Desenvolvendo novas metodologias

Novos tempos, novos alunos, novos saberes e novos desafios. Não são poucas as mudanças com as quais os profissionais da área educacional devem estar preparados para enfrentar.

Todas essas mudanças e novidades, naturalmente, também vão impactar na forma como o professor ministra suas aulas e metodologia GLS (Giz, Lousa e Saliva) atende cada vez menos aos anseios dessa geração hiperconectada.

Já chegamos ao ponto que somente utilizar a tecnologia em sala de aula, pelo simples fato de utilizar, não desperta mais qualquer interesse, pois a geração que hoje frequenta as salas de aula, já nasceu num ambiente tecnológico, sendo os inúmeros gadgets disponíveis, parte integrante do seu dia-a-dia, ao menos, de um grande número deles, portanto, a curiosidade pela tecnologia em si, já não existe mais e se faz necessário aliar essa tecnologia a um sentido mais amplo e uma nova forma de produzir conhecimentos e resolver problemas.

O desafio que se apresenta aos atuais professores é o de criar métodos e conteúdos capazes de integrar essa realidade tecnológica, despertando o interesse do aluno, com conteúdos desafiadores, que os estimulem a buscar soluções criativas e inovadoras e que, dessa forma, passem a assimilar os conteúdos programáticos necessários, mas com algum sentido para as suas vidas, que sejam úteis e não somente um amontoado de teorias e conceitos desconexos da realidade.

Nosso objetivo, com esse capítulo, não é o de fornecer receitas prontas, até porque elas não existem. Vamos sim, dar algumas dicas e sugestões em linhas gerais, que podem ser aplicadas na construções de materiais e métodos interativos, mas reforçando, cada realidade exige uma solução única, portanto, não há garantias de que, nem mesmo dentro da mesma escola, um só material sirva para todas as turmas, afinal, cada classe é composta por um conjunto único de pessoas, com experiências e saberes diferentes, sendo necessário que para cada uma, alguns ajustes e adaptações sejam feitos.

Isso não chega a ser um problema, pelo contrário, faz parte dos desafios e da beleza da área da Educação, que deve ter como objetivo maior, sempre o ser humano e suas necessidades.

Essas necessidades e particularidades é que devem ser contempladas nos métodos de ensino, pois é isso que vai despertar no aluno o interesse pelo processo como um todo, fazendo com que ele perceba que existe ali, algo além do conteúdo didático, mas que um pouco da sua própria vida está contido naquilo que ele está aprendendo.

Esse modelo de aprendizagem é a base da teoria da aprendizagem significativa, proposta por Ausubel, que preconiza que uma aprendizagem significativa deve considerar fatores como: conhecimentos prévios; atividades que consigam despertar o interesse dos alunos; relação de confiança entre aluno e professor; atividades que estimulem o debate e a troca de ideias; explicações através de exemplos e aprendizagem baseada no ambiente sociocultural.

Outro grande educador que nos baseamos foi Paulo Freire e, nesse aspecto, focamos principalmente em suas críticas ao que ele chamava de “educação bancária”, onde o professor “transmite”, de forma linear, o conhecimento aos seus alunos.

Não nos aprofundaremos nas teorias desses dois grandes nomes da Educação, pois não é esse nosso foco, apenas os citamos para que você possa saber que nossas propostas estão em linha com essa metodologia.

Dentro dessa linha de pensamento, uma forma bastante interessante de trabalhar conteúdos e desenvolver novas metodologias é a abordagem por projetos.

O projeto pode ser usado em qualquer conteúdo e qualquer disciplina, exigindo naturalmente, um esforço considerável, por parte do professor, para a sua elaboração, pois não se pode confundir um projeto com um mero trabalho em grupo, sem maiores objetivos ou direcionamentos, mas sim, como o próprio nome sugere, uma estrutura organizada, com objetivos claros e definidos, prazos para início e fim, definições de instrumentos e ferramentas de trabalho, resultados esperados, resultados alcançados e lições aprendidas.

A metodologia consiste num conjunto de recursos que o professor terá para abordar e trabalhar o conteúdo didático desejado, portanto, é a ferramenta, o instrumento de trabalho em que ele deve investir boa parte do tempo, do contrário, por mais interessante que seja o conteúdo, a recepção e absorção por parte dos alunos não será satisfatória.

