O perfil do novo profissional da educação

A nova geração exige uma nova forma de ensinar. Aquele professor clássico, respeitado por alguns e temido por muitos, conhecido pelos seus métodos catedráticos e clássicos, já foi superado há muito.

Vivemos um período complexo, pois ao mesmo tempo em que as novas gerações exigem cada vez mais habilidade dos educadores, uma corrente mais conservadora tenta retomar fórmulas antigas de ensinar.

Sem entrar no mérito dessa discussão, que não é nosso foco aqui, vamos nos ater aos desafios que os profissionais da Educação enfrentam todos os dias em sala de aula.

As aulas meramente expositivas, com conteúdos repetitivos, onde o aluno aprende mais pela repetição do que pela compreensão, já não encanta mais as nossas crianças faz tempo.

Muito se fala no desinteresse das crianças, jovens e adolescentes, mas esse questionamento também deve ser direcionado aos profissionais da Educação, afinal, qual seria a causa desse desinteresse aparente?

A geração atual faz parte de um contexto que muitos de nós, hoje profissionais da Educação, sequer imaginávamos há alguns anos, afinal, quem de nós, em idade escolar, imaginava usar um computador pessoal, ou mais surreal ainda, ter um verdadeiro computador no bolso e que ainda fosse utilizado como telefone?

Nossas pesquisas, via de regra, eram feitas em livros, sendo a Enciclopédia Britânica Barsa, o suprassumo do conhecimento impresso. Ter um trabalho realizado com referência na Barsa era sinônimo de nota garantida.

Pergunte a qualquer criança hoje o que é a Barsa? Pode ser que a resposta seja: “não é barsa, é balsa”…

Em pouco mais de vinte anos a tecnologia deu um salto e viabilizou o surgimento de gadgets que fariam James Bond ter uma crise. Aos poucos, nós fomos aprendendo a usar essa tecnologia, fomos nos acostumando a sua inserção no dia-a-dia, pois para nós, ela não era algo natural, mas sim, uma barreira que muitos não conseguiram transpor.

Por outro lado, essa nova geração não teve que fazer essa travessia, pois já nasceram inseridos dentro do contexto tecnológico, para eles, a utilização desses recursos é algo absolutamente natural e, não raro, vemos crianças em idade de iniciar seus estudos, dando aulas para os seus pais com esses “brinquedinhos tecnológicos”.

Diante dessa enorme mudança, como ficam os profissionais da Educação? Será que estamos preparados para lidar com essa nova geração, que será cada vez mais conectada e tecnológica?

Sem dúvidas, as dificuldades são muitas, pois as questões vão além da tecnologia, constituindo-se também numa quebra de paradigmas, numa reformulação de conceitos e metodologias, que extrapolam os limites daquilo que nós mesmos vivenciamos e tendemos a reproduzir.

Nossos alunos hoje buscam relações entre aquilo que eles estão aprendendo e o mundo. Absolutamente nada passa despercebido, tudo tem que ter uma explicação. Me lembro que, em idade escolar, não raro, questionávamos principalmente os professores de matemática, pois queríamos entender a fórmula que nos era passada e, como resposta, normalmente vinha um: “não precisa entender, copie e siga e pronto”. Aceitávamos, até porque, acredito que não pelo respeito, mas pelo medo, quem ousaria questionar a autoridade do professor.

Hoje essa resposta seria refutada de pronto. O aluno está errado? De forma alguma, ele está ali para aprender e o aprendizado precisa sim se conectar com o mundo, do contrário, para que ele serve?

É uma piada constante, mas ilustra esse contexto, a famosa frase: “mais um ano se passa e eu continuo sem saber para que serve e onde usar a fórmula de Bhaskara”.

Essa mudança exige do docente uma nova postura, uma nova formação e um novo preparo. Preparo para lidar com situações improváveis e impensáveis, preparo para lidar com naturalidade frente aos questionamentos dos alunos, pois esses não são mais agentes passivos do processo de aprendizagem, mas sim, cada vez mais, são agentes transformadores do conhecimento.

Essa mudança pode ser encarada de uma forma muito positiva ou muito negativa. Tudo vai depender do preparo do próprio docente.

Quando o docente está preparado, ele não só espera como deseja o questionamento, a inquietação dos seus alunos, pois sabe que o processo de aprendizagem é uma viagem por mares agitados e que a aquisição do conhecimento tira qualquer um da calmaria.

