O Início de Uma Nova Era

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O próximo encontro entre avô e neto aconteceu numa grande biblioteca, na cidade de Londres, cidade essa que teve um papel importante na construção dessa nova era, pois aos seus habitantes foi dada a missão de reunir, num único lugar, os acervos de livros de todos os países, acervos esses que haviam sobrevivido a todas as guerras que a humanidade enfrentou e que era a fonte de todo o conhecimento e de toda a história que se tem registro, de toda uma Era da Humanidade.

A biblioteca ocupava, nada mais, nada menos, do que todo o prédio do antigo parlamento do Reino Unido, localizado às margens do Rio Tâmisa. Em seu interior, dentre suas mais de mil salas, estavam todos os registros históricos da humanidade, de todos os povos, de todos os países. Esse local virou uma referência mundial em estudos, concentrando todo o conhecimento dos nossos antepassados.

Nesse cenário rico em cultura e conhecimento, Orlando e Vitor começaram uma série de novos encontros, onde iriam discutir o início dessa nova era, o recomeço após o caos absoluto. Após ocuparem uma saleta de estudos, devidamente equipada com todos os aparatos tecnológicos disponíveis, começaram a conversa.

– Vitor, em nossas últimas conversas pudemos falar um pouco sobre Giuseppe e Francisca, sobre a importância deles nesse processo, o esforço que fizeram para que os fatos pudessem tomar um novo rumo e esse esforço não foi em vão, eles representaram a primeira fagulha, o primeiro sinal de luz dentre todo um grande processo que só começava, processo esse que foi continuado pelos seus filhos e por mais algumas outras centenas de pessoas que se dedicaram de corpo e alma para essa mudança.

– Nonno, eu imagino que todo esse processo tenha sido muito lento, pois qualquer mudança significativa é lenta, imagino então um processo de mudança mundial.

– Sim, Vitor, isso mesmo, foi um processo lento, muitas vezes doloroso, mas que foi verdadeiro, profundo e trouxe mudanças reais, ao invés de mascarar problemas e criar remendos, esse processo atacou o mal na sua raiz mais profunda, proporcionou mudanças de estruturas, único motivo pelo qual sobreviveu ao longo dos séculos e se tornou uma nova realidade. As pessoas sempre falavam muito em mudanças, partidos políticos pregavam essa necessidade, muitos livros foram escritos sobre o assunto, mas a grande verdade é que as pessoas não estavam preparadas para mudar. Todo o discurso pode ser muito bonito, mas não tem qualquer efeito se não for sentido em sua essência, se não tocar a alma, de resto, são apenas meras palavras ao acaso, bonitas até, mas sem qualquer significado.

– Como já falamos em outras conversas, essa mudança foi planejada de uma forma global, envolvia lideranças em todos os países, mas o que realmente fazia a diferença era a completa ruptura com o passado, o novo olhar que ela trazia, olhar esse que estava voltado não mais ao material, mais ao espiritual, aos valores éticos e morais, o que importava eram as pessoas, seus sentimentos e não mais o bem capital, material, portanto, transitório e efêmero. As pessoas começaram a compreender que a felicidade não residia no quanto ela possuía, mas sim, naquilo que ela sentia, naquilo que ela era. O conforto material passou a ser visto como secundário, era apenas um instrumento, a tecnologia, o dinheiro, os bens materiais, nada disso mais representava status, nada disso era mais motivo de orgulho e ao sentir a completa ausência de todos esses bens os homens perceberam que eles não eram mais importantes, pois mesmo os mais abastados ficaram sem nada e, por maior que fossem suas fortunas, estas não os impediram de qualquer sofrimento, pelo contrário, impunham dores mais fortes.