 

Ao se planejar um material instrucional, é necessário levar em consideração os seguintes componentes: estratégias metodológicas que serão aplicadas; relação entre objetivos, conteúdos e demais elementos curriculares com os meios; projeto e produção de meios didáticos para determinados conteúdos e tarefas de aprendizagem, relacionadas aos processos cognitivos subjacentes a essas tarefas. LANGHI (2015)

 

Trabalhar esses conceitos é um desafio a qualquer educador, pois exige um grande planejamento, aliando o conhecimento da realidade dos alunos com a teoria que se deseja discutir, além   de estabelecer um método que consiga envolver e despertar, nos próprios alunos, o desejo de buscar mais informações.

É importante ressaltar que, por abordarmos aqui o contexto da Tecnologia na Educação, nossa própria abordagem poderá ser excludente em determinadas realidades, pois bem sabemos que não são todas as escolas desse país que possuem acesso aos recursos tecnológicos, sendo que muitas, infelizmente, sequer possuem recursos mínimos para garantir da dignidade tanto de alunos quanto de professores.

Diante desse cenário, reforçamos a necessidade de se pensar numa metodologia adequada, pois é desconexo da realidade o estabelecimento de um padrão e que deva ser seguido por todos.

Mas, retornando ao ponto central da nossa discussão, pautamos nossa abordagem numa realidade onde a Tecnologia e a Educação se façam presentes.

O que usarei como exemplo será a minha própria experiência, vivida por anos em cursos de nível básico, técnico, tecnólogo e, até mesmo, no ensino superior. Longe de ser uma crítica destrutiva, busco estimular uma reflexão sobre nossos próprios comportamentos e também da necessidade dos próprios educadores conversarem mais e de estarem abertos a novas áreas e desafios, usando um velho clichê, mas começando a pensar fora da caixinha, deixando  um pouco a compartimentalização do conhecimento e começando a ver que existem conexões entre praticamente todos os assuntos.

É bastante comum que os projetos e atividades sejam pensados por agrupamentos de áreas do conhecimento, onde existam afinidades de temas, no entanto, não podemos esquecer que o aluno é um ser em constante construção, que busca, até mesmo pelo ímpeto da idade, questionar a relação que existe em tudo e a famosa pergunta: “por que eu tenho que aprender isso?” não pode mais ser encarada somente como uma mera curiosidade ou contestação, mas sim, também como um convite a nossa própria revisão pedagógica e metodológica, afinal, quem de nós também já não fez essa pergunta enquanto éramos alunos?

Acredito que nosso objetivo, ao abraçarmos a Educação, seja mudar esse cenário e não somente repetir as mesmas respostas que um dia já ouvimos!

Ainda falando  sobre minhas próprias observações, por ser da área de tecnologia, quase sempre , ao menos nas turmas do ensino fundamental, sempre me ficou a impressão de que a matéria de tecnologia era algo completamente  à parte, sem sentido e que servia apenas para constar em currículo.  Isso era a minha percepção, tenho quase certeza que também era a mesma dos demais colegas de outras áreas e, plena convicção, de que era o que os alunos também pensavam.

O que é pior nisso tudo? Eles não deixavam de ter razão ao pensar isso, pois o conteúdo não era, via de regra, pensado para ser integrado ao cotidiano do aluno, mas sim, realmente era constituído de um conjunto de ferramentas e técnicas sem relação alguma com os demais conteúdos vistos em outras disciplinas.

Vejam vocês a falta de entrosamento entre as áreas, pois todas as disciplinas pedem pesquisas, seminários, apresentações e, em resumo, o que eu tinha que passar era exatamente como usar ferramentas que fazem isso!

Ao invés do recurso tecnológico ser visto como uma ferramenta que poderia ajuda-los na realização das demais tarefas, ela era vista como uma grande perda de tempo, pois ao invés deles estarem produzindo para as demais disciplinas, tinham que estar na minha aula chata e sem sentido.

Com aproximadamente dois meses de aula resolvi fazer algo que talvez não seja politicamente correto, mas como todo educador tem um pouquinho de rebeldia em sua alma, peguei o plano de aula e tive uma conversa franca e aberta com os alunos da turma, mostrando que o conteúdo proposto não atendia ao que eles buscavam.

A resposta foi imediata, muitos admitiram que realmente não se interessavam, pois de que lhes seria útil aprender a montar algumas fórmulas no Excel se eles não iriam usar aquilo para nada?

Resumindo a conversa toda, em comum acordo, resolvemos mudar o plano de ensino e adotar uma nova metodologia.

