TIC e Educação: essa parceria funciona?

Começaremos nosso trabalho analisando a relação que pode e deve haver entre a tecnologia de informação e comunicação, que chamaremos apenas de TIC e a Educação.

Para fins de esclarecer, primeiramente vamos definir o que é a TIC, que tanto ouvimos falar. Para muitos, TIC é sinônimo de softwares, ou programas de computador, ou ainda, como muitos gostam de chamar, os famosos programinhas para fazer isso ou aquilo.

A TIC pode ser entendida como um conjunto de recursos tecnológicos, que interferem em processos de informação e comunicação, utilizados de forma integrada e com objetivos definidos. Esses recursos são compostos por hardware, software e telecomunicações.

Podemos dizer, portanto, que o software faz parte dos recursos de TIC, mas a TIC, em si, não se limita ao software, sendo um conjunto de ferramentas e tecnologias, que além do software, também engloba o hardware, que é a parte física, assim como, os processos de comunicação.

Juntamente a todos esses recursos, também destacamos o papel da Internet, como uma das principais ferramentas que viabiliza todo esse processo, afinal, seria praticamente impossível pensar em comunicação e informação, nos atuais tempos, se a Internet não existisse.

Agora que você já sabe o que significa TIC, voltamos ao ponto principal dessa discussão, que é a aliança entre TIC e Educação, que cada vez mais está ganhando espaço e só tende a crescer, cada vez mais.

A informação é a base de qualquer processo de aprendizagem, pois se falamos em aprender, esse ato pressupõe uma informação que deve ser adquirida, significada e, posteriormente, transformada em conhecimento.

A TIC, em si, não é uma ferramenta mágica que resolverá todos os problemas que circundam a Educação, mas é sim, um importante instrumento para facilitar o processo.

Antes de entrarmos especificamente na aplicação da TIC na Educação, vamos fazer uma breve apresentação da TIC em outras áreas, pois talvez com a exemplificação, seja mais fácil compreender o seu papel protagonista na maioria das áreas do conhecimento.

Imagine, nos dias atuais, uma empresa que precisasse fazer todo o seu controle, de todos os departamentos, sem o auxílio de um computador. Isso seria praticamente impossível, você deve estar pensando e eu concordo totalmente com o seu pensamento, pois sim, é impossível pensar numa organização administrativa sem o auxílio de computadores e softwares.

Suponha uma indústria controlando todo o seu estoque, linha produtiva e departamento comercial, igualmente sem um computador e um sistema para facilitar.

Enfim, creio que você já conseguiu entender onde quero chegar. A TIC assumiu seu posto no mercado, seja nas áreas da indústria, comércio, prestação de serviços, saúde, entre tantas outras áreas, aliás, fica praticamente impossível pensar numa única área em que a TIC não seja importante, senão, determinante para o sucesso do negócio.

Difícil de pensar até que voltamos nossos olhares para a Educação, porque  chegaremos a triste constatação de que uma área que é tão delicada e importante, é praticamente uma das poucas que ainda não desfruta de todo o potencial que a tecnologia pode trazer.

Eu diria que essa situação, na melhor das hipóteses, é contraditória, podendo mesmo ser classificada de incompreensível, pois como é que a área que é a base é uma das que menos recebe atenção e que menos se beneficia dos recursos tecnológicos existentes?

A tecnologia de informação é uma área relativamente nova, no entanto, ainda assim, nada justifica esse descaso e esse olhar de menosprezo, que por vezes, infelizmente, ela recebe da área da educação.

Por natureza, o ser humano refuta aquilo que é novo e que traga algum desconforto e acredito que esse foi um dos motivos pelo qual a TIC ainda não se firmou no ambiente educacional.

Outra reflexão, ainda sobre a baixa adesão da TIC na Educação, é o desconhecimento e falta de interesse do próprio docente, pois sendo a TIC uma área nova, ela também é nova para a Educação, para o Comércio, para a Indústria, para a Pesquisa, no entanto, de todas as áreas que podemos pensar, a única que não se preocupou, pelo menos não com a mesma ênfase das demais, a adotar e explorar ao máximo os recursos, foi a TIC.

Por muito tempo os recursos tecnológicos foram vistos como grandes vilões em sala de aula.  Até o final de 2017, pelo menos no Estado de SP, havia a Lei 12.730, de 11 de Outubro de 2007, que proibia o uso dos celulares no ambiente escolar. Essa Lei foi alterada em 07 de Novembro de 2017, pela Lei 16.567.

Quando eu não sei o que fazer com alguma coisa, proibir sempre é o caminho mais fácil e curto, no entanto, também sempre é o que menos dá resultado. As crianças e adolescentes atuais já nasceram imersos no ambiente tecnológico, para eles, usar um celular é tão natural quanto para nós é o ato de andar ou falar.

