Um Pouco do Cotidiano

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Enquanto aguardava a próxima sequência de conversas com seu nonno, Vitor, seguindo os conselhos do Sr. Orlando, passou alguns dias refletindo e seguindo sua vida normalmente. Uma das coisas que Vitor mais gostava de fazer era estar com seus amigos e tinha isso como uma rotina em sua vida e, todos os dias, reservava pelo menos quatro horas para esse convívio.

A distância não era mais um problema para as pessoas, assim como tempo e dinheiro, que foram grandes limitadores no passado, portanto, transitar de um continente a outro não era fato que impedisse nenhum convívio e Vitor sabia bem disso. Seus amigos moravam desde a casa ao lado, até outros países, mas isso não impedia que ele utilizasse dos transportes públicos e gratuitos para chegar ao seu destino, em algumas horas.

O único meio de transporte coletivo existente hoje é o trem, mas que em nada se parece com os antigos trens. Graças ao avanço da tecnologia e ao desenvolvimento de novos materiais, hoje, todas as cidades e Estados e Países, são interligados por linhas de trens ultra velozes, que operam a uma velocidade média de 2.500 km/hora, nas viagens nacionais e 5.000 km/hora, nas viagens internacionais. Essa velocidade somente foi conseguida quando o homem entendeu e superou alguns limites, pois o principal ponto limitar da velocidade sempre foram o atrito e as vias de transporte. Já há alguns séculos, o atrito não existe e hoje, os veículos não mais circulam pelo chão, mas sim, pelo ar, em aerovias. As vias terrestres servem apenas para os seres humanos, que caminham livremente ou com o auxílio de um Transportador Magnético Portátil (TMP), que é simplesmente um dispositivo, adaptado em qualquer sapato e que faz com que a pessoa flutue e se desloque, tendo como controle, apenas o pensamento, pois o TMP é capaz de captar as ondas cerebrais, interpretá-las e executar os comandos que lhe são enviados. Os TMPs podem ser encontrados em quiosques de distribuição, localizados em todas as praças e são totalmente gratuitos, bastando ser devolvidos, em qualquer outro quiosque, após a sua utilização. As aerovias, localizadas a aproximadamente 2000 metros do chão, são apenas fluxos imaginários e controlados por satélites e computadores com inteligência artificial, capazes de identificar problemas, prever rotas alternativas em frações de segundos, além de garantir total segurança aos passageiros.  As aeroestações, que são os espaços onde as pessoas vão para poder utilizar os transportes públicos, são feitas em plataformas flutuantes, suspensas por propulsores, também guiados por satélite.

Para chegar até as aeroestações, as pessoas utilizam elevadores, que suportam até 350 pessoas e fazem o trajeto do solo até os 2000 mil metros acima em apenas 15 segundos, mas nenhuma sensação de desconforto é sentida internamente, primeiramente pela própria composição humana e, em segundo lugar, pelos mecanismos de compensação de altitude e pressão, que tornam a rápida subida imperceptível. De cada aeroestação, partem trens de 20 em 20 minutos para todas as cidades e estados, sendo que aproximadamente 10.000 mil viagens são feitas diariamente, entre todos os pontos, de um mesmo país. Já para as viagens internacionais, os trens partem de 40 em 40 minutos, cobrindo todos os possíveis destinos do planeta.

Todas as aeroestações são dotadas de equipamentos RFID (Identificação por Rádio Frequência), que fazem a leitura dos dados pessoais de todos os que chegam aos terminais. Essa leitura é possível, pois todos os dados pessoais e documentos estão contidos num único chip, de aproximadamente 2 mm, que é implantado sob a pele do braço. Todos os dados pessoais são enviados aos computadores inteligentes, que fazem a identificação e liberam a entrada do passageiro. Os dados de todas as viagens podem ser acompanhados pelo monitor de cada poltrona, sendo que antes de chegar a cada destino, o passageiro já pode ir se familiarizando com a cultura e costumes locais, pois embora, moralmente falando, o planeta hoje tenha evoluído muito, os costumes e tradições de cada país foram mantidos, como uma forma de se preservar a história e a memória da humanidade.

Vitor, desde o início da sua adolescência, era um usuário assíduo desse meio de transporte, já conheceu pessoas pelo mundo todo e mantém contato constante com todos, assim como, recebe seus amigos na sua casa com a mesma frequência.

Antigamente as pessoas ficavam imaginando como seria o futuro, algumas achavam que os seres mais evoluídos seriam praticamente extraterrestres e que a evolução deixaria a vida monótona, pois não entendiam, pela sua própria condição inferior, como as coisas poderiam evoluir e o quanto isso traria de benefícios aos seres humanos.

A evolução trouxe muitos benefícios, mas não fez do homem um monstro, como antigamente eram retratados em vários filmes. Na verdade, poucos humanos tinham a capacidade de visualizar a evolução, boa parte só conseguia perceber os mundos ainda mais inferiores, motivo pelo qual as visões, filmes e livros sempre eram muito trágicos, pois ao invés de visualizar o que aconteceria de bom, visualizavam aquilo com o que tinham sintonia, ou seja, mundos inferiores e projetavam isso como a evolução.