Como primeiro desafio proposto, criamos um blog para a turma e todos os alunos eram autores. Coube a eles decidirem áreas temáticas e assuntos de interesse, buscar conteúdo, enfim, decidir tudo. Meu papel era ficar na retaguarda e, quando eles não conseguiam fazer algo, me perguntavam. E como perguntavam! Fato que nunca aconteceu em dois meses anteriores de aula.

Motivo? Simples, agora eles tinham interesse no conteúdo, era útil para a vida escolar deles, portanto, aprender aquilo passou a ser legal!

O blog virou a vitrine da sala, o espaço onde eles divulgavam tudo, desde datas de trabalhos e provas até as pesquisas que eram feitas para as outras disciplinas, vídeos, fotos e tudo mais que era produzido, em todas as demais disciplinas.

Pode até ser que as outras disciplinas não se integraram à tecnologia, mas a tecnologia se integrou a todas elas. É exatamente para isso que serve a tecnologia, para ser uma ferramenta de apoio e de suporte, para facilitar a vida e para ter sentido, pois quando ela se torna só mais uma matéria, fica chata e desinteressante.

O restante do ano letivo foi muito bom. Ao menos com essa turma, não tive mais problemas de indisciplina ou qualquer outro dissabor.

O conteúdo programático? Acreditem, foi passado integralmente, mas usando aquilo que eles precisavam, pois aprenderam que poderiam usar o Excel para fazer um cálculo, que existem outras ferramentas para fazer uma apresentação, nas palavras deles, bem mais “maneira” do que o Power Point, que a Internet pode ter coisas bem “legais”, dependendo da forma como se procura isso.

O resultado dessa turma foi tão interessante que virou um trabalho de conclusão da minha pós-graduação em Metodologia do Ensino para Jovens e Adultos.

O objetivo do relato não foi o de me autopromover, mas sim, mostrar   que ações simples podem trazer grandes resultados. Certamente, seu eu continuasse seguindo o planejamento inicial, até o final do ano, teria perdido toda a turma e, pior que isso, teria feito com que eles perdessem uma boa oportunidade de aprender novas formas de usar aquilo que eles já usavam.

Projetos integradores são formas muito interessantes de se trabalhar conteúdos diversos, agregando todas as disciplinas em torno de um objetivo comum. Esse objetivo não deve ser encarado somente como o cumprimento de um plano de ensino, pois isso seria relativamente fácil, mas sim, estamos falando no real aprendizado do aluno, que sempre deve ser nossa meta principal.

É claro que existem muitas maneiras de trabalhar os conteúdos programáticos e, ninguém melhor do que a equipe pedagógica de cada escola, para saber o que se adapta melhor a cada realidade, mas insisto, é preciso sair da zona de conforto, é preciso entender que os alunos buscam cada vez mais e, se eles não estão interessados em nossas aulas, desconfie, há uma grande chance da culpa ser nossa mesmo. Não é para desestimular não, pelo contrário, que isso sirva para nos fazer buscar a inovação e que, apesar das dificuldades, a paixão por educar prevaleça.

Se a opção for por trabalhar com projetos, lembre-se das premissas de um projeto, seja ele qual for. Um projeto deve ter um prazo para início, um período para o desenvolvimento e uma data para ser finalizado.

Todos que estão envolvidos num projeto devem ter muito claro quais são os objetivos e as ferramentas que eles terão ao seu dispor e, de que forma os resultados esperados serão mensurados.

É importante não ter medo da inovação, não ter medo de sair da zona de conforto. Pode dar errado? Claro que pode! Todo projeto tem um grau de incerteza envolvido, mas faz parte do planejamento desse mesmo projeto, traçar ações para que esses perigos sejam minimizados.

Os alunos devem fazer parte dessas ações, pois são eles os maiores interessados e os maiores beneficiados, caso tudo saia dentro do planejado, mas lembre-se, se não der certo, eles também serão os maiores implicados negativamente.

O comprometimento deve ser de todos, os riscos são de todos e o prazer de ver funcionando também. A vida é feita de riscos e a Educação não é um caminho absolutamente conhecido e previsível. Os erros fazem parte do processo, ajudam a trabalhar o ego e as frustrações, inclusive dos próprios docentes.

Um projeto é um grande trabalho em equipe e, como trabalho em equipe, o sucesso depende de muitos fatores, que vão desde a capacidade do docente, em organizar e liderar essa equipe, mas também, do comprometimento dos alunos e toda a equipe de apoio que possa estar envolvida.