– Por terem sentido na pele a miséria extrema, a fome, a solidão, a angústia, eles sabiam que um mundo melhor não poderia ser construído enquanto pessoas fossem privadas das suas necessidades básicas, que o acúmulo de bens era inútil e que quanto mais eles aprendessem a compartilhar, melhor seria para todos. A humanidade começou a sair do ter e começou a entrar no ser. Ter felicidade não significa ser feliz, pois era um estado transitório e, a qualquer momento, essa felicidade iria embora, no entanto, ser feliz era diferente, pois não havia dependência de outras pessoas ou coisas materiais, era um estado de alma e nada poderia tirar esse estado, ele não poderia ser roubado, não poderia ser confiscado, mas poderia ser compartilhado, pois a alegria, a paz de espírito e a felicidade, quanto mais compartilhadas são, maiores ficam, elas são sentimentos que transformam a atmosfera ao redor das pessoas, transformam o ambiente e geram um estado de espírito positivo, que acaba por atrair outras coisas boas, não por misticismo, mas por pura lei de afinidade, por reações físicas e químicas na estrutura molecular das pessoas, que vibram em sintonia com o universo. Uma vez que estamos em sintonia com as energias universais, entramos num estado de espírito que hoje conhecemos bem, mas que na época não era entendido por ninguém, que era interpretado como algo místico, mas que de místico nada possui.

– Nonno, estou aqui pensando  que esse processo de harmonia entre cada ser humano e  a energia cósmica universal pode ser comparado, por exemplo, com um piano muito bem afinado e o músico pelo qual ele será tocado. O piano é o universo e a vida, o músico somos nós, o piano pode gerar uma música linda ou um simples ruído que seja incômodo aos ouvidos e quem irá fazer a diferença é o músico, seu conhecimento e o quanto ele está afinado com o instrumento que vai tocar. Quanto maior o preparo do músico, quanto maior seu conhecimento, quanto mais ele tenha estudado, mais fácil será operar o piano, acordes inimagináveis poderão ser retirados, sons que irão tocar a alma. Por outro lado, de nada adianta um piano afinado e alguém que não conheça nada de música ou do instrumento, pois ele não vai produzir nada de bom, embora o piano, em si, não vá perder seu valor pela má qualidade do músico, ele continua sendo um piano afinado e ficará aguardando até que o músico aprenda, com erros, acertos, mas principalmente com muito treino e dedicação e um dia, ainda que distante, que o músico dele retire a melodia mais harmoniosa, que sempre esteve ali, mas que não era entendida, não era vista, não era sentida. Vejo dessa forma a relação de cada ser humano com o universo, com a felicidade e com a vida, que sempre é linda, sempre é de luz, bastando a cada um saber operar o instrumento que tem em mãos e produzir o melhor que se pode produzir. O fato de um músico retirar uma linda melodia de um piano não impede que outros músicos também o retirem, pois a melodia ali está, inerte, esperando que alguém a descubra e quanto mais lindas melodias forem produzidas, melhor será, pois todos serão beneficiados por essas conquistas, sendo que a única coisa que poderia impedir esse processo seria alguém se apoderar do piano e não mais dividi-lo com ninguém, pois dessa forma somente uma pessoa poderia tirar proveito, mas se ele continuasse a ser  livre, todos poderiam ser beneficiados e isso não traria mal algum ao instrumento, que espalharia cada vez mais harmonia e o bem estar a todos que perto dele chegassem.

– Perfeita comparação, Vitor. Realmente o ser humano somente começou a evoluir quando começou a perceber que o mundo é o instrumento para sua realização e felicidade, mas que ele, por si próprio, deve buscar esses sentimentos e, principalmente, que a sua felicidade não pode ser baseada na infelicidade de qualquer ser vivo do planeta, que ele não tem direito de menosprezar qualquer forma de vida, pois não é superior a nenhuma delas, que todas as formas são interdependentes e que até a inexistência de uma ameba no oceano pode influenciar a vida de todo um planeta.

– Voltando e continuando nossa conversa, estamos agora no momento em que a humanidade se alinha frente a um imenso caminho, um caminho que ela percorreu incansavelmente, por anos e anos. Após a morte do Giuseppe e da Francisca, seus filhos continuaram seu legado, junto a tantos outros Giuseppes e Franciscas, espalhados pelo mundo. A primeira coisa que as pessoas tiveram que aprender foi o processo de reconstrução, pois praticamente tudo havia sido destruído e, como falamos, por necessidades de sobrevivência, as primeiras providências foram em relação a alimentação, mas muita coisa ainda havia por ser feita e, também nesse sentido, os habitantes da época sentiam medo, insegurança, pois não faziam a menor ideia de como começar a construir tudo novamente e, além disso, se seria possível começar todas as reconstruções sem voltar ao velho padrão já vivido. Esse dilema foi assunto de muitas reuniões, que giravam em torno de como reestruturar um processo de Educação realmente libertador e eficaz, que possibilitasse as pessoas conquistarem o conhecimento sem os ranços do passado, aquele conhecimento que realmente estimulasse o pensamento e a criatividade, também discutiam as moradias, a forma como isso seria feito, além das condições de saúde e segurança que precisavam ser reestabelecidas.

