as reflexões eles começaram a chegar a algumas ponderações, como por exemplo, o fato do quanto a humanidade estava egocêntrica, mesquinha e sem a menor noção de respeito e civilidade, fato que foi muito importante, pois começar a admitir os próprios erros é um passo muito importante. Depois disso as coisas foram seguindo um caminho mais natural e o primeiro passo havia sido dado e, desprovidos de qualquer outro tipo de sentimento de orgulho ou vaidade, começaram a realmente mergulhar em si mesmos, não mais buscando respostas ou explicações externas, mas sim, aquelas que vinham da suas próprias almas. Começaram a se questionar se realmente precisavam de tudo o que tinham, se todo o sofrimento que passaram para acumular bens materiais tinha valido a pena, afinal, agora estavam sem nada e parecia que nada mais era tão importante, perguntaram se a falta de convívio com a família e amigos foi válida, tudo isso em nome de um conforto ilusório e de uma segurança fictícia. A resposta era óbvia: claro que não!

– Ao se darem conta de tamanha estupidez sentiram-se envergonhados de si mesmos, dos ataques de fúrias e angústias que sofriam e que agora sabiam, por nada. Dúvidas milenares voltaram a fazer parte dos questionamentos da alma humana, com perguntas do tipo: Quem eu sou? De onde vim?  Para onde vou? Não era possível que “o ser” pudesse ser resumido somente a um nome, alguns documentos, uma profissão, uma família e algumas somas de bens, pois agora, essa ideia lhes parecia ridícula, tinha que existir algo mais, tinha que ser algo além disso, algo que realmente fizesse a vida valer a pena e não somente um monte de ilusões que se dissipavam em frações de segundos. A outra pergunta, de onde viemos, os fez pensar na vida de uma forma mais ampla, pois agora que estavam começando a questionar o ser, a essência, era natural que o questionamento sobre o início e o fim também viessem a tona. Será que tudo realmente começou somente no momento em que fomos fecundados? Nada existia antes disso? Por outro lado, como acabaria e onde acabaria? Seria mesmo a morte o fim de tudo?

– Nonno, penso que realmente eles estavam muito perdidos e confusos, pois todas as crenças foram por terra e não faz muito sentido ou pelo menos, creio seja totalmente desesperador, ver que você viveu uma vida toda sem se conhecer, lutou para acumular coisas que não lhe serviram para nada e que foram retiradas sem qualquer aviso ou explicação e, para completar, não ter perspectiva alguma do que viria pela frente. Seria o resumo da vida somente o sofrimento e ponto final?

– Realmente, Vitor, a vida seria muito sem sentido se pudesse ser resumida somente a isso. Esses questionamentos começaram a ficar cada vez mais fortes e a busca pelas respostas também. Outro ponto que começou a intrigar as pessoas era a existência da vida somente no planeta Terra. Até então, pouquíssimos se deram ao trabalho de pensar e buscar respostas objetivas para isso seja por preconceito, dogmas religiosos, medo do desconhecido, mas o fato era que poucos haviam se ocupado, de uma forma verdadeira, com esses questionamentos. As pessoas ainda eram muito supersticiosas, fato que também advém do desconhecido, da falta de compreensão de si e do mundo onde estão. Hoje essas perguntas não fazem mais sentido, mas elas já foram motivos de muitas discussões, desentendimentos e até mesmo, de mortes por intolerâncias religiosas e ideológicas.

– Voltando os olhares ao seu íntimo o homem começou a perceber e a entender sua própria essência, mas de uma forma nunca antes feita, passou a perceber a inter-relação entre si e o universo, na forma como pensava, agia e exteriorizava sentimentos e em como isso interferia na nossa própria vida. Começou a refletir na origem dos seus maiores medos e angústias e começou a perceber que esses mesmos medos e angústias já não existiam com tanta força, aliás, praticamente não mais existiam, pois esses medos, angústias, depressões, crises de ansiedade, dentre tantos outros problemas psicológicos, em boa parte, eram resultado da busca incessante pelo ter e não pelo ser. Como não tinham mais nada o encontro consigo mesmo foi inevitável e necessário, pois o homem, há muito não se ouvia, não se permitia momentos de silêncio e introspecção, não se permitia o isolamento num campo, sob uma árvore e deixar seus pensamentos  e sentimentos soltos, aliás, o silêncio era um grande incômodo, as pessoas sempre estavam ouvindo alguma coisa, televisão ligada, rádio ligado, música pelo celular, enfim, qualquer coisa que produzisse algum ruído que as impedissem de escutar seu próprio eu, sua própria alma.