A evolução apenas libertou o homem de tudo aquilo que lhe trazia sofrimentos, tanto do corpo quanto da alma, mas não mudou os sentimentos nobres que ele já trazia, embora de forma muito rudimentar, desde seus mais primitivos ancestrais. Nos primórdios da humanidade, o amor era frequentemente confundido com sexo, sentimentos de posse eram confundidos com cuidados, pois o homem não sabia o que era realmente amar. Existem amores de várias formas, mas, sem dúvida, que nenhum é possessivo, nenhum aprisiona, pelo contrário, somente liberta, desprende. O homem primitivo tinha vergonha de expressar seus sentimentos, tinha vergonha de admitir que amava, principalmente se fosse a pessoa do mesmo sexo, pois ele poderia ser entendido de forma inadequada, como se alguma forma de amor fosse inadequada, mas essa ideia, esse falso conceito perdurou por muitos e muitos séculos. O amor, como hoje o entendemos, nem passava pela cabeça dos nossos ancestrais.

Vitor amava sua família, amava seus amigos, amava seus vizinhos e isso era um fato muito natural a ele e a todos os atuais humanos, que expressam esse sentimento com muita naturalidade. Antigamente, muitos diziam “eu te amo”, mas poucos sabiam o que era isso, confundiam o amor com qualquer outra coisa que não era o amor. Hoje, mais que falar, as pessoas demonstram o amor através do respeito, do carinho, do companheirismo, da vontade de ver o outro evoluir, em todos os sentidos, em todos os tempos, aliás, essa é a principal função das pessoas, ajudar as outras a evoluírem.

Vitor aproveitou os dias em que não conversou com seu nonno para se encontrar com seus amigos, abraçou-os, conversaram muito, pois ele já começou a contar as coisas que tinha aprendido com seu nonno, coisas essas que também impressionaram muito aos seus amigos. Eles estudaram, conversaram e, como qualquer adolescente, também jogaram muitas conversas fora, passearam, entre tantas outras atividades cotidianas típicas de qualquer jovem, como por exemplo, ir a clubes, entre outras. A diferença é que a diversão dos jovens atuais, ao contrário dos jovens de antigamente, não se restringia mais as bebidas e outras drogas ilícitas, que já nem existiam mais, há muitos anos, mas o convívio em grupo, a troca social era ainda muito estimulada e importante.

Orlando, por sua vez, também aproveitou os dias como pode, descansando, lendo, preparando suas aulas, pois ainda lecionava todos os dias e sentia um enorme prazer nisso. Ele sabia  que essa era sua principal função, ajudar a despertar nas pessoas o senso crítico, o pensamento, ajudá-las a buscar novas formas de produção do conhecimento e dos bens, que ao contrário do que se entendia no passado, não tinha nada a ver com dinheiro, mas sim, com o bem estar de toda a população. Ele se orgulhava de ver quantas pessoas já tinham passado pelas suas salas de aula, o quanto de conhecimento ele já havia ajudado a construir e o quanto de modificações ele já havia ajudado a implantar. Tudo isso lhe dava uma serenidade única, pois ele tinha plena convicção de que estava cumprindo seu papel, pequeno, sabia ele, mas cumpria ao que se propunha.

Outra coisa que ele também gostava muito de fazer eram as longas conversas com seus amigos, no Clube da Filosofia, um espaço voltado a discussão de novas ideias e que fomentava a produção literária, servindo de inspiração para muitos livros filosóficos, romances, ficções, entre outros. Em grande parte dessas reuniões, eles pegavam livros do passado e o analisavam, pois isso servia para entender como os seus ancestrais pensavam, o que eles esperavam do futuro e o que aconteceu realmente. Traçar essa linha era importante, fazia com que eles pensassem nas ações e atitudes que a humanidade tomou ao longo dos séculos, o quanto isso lhes custou e o quanto de sofrimento foi necessário para que o ser humano entendesse que todo o mal que havia no mundo se resumia a dois fatores que eles nunca dominaram: economia e governo.

Os maiores problemas da humanidade sempre tiveram como foco a economia, ou seja, a produção de riquezas e o dinheiro era o bem capital que eles mais prezavam. Pelo dinheiro, todo tipo de atrocidade foi cometida, todas as guerras foram declaradas e todas as imperfeições humanas foram colocadas à prova. O governo, por sua vez, era uma das formas de obtenção de riqueza, através do poder e do controle total, tendo em vista que o governo ditava as regras unilateralmente, embora o discurso fosse outro, mas as pessoas, na sua grande maioria, apenas aceitavam, sem contestar, sem lutar, simplesmente aceitavam.

Todo jogo político e de poder sempre teve como foco principal o dinheiro e, para tal, os governantes usavam de todos os meios escusos e sórdidos, de todo tipo de roubo, suborno, extorsão, entre tantos outros adjetivos, pois o que importava, a qualquer custo, era acumular riqueza, uma riqueza que não tinha valor algum, pois sempre era construída com o sofrimento de milhares.

Demorou muito tempo para o homem entender que a riqueza não estava no dinheiro, no ouro ou em qualquer outra fonte material, que tudo isso era muito passageiro, muito efêmero, mas um dia ele mudou, novamente, através de muito sofrimento e dor, mas mudou.

Esses seriam os assuntos das próximas conversas que Orlando teria com seu neto, portanto, naturalmente era o que ele mais estudava e discutia com seus amigos no momento, pois não queria deixar passar nenhum detalhe.

Após duas semanas, Orlando entrou em contato com seu neto, marcando um novo encontro, que dessa vez não aconteceria no quiosque, mas sim, num campo de natureza esplêndida, que Orlando gostava muito, localizado a poucas quadras da casa de ambos.

Leia aqui sobre o Terceiro Encontro que irá falar sobre a Política

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