– O conhecimento que se tinha na época era baseado somente nas situações já vividas, portanto, estava difícil encontrar uma alternativa, pois por padrão, tudo remontava ao passado. O homem começou a buscar o conhecimento nos livros, ciências já conhecidas, mas com uma perspectiva de olhar diferente, tentando criar novas coisas através do que já conheciam. Nessa busca, encontraram profissionais sobreviventes de diversas áreas, mas as ferramentas necessárias não estavam mais disponíveis, pois tudo havia sido destruído pelas guerras e catástrofes naturais, portanto, o homem tinha o conhecimento armazenado, nada além disso.

– Nonno, mas o conhecimento não é o maior bem do homem? Com conhecimento eles não poderiam começar tudo novamente?

– Se esse conhecimento tivesse sido fruto de uma formação libertadora sim, no entanto, lembre-se, estávamos falando de pessoas que foram formadas e cresceram dentro de padrões de Educação muito castradores, na verdade, na sua grande maioria, apenas replicadores de conteúdo, pois o estímulo a criação de novas tecnologias e coisas nunca foi muito difundido e para o povo da época, ter uma formação era tão somente aprender em livros e aulas, coisas que outros já haviam pensado e criado. Óbvio que não podemos generalizar, mas a grande maioria era assim.

– Vitor, como falamos, o processo de evolução é lento e essa máxima aplica-se a essa situação. O homem, na sua angústia de resolver tudo, até mesmo por uma certa prepotência, pois além do desejo da melhora, claro, ainda havia também um pouco do sentimento arraigado do orgulho, em querer resolver a situação toda, mas não eram esses os objetivos maiores nesse momento. O que precisa ficar muito bem arraigado na essência humana eram os sentimentos, o desprendimento dos bens materiais e as conquistas da alma, da personalidade, do caráter, pois isso seria a base para uma nova sociedade, realmente modificada e, sem isso, todos os esforços seriam novamente em vão.

– Entendo, nonno. A perspectiva humana era muito limitada, realmente, e o homem se considerava o detentor de todo o conhecimento possível, mas que conhecimento era esse? Era tão limitado que uma maioria esmagadora da população sequer considerava a hipótese de outras formas de vida, tinham a prepotência de achar que eram os únicos seres inteligentes do universo.

– Estamos chegando a um ponto chave que é a expansão dos horizontes, a busca por novos conhecimentos e o fortalecimento dos sentimentos, pois esse era o recado do Universo aos habitantes do planeta Terra. A evolução da espécie é um fato inegável e incontestável, está ligado diretamente as forças evolutivas do planeta, que não dependem da vontade de qualquer ser humano, são forças universais e absolutas, seguem um curso independente e nada pode detê-la.  Sendo assim, os homens tinham que se preocupar somente com seu próprio crescimento espiritual, pois todo o restante não lhes competia, não poderiam interferir, aliás, tinham acabado de sofrer as consequências da sua interferência nesse ciclo, portanto, não estavam dispostos a pagar a mesma conta novamente. Eles tinham que entender que a medida que progredissem espiritual e intelectualmente falando, todo o restante seria uma consequência natural, tendo em vista que quando evoluímos nesses aspectos, estamos preparados também para o sucesso e para as conquistas físicas, que não mais serão objetos de sentimentos escusos, atos ilegais e imorais, mas sim, serão frutos naturais de conquistas íntimas e não objetos para satisfazer as carências e feitos humanos.

– Nesse sentido, o homem ainda demorou muito tempo para adquirir essa consciência e essa maturidade. Muitas tentativas foram feitas no sentido de começar um processo de remodelagem e reconstrução, mas todos sem êxito, pois emperravam em pontos conhecidos, como por exemplo, a limitação de recursos e de conhecimentos. O que você pensa ou sabe sobre isso, Vitor? Como você acha que a humanidade pode ter saído do lugar?