– As pessoas buscavam cada vez mais formas de estar em grupos, festas, bares, clubes, mas nunca estiveram tão só. Para compensar essa solidão, subterfúgios foram encontrados, como drogas e tantos outros vícios e, engana-se quem achava que somente atos ilícitos eram vícios, pois existiam tantos que eram socialmente aceitos, mas nem por isso, eram menos nocivos e viciantes. Nunca antes as pessoas falaram tanto, mas também, nunca antes houve tanta falta de entendimento. Um músico da época chegou a retratar isso na letra de uma das suas músicas: “fala demais por não ter nada a dizer”. Era isso mesmo, a fala era um sinal claro da ansiedade, da solidão, do desespero não admitido ou exteriorizado e encontrar alguém que pudesse ouvir era quase impossível. Podemos dizer que nunca antes a humanidade foi tão insana quanto nos séculos XX ao XXIII, os males chamados de “modernos”, como a depressão, por exemplo, que chegou a ganhar o status de “mal do século”, só comprovava isso, ou seja, a falta da sensibilidade para com o próximo. A depressão também era muito comum naqueles que tinham um pouco mais de sensibilidade, pois é claro, eles existiam, eram os eternos indignados e inconformados, mas eram abafados e esmagados pela grande massa, que não os compreendia, eram os “chatos”, os “reclamões”, e, em muitos casos, isolados pela sociedade. Essas pessoas também sofriam muito, sofriam pela inconformidade e pelo sentimento de impotência diante de tantos desmandos, queriam fazer algo, mas também já não sabiam mais o que fazer e isso gerava uma ansiedade e angústia muito grande, exteriorizada na forma de depressões crônicas.

– Quando o homem aprendeu voltar os olhos e ouvidos para ele mesmo, deixou de culpar o mundo pelos seus problemas e passou a entender que ele é o grande responsável pela sua vida, que ninguém o fazia triste ou feliz, mas sim, somente ele mesmo, que a alegria ou a tristeza eram sentimentos que só afloravam segundo o que ele mesmo permitia, que o equilíbrio de cada um somente dele mesmo dependia. A partir do momento em que essa consciência despertou, um sentimento libertador tomou conta do ser, pois seus preconceitos e todas formas de castração mental começaram a ruir e  ele entrou numa nova fase do seu processo evolutivo, processo este que não tinha mais volta, pois cada vez mais ela buscava a libertação através do conhecimento e cada vez mais era iluminado com a luz da sabedoria.

– Esses estudos, nonno, aconteciam de que forma? Como é que eles se organizaram para administrar essas descobertas? Em que elas foram baseadas? Quais caminhos seguiram? Estou um pouco confuso com isso, pois não consigo entender como eles saíram do nada para esse conhecimento.

– Vitor, em verdade não foi bem do nada. Esse conhecimento estava sendo construído através do tempo, mas estava adormecido, muito tímido e sufocado por todos os apelos externos. Mas, respondendo aos seus questionamentos, o processo do despertar foi individual, como já o dissemos, ninguém podia mudar ou impor isso a ninguém, pois não funcionava, mas o que favorecia era a atmosfera em que eles estavam, a dor, o sofrimento, as angústias, entre tantos outros sentimentos profundos, fizeram com que a coletividade despertasse, nem todos no mesmo nível, é claro, mas todos foram tocados de alguma forma. Também considerando que todo conhecimento jamais é perdido ou inútil, não podemos esquecer que as pessoas da época tinham estudos, pesquisas e algum conhecimento sobre o funcionamento da mente humana, conhecimentos sobre doenças e seus processos de cura, além de um rudimentar conhecimento sobre tecnologias, que eles julgavam como sendo as melhores possíveis. Os grupos de estudo em que se reuniam foram os locais onde esses conhecimentos foram trocados e disseminados, pois esses grupos funcionavam como células, que tinham o objetivo de se multiplicarem em todos os lugares, agindo como uma perfeita rede de conhecimento, levando e trazendo experiências e, acima de tudo, sempre compartilhando todo o conhecimento possível. As pessoas passaram a ter tempo para poder ouvir o outro, para falarem e serem escutadas, para discutir ideias sem tentar impor opiniões e desse ambiente saudável é que os novos conhecimentos foram surgindo.

– Os conhecimentos médicos da época também eram limitados e estavam baseados no processo de entendimento físico e desenvolvimento de drogas e procedimentos que eliminassem os efeitos, mas a causa em si, via de regra, era ignorada ou pouco valorizada nesse processo de cura. Eventos outros contribuíam para isso e já falamos disso quando abordamos a indústria farmacêutica, mas era do conhecimento médico que as doenças surgiam por desequilíbrios físicos ou mentais e que resultavam, com isso, em acometimentos orgânicos dos mais variados, de uma simples gripe ao câncer, mas que em toda doença havia algum desequilíbrio. O desequilíbrio orgânico era o mais estudado e valorizado, mas a grande verdade é que o desequilíbrio mental era o mais importante e a causa única de toda forma de doença. Esse fato não era completamente ignorado, pelo contrário, surgiram novas linhas de medicamentos que deveriam atuar em hormônios, enzimas e, com isso, trazer o reequilíbrio mental ao paciente, mas é claro que isso não funcionava conforme era esperado, pois seria muito simples se um comprimido resolvesse todo um complexo sistema existencial. Talvez esse fosse o sonho do homem da época, minimizar sentimentos e acalmá-los com pílulas, mas a natureza não age dessa forma, o processo evolutivo não se dá por doses diárias de tranquilizantes e ansiolíticos, mas sim, por um longo e trabalhoso processo de construção mental, de mudança de parâmetros e formas de pensar e agir, de uma reconstrução de modelos mentais e do domínio das próprias forças criativas, pois como tudo nesse universo é energia, o ser humano também faz parte disso, é uma somatória de várias forças e de um processo de condensação energética, que quando não bem direcionada ou trabalhada, a exemplo do que pode acontecer com uma linha de transmissão de alta voltagem, que não tem estrutura suficiente, está desgastada ou qualquer outra falha pela qual possa ser acometida, pode se romper e causar grandes estragos, desastres de grandes proporções e até a morte e a energia humana também é assim, precisa ser direcionada, pois possui um alto poder e cada pessoa pode ser comparada a um pequeno gerador, que pode servir para iluminar um certo número de pessoas a sua volta e trazer muitos benefícios, ou então, explodir e causar um muito maior.