Por outro lado, quando não há esse domínio, tende-se para uma atitude mais autoritária e proibitiva, que resulta numa catástrofe completa, pois os alunos perderam de vez o respeito pela figura do professor, que terá cada vez menos domínio da sua classe, tornando-se um círculo vicioso, que não raro, vemos com frequência em muitas escolas.

Proibir, nos dias de hoje, a tecnologia em sala de aula beira o absurdo. Naturalmente que os alunos não podem usar dos recursos apenas como fonte de distração, mas não podemos nos esquecer que a tecnologia é uma ferramenta, assim como o giz e a lousa já foram os reis da sala de aula.

Hoje, cada vez mais, o giz e a lousa perdem espaço e, em substituição, temos os celulares, tablets, notebooks e uma infinidade de outros equipamentos que vão surgindo.

Compete ao docente orientar seus alunos na correta utilização dessas ferramentas, aliando-as ao processo de ensino e aprendizagem, pois esses recursos, como já o dissemos, são absolutamente naturais aos alunos. Se assim o são, por qual motivo não despertar no aluno o interesse de utilizá-los para algo além daquilo que eles já conhecem.

Ao invés de uma aula cansativa e teórica, por que não estimular os alunos a buscar esse conhecimento e servir apenas como agente de direcionamento desse conhecimento?

Uma fórmula certeira para o fracasso é a proibição. Por natureza, o ser humano, em especial as novas gerações, são contestadores, portanto, proibir alguma coisa é a certeza de que essa coisa será feita.

A máxima é antiga, mas ainda válida: “É proibido proibir”. Não proíba, oriente. Você terá ganhado um importante aliado e uma ferramenta poderosa para complementar sua aula.

O perfil que se espera do novo profissional da educação é um perfil desafiador, estimulador, incentivador e facilitador do processo. Nada mais que lembre aquele professor rígido, austero, o que não quer dizer que a autoridade não exista ou que a disciplina não tenha que ser mantida, pois uma coisa, em absoluto, implica na falta da outra, mas a grande questão aqui é a busca por novas metodologias, ou seja, novas formas de facilitar o processo.

O profissional da educação contemporâneo deve ser capaz de transitar com facilidade entre o analógico e o digital. Analógico, por ser provavelmente, o seu habitat natural, que é o meu próprio caso, tendo nascido numa época onde toda a tecnologia atual era impensável, mas por outro lado, com a capacidade de se adaptar a uma realidade totalmente desafiadora e, mais que isso, integrá-la como um importante instrumento de trabalho, dialogando com naturalidade também no mundo digital.

Para BEHAR (2009), um modelo pedagógico para o Ensino a Distância (EaD) deve conter dois elementos fundamentais, que são: a arquitetura pedagógica e a estratégia para a sua aplicação.

Esses elementos, por sua vez, são constituídos por:

  1. Aspectos organizacionais: são os fundamentos da proposta pedagógica, os propósitos do processo de ensino-aprendizagem, a organização do tempo e do espaço, além da organização social da classe;
  2. Conteúdo: são as ferramentas de aprendizagem, como por exemplo, materiais instrucionais, recursos informáticos e objetos de aprendizagem. É importante que o docente tenha sempre a percepção, de que é preciso aliar vários elementos e fontes, pois somente um livro ou uma apostila ou qualquer outro meio, utilizado de forma isolada, não seja capaz de atingir aos objetivos propostos;
  3. Aspectos metodológicos: são as atividades programadas, as formas de interação entre os alunos, procedimentos avaliativos e a organização desses itens numa sequência didática. Os métodos utilizados devem deixar claro ao aluno aonde se pretende chegar, quais serão os possíveis caminhos a serem percorridos e quais serão os critérios utilizados para medir o alcance dos objetivos propostos;
  4. Aspectos tecnológicos: é a definição do ambiente tecnológico que dará suporte ao conteúdo e ao método utilizado. Pode ser, por exemplo, um ambiente virtual de aprendizagem, softwares, redes sociais, meios de comunicação online, assim como, qualquer ferramenta tecnológica que possa ajudar o processo.

Todos esses elementos serão vistos e analisados em maiores detalhes no próximo capítulo, que falará especificamente sobre as novas metodologias, no entanto, são saberes importantes e desejáveis ao perfil profissional do novo educador.