– Nonno, por tudo o que já li e também pelas nossas conversas, como há pouco falamos, a evolução é uma característica inata de qualquer pessoa, portanto, penso eu que mesmo por um mecanismo de instinto o homem deve ter começado a perceber onde estava errando e o que poderia fazer para isso, pois não consigo achar outra alternativa.

– Isso mesmo, o homem costuma chamar de instinto aquilo que ele não pode explicar, sentimentos, intuições, ideias que chegam espontaneamente, sem que ele tenha consciência  de onde vieram, mas que sempre trazem aquela inspiração para fazer algo que ele desconhecia. Esses sentimentos, essas inspirações, em partes, estão sim relacionados com a nossa memória genética e com nossa estrutura molecular, que já contém em si toda a evolução possível, porém, em estado latente. Esse fato, ao contrário do que muitos contestavam na época, não tirava do homem a sua liberdade ou responsabilidade, pois ele era e é livre para tomar a decisão que quiser, mas era um fato que ele evoluiria, no entanto, o tempo e a forma que ele  precisaria para alcançar essa conquista, dependeria somente dele.

– Instintivamente o homem percebeu que ele precisava buscar o conhecimento, de todas as formas e em todos os lugares, pois todo o restante dependeria do que ele poderia aprender com o que tinha em mãos, do que ele poderia fazer com os recursos disponíveis, uma vez que não havia a opção de pedir ajuda, importar de outro lugar ou qualquer coisa que o valha, em resumo, a única opção possível era aprender, ou melhor, aprender a aprender, pois como regra e como já falamos, o homem não aprendia, apenas replicava conhecimentos passados e estava na hora dele realmente aprender, dele de fato criar coisas novas, de fazer valer a sua capacidade cerebral infinita, que ele conhecia muito superficialmente.

– Os filhos do Giuseppe e da Francisca foram os pioneiros nesses estudos, dando continuidade ao processo de evolução e aprimoramento que seus pais haviam começado, eles foram os primeiros a perceber essa necessidade de evolução espiritual e intelectual e, para tal, formaram grupos de estudo, reunindo pessoas com múltiplos conhecimentos, não para ensinar o que sabiam, mas sim, para que juntos pudessem criar coisas novas e buscar conhecimentos ainda nem imaginados.

– A partir do momento em que eles tomaram essa consciência, interiorizaram essa necessidade e começaram a buscar meios, tudo começou a mudar, pois é claro que não estavam sozinhos nessa jornada, apenas não sabiam disso. Eles começaram a estudar, estudar e estudar e, com o resultado desses estudos, começaram a perceber o tamanho do estrago que haviam feito ao mundo. Esse conhecimento, inicialmente, foi lhes dando um sentimento de culpa, mas que não iria resolver a situação, portanto, trataram logo de modificar esse sentimento de culpa em criatividade, em forças para construir um futuro melhor. Foram formadas frentes de estudos, nas diversas áreas do conhecimento, mas sempre tomando o cuidado de não haver centralização excessiva desses conhecimentos, pois o objetivo principal era que todo o conhecimento fosse socializado, com todos, e isso era feito em encontros realizados com esse objetivo exclusivo, com o objetivo de trocar conhecimentos e divulgar os resultados obtidos.

– Inicialmente eles focaram nos cinco pilares: autoconhecimento, educação, saúde, a nova política e as novas tecnologias, sendo que o ponto de partida foi o autoconhecimento. O lado positivo da grande crise pela qual haviam passado foi o fato de terem aprendido a conviver com o mínimo necessário, sem futilidades, aprendendo a esperar o tempo de maturação de cada coisa, portanto, já haviam aprendido que os saltos não existiam e que teriam que trilhar um longo caminho, mas que poderia ser um caminho muito mais bonito e agradável, desde que cada passo da caminhada fosse sentido em sua plenitude.

– Vitor, esses tópicos serão assuntos para nossas próximas conversas, pois são assuntos extensos e não teremos como abordar tudo isso de uma vez. Hoje vamos finalizar por aqui e, em nosso próximo encontro, já começamos por esses tópicos.

– Combinado, nonno, vou procurar já ler um pouco mais sobre isso também para já vir mais preparado em nossa próxima conversa.

Seguindo o hábito, trocaram afetuosos abraços e foram para seus lares onde puderam descansar e relaxar, cada um a sua maneira.

 

 O Autoconhecimento

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