A proibição pode gerar o efeito contrário, pois precisamos lembrar que estamos falando com adolescentes, que felizmente, afrontam o sistema (e, faço aqui um parêntese, que nunca percam essa capacidade). Se existe uma forma garantida de fazer com que eles usem, essa forma é proibindo.

Por outro lado, proibir o uso da tecnologia seria mais ou menos o equivalente a você estar dentro de um Porsche, mas não poder tocar no volante. Quer dizer, você tem um recurso fantástico, potente, que pode te fazer ir para qualquer lugar, mas você não pode usar.

Não quero, contudo, passar a ideia de que tudo são flores, falando em TIC e Internet, mas é muito mais racional trabalharmos com o bom senso dos alunos, estimulando-os para a utilização adequada e sadia dos recursos, do que simplesmente impedi-los de usar.

Além do efeito negativo da proibição, como falamos agora, há ainda outro ponto a ser considerado, que é a incapacidade do próprio docente em trabalhar com o recurso e, não sabendo trabalhar, ao invés de buscar as qualificações necessárias, passa a coibir o uso.

Essa falta de qualificação docente deve ser entendida não somente como uma crítica ao docente, mas sim, também como a constatação de um fato: a maioria dos docentes que hoje estão atuantes, não nasceram nessa era digital, portanto, para eles, esse processo não foi natural como é para os que agora nascem.

Me incluo nessa estatística, faço parte de uma geração que nasceu na era analógica, que teve que estudar muito e quebrar muitos conceitos para se encaixar nessa geração digital.

Também ressalto que meu objetivo, longe é buscar culpados, mas sim, despertar o interesse e, dentro do possível, demonstrar que a TIC pode ser uma grande aliada do professor, não uma concorrente desleal.

Ao longo desse estudo, buscaremos estabelecer um novo paradigma, quebrando velhos mitos e, juntos, encontrando meios para contornar essa nova realidade, que não é mais o futuro, mas sim o presente que já está diante dos nossos olhos.

O título desse capítulo é uma pergunta, no qual questiono se a parceria entre TIC e Educação funciona. Vamos agora buscar essa resposta.

Toda parceria envolve incertezas e riscos, isso faz parte de qualquer relacionamento e de qualquer projeto. No entanto, quanto maior a incerteza, ou seja, quanto menos conhecimento eu tiver sobre um determinado assunto, maior é o risco envolvido.

Diante disso, posso dizer que essa é uma parceria que tem tudo para dar certo, que terá sim, alguns percalços, mas que pode dar muito certo, assim como, a parceria entre TIC e Negócios deu certo, entre TIC e Indústria deu certo, entre TIC e Saúde deu certo, assim como vários outros exemplos que poderiam ser citados.

O fato determinante para o êxito dessa relação não está somente nas ferramentas tecnológicas, que por melhor que sejam, continuam sendo ferramentas, inanimadas, incapazes de, por si só, tomar qualquer decisão. Nem tão pouco, depende somente da área educacional, que como qualquer outra área, precisa evoluir. Esse sucesso, em suma, depende do vínculo que se estabelecerá entre esses elementos e na metodologia que será aplicada para uni-los.

Precisamos unir esforços, tanto profissionais da área de Educação, quanto de Tecnologia, para chegarmos juntos a soluções para esse complexo problema educacional em que estamos imersos. Esses esforços não podem ser pautados pelo medo da experimentação, pela busca do novo, do desconhecido, da exploração de novos caminhos, afinal, para efeito de estabelecermos um comparativo, pense numa indústria têxtil há 100 anos e pense numa indústria têxtil hoje.

Se você nunca viu, faça uma breve busca pela Internet e você poderá constatar que existem diferenças abismais, as máquinas evoluíram, os processos evoluíram, entre tantas outras particularidades.

Agora, dentro ainda dessa linha, estabeleça outra comparação mental. Pense numa sala de aula há 100 anos e pense numa sala de aula de agora. O que mudou?

Os móveis podem estar mais modernos, mas continuam sendo bancos e carteiras, o bom e velho quadro negro continua existindo, no máximo, foi substituído por uma lousa digital, o professor continua à frente dos alunos falando, donde se pode concluir que pouca coisa se modificou ao longo desses últimos 100 anos.

É necessário repensar o processo educativo, é necessário buscar novas metodologias, que realmente sejam inovadoras e que não somente transportem antigas ferramentas para dentro do computador, pois isso já não atende mais aos anseios dessa nova geração, que já nasceu conectada.

O medo da tecnologia não provém dos alunos, mas sim, dos próprios professores, como já falamos. Imagine uma pessoa que tem medo de dirigir ensinando outros a também dirigir. Não vai dar certo, é um fato.

O ensino com auxilio da tecnologia enseja muito mais autonomia e colaboração na realização das atividades, os alunos precisam ser estimulados a pensar nos problemas e a buscar por soluções, não sendo mais somente o agente passivo do processo, aquele que fica sentado recebendo todo o conhecimento, ao contrário, ele se transforma em protagonista do seu próprio processo de aprendizado.