 

São necessários três fatores para que a aprendizagem significativa ocorra: predisposição do indivíduo para a aprendizagem de modo significativo, material potencialmente significativo e estrutura cognitiva capaz de assimilar a nova informação. LANGHI (2015)

 

A predisposição para aprender depende, naturalmente, do indivíduo. Você nunca obterá sucesso no ato de ensinar se o outro está, definitivamente, disposto a não aprender. Nossa realidade atual nos mostra que, infelizmente, existem muitos indivíduos nessa posição.

A predisposição vem da própria estrutura cognitiva do indivíduo, ou seja, do seu conhecimento previamente adquirido, ao longo de toda sua vida.

Já um material potencialmente significativo pode estar relacionado com a forma como esse material foi organizado e produzido.

Ele precisa ter um sequenciamento lógico e racional, que facilite a leitura e entendimento, sendo portanto, um material organizado de forma que, ao fazer sua leitura, seja possível identificar os objetivos a serem alcançados, os recursos que podem ser utilizados, entre muitas outras características que devem ser observadas, sendo uma delas, a própria linguagem, que deve estar adaptada a realidade do público alvo, pois se o público a ser atingido  é, por exemplo, de jovens, o uso de uma linguagem excessivamente rebuscada,  vai afastá-los, certamente.

Por último, a estrutura cognitiva do aprendiz, que está diretamente relacionada com os conhecimentos prévios do indivíduo. Segundo Ausubel, Novak e Hanesian (1980), se o indivíduo não possuir um conjunto de conhecimentos prévios sobre o novo conceito a ser aprendido, a aprendizagem significativa não ocorrerá.

Caberá ao docente, ao longo do planejamento desses projetos, identificar possíveis deficiências cognitivas dos alunos, promovendo agentes que facilitem essa aprendizagem, sendo esse fato, um dos riscos a que um projeto está sujeito, no entanto, sendo um risco conhecido, ele pode ser antecipadamente previsto e evitado, ou quando não totalmente evitado, mas ao menos, minimizado.

Um dos pontos altos de se trabalhar com projetos é estimular os estudantes na busca de soluções diversas para um problema comum. Cada aluno ou grupo de alunos, conforme acabamos de expor, possui um conjunto prévio de conhecimentos, portanto, é mais do que natural que cada um tenha sua solução para o problema proposto.

Esse é um dos pontos altos de se trabalhar com projetos, pois muitas mentes pensando podem encontrar caminhos totalmente diferentes, o que não quer dizer que um esteja certo e o outro errado, são apenas pontos de vista diferentes, mas que podem convergir na solução do problema.

Quando isso ocorre, além do aprendizado programado e esperado, que é a solução do problema, também temos um aprendizado indireto, mas não menos importante, principalmente na atual realidade, que é o fato de aprender a lidar com diversos pontos de vista, analisar a todos e tirar o que existe de melhor em cada um.

Finalizando esse capítulo e a abordagem do projeto ou qualquer outra forma que se trabalhe, sempre é fundamental que o aluno tenha um retorno avaliativo. Ele precisa saber quais pontos foram atingidos e quais não foram e o que ele pode fazer melhor.

Um trabalho ou um projeto sem avaliação, não serviu para nada além de tomar tempo de todos os envolvidos, pois o verdadeiro e efetivo aprendizado não aconteceu.

A avaliação deve considerar tudo o que aqui tratamos, ou seja, principalmente que não existe uma única solução, motivo pelo qual, essa avaliação é trabalhosa. Sabe aquela história do velho gabarito de respostas? Esqueça!

A avaliação final deve ser do docente, no entanto, um ponto que também pode ser explorado é o de um grupo avaliar o outro, não aquela avaliação punitiva, mas onde todos podem aprender com a opinião do outro, pois ao ouvir do outro quais foram as suas dificuldades em me entender, também posso melhorar em diversos pontos.

Tudo o que aqui abordamos não são fórmulas mágicas, nem tão pouco, roteiros obrigatórios, sendo meramente sugestões. Você, com toda sua experiência e conhecimento, saberá qual caminho seguir e quais estratégias se adaptam de forma mais apropriada.

Não estou aqui ensinando ninguém, apenas relatando minha própria experiência e, assim espero, também possa aprender muito com o retorno de todos vocês!

Em nossa página na internet, deixarei materiais complementares e exemplos da elaboração de projetos. Lembre-se de sempre dar uma olhada, pois os conteúdos são atualizados constantemente e você poderá baixá-los de forma livre, além de interagir e dar sua opinião.

 

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