– A energia não direcionada começa a escapar por caminhos alternativos, pois assim como a energia elétrica, que não pode ser represada em compartimentos, a energia humana também não e ela pode ser usada de forma positiva, construtiva e para o bem ou então, inevitavelmente, caminhará para formas menos construtivas e destruidoras. Infelizmente, na época, fazendo uma analogia, podemos dizer que existiam muitos “gatos” que roubavam energia. “Gatos” eram as formas como os roubos de energias eram classificados, ligações clandestinas, que até forneciam energia, mas não de forma correta, na voltagem e tensão indicados, podendo danificar equipamentos e pessoas. Com o ser humano essa comparação pode ser estabelecida, pois todos, sem exceção, emanamos energias de uma forma ou de outra, resta-nos saber se estaremos emitindo as energias na voltagem e tensão corretos, trazendo benefícios, ou então, de uma forma descompromissada, mais prejudicando do que ajudando os que estão a nossa volta.

– Dentro de todo esse processo, hoje sabemos da importância do cérebro, que é nosso gerador interno e pessoal, do poder que ele tem, mas isso nem sempre foi claro. Estima-se que na época apenas 1% de toda a capacidade mental era usada, em resumo, praticamente nada. Era como ter uma usina nuclear para acender uma pequena lâmpada. A verdade é que a própria estrutura humana não comportaria, sem um processo de evolução físico,  uma grande expansão do nível de atividade cerebral, pois voltando a usina nuclear para acender a lâmpada, seria mais ou menos o que aconteceria com o corpo humano se o gerador fosse acionado em sua totalidade, faria com que o corpo fosse desintegrado. O processo precisava ser gradual, o homem precisava começar a ter domínio sobre seus próprios sentimentos e sobre seu próprio corpo para que a mente pudesse também ir se expandindo, podemos dizer que uma coisa levava a outra. Essa evolução começou a ocorrer e o homem começou a entender que ele poderia controlar qualquer reação do seu organismo, desde as sensações físicas, como o calor e o frio, até as sensações psíquicas, como a raiva, a angústia ou o amor, que também era pouco entendido.

– A cura que o homem buscava nos comprimidos, ele percebeu que poderia também conquistar aprendendo a dominar sua mente, uma vez que tanto a alegria ou a tristeza eram processos da alma, mas que se refletiam fisicamente. Não eram os hormônios que tinham que ser dominados e sim os sentimentos, pois estes é que faziam com que o corpo se inundasse de hormônios e não o inverso. A medida que o homem foi aprendendo a dominar seus pensamentos e sua mente, gradativamente, as doenças foram desaparecendo. É claro que estamos tratando isso numa conversa, portanto, resumindo muito todo esse ciclo evolutivo, que em termos humanos, demorou mais de duzentos anos até que um patamar de equilíbrio fosse realmente conquistado, mas o importante era que o homem tinha achado o caminho e, passo a passo, foi construindo sua caminhada rumo ao seu bem estar e ao seu reequilíbrio.

– Vitor, creio que com isso concluímos essa nossa conversa de hoje, onde abordamos o autoconhecimento. Naturalmente não encerramos o assunto, mas pelo menos explanamos de uma forma mais detalhada. Ao longo das conversas que ainda virão certamente voltaremos a abordar alguns tópicos e a complementar conceitos aqui não abordados.

– Nonno, mais uma vez te agradeço por essas lições e por essa conversas, que muito esclarecem. Amanhã, se possível, gostaria de não nos encontrarmos, pois também marquei um encontro com alguns amigos.

– Claro, meu neto, sem qualquer problema, pelo contrário, após falarmos tudo isso, creio que nem seja preciso dizer sobre a importância de mantermos relações saudáveis e o quanto o convívio com amigos é benéfico e importante nesse aspecto.

– Em nosso próximo encontro falaremos sobre o processo de Educação, que também foi totalmente remodelado e essa mudança tem muita ligação com esse processo que hoje vimos, do autoconhecimento. Aproveite e curta muito seus amigos e nos encontramos outro dia, me ligue e avise quando poderá.

Como de praxe, se despediram com um abraço e seguiram seus caminhos.

 

 Leia aqui sobre A Educação

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