Garcia e Garbin (2010), definem as competências desejadas para um professor de EaD, competências essas que tomo a liberdade de extrapolar a todos os professores. Essas competências desejadas são: tecnológicas, pedagógicas, ligadas ao sujeito e exploratórias.

  • Competências tecnológicas: referem-se ao domínio de ferramentas e aplicativos, sendo capaz de escolher as que melhor se adaptem ao processo de ensino-aprendizagem. Dada a enorme variedade de softwares e ferramentas disponíveis, naturalmente o docente não terá condições de conhecer e avaliar todas, no entanto, é necessário que conheça muito bem ao menos algumas opções, além de sempre estar atendo aos lançamentos, promovendo trocas e atualizações constantes.
  • Competências pedagógicas: um erro que infelizmente pode acontecer é supor que a tecnologia substitui o papel do professor. Ela ajuda, ela complementa, mas o papel de criar materiais, elaborar tarefas, além de estimular ambientes que potencializem o processo de ensino-aprendizagem, continua sendo essencialmente humano, pois a educação é um ato de amor, portanto, embora todo o avanço tecnológico que possa existir, as competências pedagógicas nunca deverão ser menosprezadas em detrimento a qualquer tecnologia.
  • Competências ligadas ao sujeito: esse é outro ponto que, principalmente nos tempos atuais, merece destaque, pois aborda a necessidade de considerarmos as diferenças interculturais, a diferença de comunicacional, os diversos contextos e interatividade, além do afeto que deve existir na relação entre professor e aluno.
  • O processo de ensino-aprendizagem deve sempre valorizar as competências e habilidades de cada pessoa, enxergando as diversidades como fatores positivos, nunca de depreciação e sempre buscando formas de promover a integração, usando o contexto individual como fator de estímulo para estimular o aprendizado.
  • Competências exploratórias: refere-se à capacidade de saber como aprender, de compreender as novas tecnologias de comunicação e empregá-las como ferramentas capazes de intensificar a relação ensino-aprendizagem.

Todo conhecimento só faz sentido quando encontra relação direta com o dia-a-dia e quando serve para resolver ou ajudar a resolver problemas cotidianos.

Aprender tecnologia somente por aprender ou porque a escola ou instituição achou que é necessário, definitivamente não é a melhor forma, pois a tecnologia deve fazer sentido para o docente em sua vivência na sala de aula, deve servir para ajudá-lo na relação com seus alunos, promovendo um ambiente mais direto e interativo. Dessa forma, a tecnologia deixa de ser um entrave e passa a ser uma aliada, abrindo espaço para novos horizontes.

Finalizando esse capítulo, sobre o perfil do novo profissional da educação, podemos dizer que são competências e habilidades indispensáveis ao educador do século XXI:

  • Saber aprender: pois o professor precisa ter a capacidade de se reinventar constantemente, se envolve nos desafios e anseios dos seus alunos e isso demanda uma capacidade muito grande por absorver novos saberes.
  • Capacidade colaborativa: o processo de ensino e aprendizagem se torna cada vez mais uma atividade que deve ser desenvolvida em grupos, onde haja estímulo para a solução conjunta de problemas, compartilhando todas as etapas de processo, assim como, o resultado final obtido, que deixa de ser focado no indivíduo e passa a ser focado no grupo.
  • Capacidade de comunicação: o professor do século XXI precisa ser conectado com as múltiplas formas de comunicação, não que a comunicação formal tenha deixado de ser importante, pelo contrário, mas saber falar a língua do seu público também é fundamental para gerar empatia e se aproximar dos alunos, que certamente se sentirão mais à vontade e confortáveis para expressar seus pontos de vista de uma forma muito mais próxima ao cotidiano de cada um deles, sem se prender aos formalismos, que reforço, devem sim ser vistos e aprendidos, mas não são a única condição e meio para estabelecer uma comunicação eficiente ao longo do processo de ensino e aprendizagem.

Algumas coisas, no entanto, não mudaram ao longo dos milênios e, creio eu, nunca mudarão.

Qualquer educador, em qualquer tempo, sempre deverá ter em mente que sua responsabilidade é única, pois está formando pessoas para a vida, portanto, a paixão pelo ser humano e a paixão por querer despertar o melhor no outro, são características que jamais cairão em desuso.

O combustível que nos move será sempre a esperança de uma sociedade mais justa e equilibrada, com seres humanos mais éticos e responsáveis. O desafio é gigante, mas o amor e a crença no ser humano são maiores!

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