Por outro lado, todo esse discurso se torna vazio e sem sentido, se ele não for corretamente estimulado e orientado, pois as ferramentas tecnológicas, ao mesmo tempo que trazem para a tela do celular ou do computador, o mundo todo, também fazem com que esse mesmo mundo se torne um agente de dispersão e manter o foco, especialmente nessa fase onde os hormônios estão a flor da pele, torna-se uma tarefa impossível.

Cada professor, dentro do seu conteúdo, deverá buscar novas maneiras de passar o conteúdo e se reinventar, pois a profissão docente, como qualquer outra, exige constante atualização e busca por novos métodos.

O que aconteceria se um médico, embora com todo o avanço e conhecimento da medicina atual, continuasse praticando a medicina com os mesmos métodos de séculos atrás?

O mesmo acontece com a atividade docente, sem qualquer diferença. Não dá para hoje, com todo o avanço que temos em nossas mãos, continuar lecionando da mesma forma como fomos ensinados, há décadas atrás, ou pior ainda, como nossos pais, avós e bisavós também foram.

A geração digital gosta de ser estimulada, gosta de ser desafiada, pois a competitividade faz parte da sua personalidade. Naturalmente, não podemos estimular essa competitividade de forma nociva, mas se pudermos utilizar dessa condição para incentivá-lo a buscar cada vez mais conhecimento, por que não fazê-lo?

Inserir tecnologia no processo educacional vai muito além de dar um tablet para cada aluno ou professor, ou ainda, montar grandes laboratórios de informática, mas fazer deles verdadeiros santuários.

Me lembro de uma breve experiência que tive, numa escola pública, onde havia um laboratório de informática que nunca era utilizado. Certa vez, fui pedir autorização para usar, mas foram tantos os empecilhos colocados que desisti. Literalmente era um santuário, que não deveria ser tocado, mas se é assim, porque foi então montado?

Minha formação de base é na área de tecnologia e sistemas, portanto, naturalmente sou um defensor da tecnologia, mas não porque são “ossos do ofício”, mas sim, porque realmente acredito que ela pode fazer a diferença, que ela pode ser um instrumento maravilhoso, quando bem utilizado.

No entanto, também preciso dizer que não acredito na tecnologia pela tecnologia. Para mim, a tecnologia só faz sentido quando ela torna a vida das pessoas mais simples, quando ela, de alguma forma, transforma essas vidas, do contrário, ela não serviu para muita coisa.

A tecnologia é uma ferramenta, assim como o giz e o apagador também são, em escalas diferentes, mas são. Assim como o giz sozinho não faz nada, a tecnologia também.

A diferença é que a tecnologia possui muito mais recursos do que o giz, mas se não for corretamente utilizada, vira praticamente a mesma coisa.

Um dos papeis da tecnologia na Educação é descentralizar e desburocratizar o acesso ao ensino, pois sendo esse um bem inalienável e um direito fundamental, não pode estar restrito a um pequeno grupo.

A tecnologia de informação, por sua própria definição e essência, tem essa missão, que é disseminar a comunicação e a informação, levando o acesso aos locais mais remotos.

Sou um entusiasta do ensino à distância, sempre o defendi, por outro lado, não com os métodos utilizados por muitas instituições, que tão somente, buscam uma forma barata de replicar conteúdo e diminuir o número de professores.

Via de regra, os problemas sempre são os mesmos, ou seja, não são a tecnologia em si, mas o mau uso que dela se faz.

Quando pensamos na tecnologia para levar conhecimento as pessoas que não possuem a mínima condição de frequentar um ensino regular, isso é algo fantástico, mas esse acesso precisa estar amparado numa metodologia desenvolvida especificamente para esse fim, além de também ter suporte de boas políticas públicas, como o provimento do acesso à Internet, por exemplo, pois, uma vez que se a pessoa não tenha condições de frequentar o ensino regular, certamente também não terá meios para manter os recursos tecnológicos necessários para desfrutar do ensino à distância.

Além dos recursos tecnológicos, é necessária uma ruptura com os modelos tradicionais. O professor deixa de ser o agente transmissor do conhecimento, passando a ser um agente facilitador.

Fechando esse capítulo inicial, reafirmo, a parceria entre TIC e Educação tem tudo para dar certo e isso depende muito mais de nós do que de qualquer outro fator.

Ao término desse projeto e dessa leitura, esperamos ter alcançado esse objetivo, que é o de mostrar a você alguns possíveis caminhos a serem percorridos.

Não daremos aqui receitas prontas, até porque, elas não funcionam. Cada aluno é único, cada turma é única e cada professor é único.

Dentro dessas características únicas que todos temos, o desafio é você encontrar o seu melhor, desenvolver o melhor método, de acordo com a sua área de conhecimento, sempre mantendo o foco no melhor processo possível para o aluno.

Essa parceria entre TIC e Educação pode dar muito certo e tudo vai depender da forma como ela for conduzida.

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