Abandono

Você já teve a sensação de ter sido abandonado e não conseguir entender o motivo disso? Sempre tive essa estranha sensação.

Alguns motivos posso compreender, outros ainda não.

Como estou na busca do meu eu perdido, me permito refletir e questionar sobre qualquer assunto, sem dogmas, sem culpas, pois absolutamente tudo nessa vida pode ser questionado e contestado, somente se atentando a forma como isso é feito, sempre guardando o devido respeito, mas sem questionar, nunca sairemos do lugar comum e, definitivamente, esse não é o meu lugar.

O abandono nem sempre é físico. Não é abandonado somente quem foi relegado pelos pais, ou então, simplesmente, por qualquer motivo, foi privado do convívio com eles.

O abandono também ocorre quando não temos o suporte emocional que toda criança precisa, a segurança de poder olhar para os seus genitores, se identificar com eles e, acima de tudo, saber que, ao lado deles, se sentirá seguro.

Via de regra, a figura materna representa a afetividade, o amor no seu sentido mais amplo e puro, o colo necessário nos momentos difíceis, o suporte emocional para enfrentar os medos e o exemplo maior do amor incondicional.

Já a figura paterna solidifica a segurança, tanto material quanto emocional, naturalmente, também o amor, mas o amor que é responsável para, no momento certo, fazer os cortes necessários, dar asas aos filhos, libertando-os para seguirem os próprios caminhos, alçando voos maiores, entretanto, sempre com a certeza de que, se algo der errado nesse voo,  um lugar seguro o estará aguardando no retorno, sem julgamentos, sem culpas, mas com a firmeza de alguém que está ali para dar esse suporte, quantas vezes forem necessárias, até que, de fato, essa liberdade se concretize.

Agora, voltando ao real, essas situações são as ideais, as hipoteticamente perfeitas, mas que na prática, nem sempre acontecem, pois, muitos pais não estão preparados para assumir esse papel, assim como, muitos de nós também não estamos. Sou daqueles que acredita que para ser pai e mãe, antes deveria ser obrigatório fazer um curso de longa duração, ou no mínimo, alguns anos de terapia.

Hoje consigo entender que essa sensação de abandono que me acompanha, desde muito tempo, se origina na minha infância. Eu sei que pode ser clichê, mas não deixa de ser um fato.

Essa sensação é o resultado não do abandono físico, mas do abandono emocional, pois é a sensação que fica, para uma criança, que exatamente por ser criança, não possui a capacidade de discernimento para entender nada. Certamente, para um adulto, muitas das situações que vivenciei, não fariam sentido, mas novamente, na visão do adulto, aliás, na visão do adulto André, de fato, não existem tantos motivos, mas na visão da criança André, existe sim.

As marcas ficam e como toda marca emocional, não é possível retirá-la com muita facilidade, quando se é possível retirá-la.

Não vou entrar na fase da cobrança, até porque, certamente meus pais fizeram o que poderia ser feito, com os recursos que eles dispunham naquele momento, mas a criança não entende isso e até hoje briga com o passado.

Em minha memória tenho vivas cenas de quando tinha aproximadamente dois anos de idade, talvez até um pouco menos. Se você me perguntar o que fiz ontem, provavelmente terei que parar para pensar, mas me lembro de coisas de quatro décadas atrás e isso me faz compreender que existem fortes razões para tal, algo muito forte, do contrário, isso não estaria vivo em mim até hoje.

A criança André sempre foi solitária, pois nessa fase da minha vida, morei em sítios, portanto, sem muito convívio com outras crianças. Essa criança buscava refúgio num mundo à parte, que me lembro como se me visse num filme e, assim como numa película, a realidade se mistura à ficção, produzindo cenas que, por vezes, acredito serem verdadeiras e, por vezes, penso ser fruto da minha criativa mente infantil.

Embora sozinho, me lembro de brincar muito e essas lembranças hoje são mais fortes ainda, talvez porque o adulto está indo de encontro com o passado e, confesso, estou curioso pelo momento onde o homem André encontrará a criança André. Acredito que será um encontro emocionante e haverá assunto para muito tempo.

Hoje, depois de anos de terapia, consigo me libertar de muitas mágoas, mas sinto que a criança ainda está perdida, por vezes brinca, por vezes chora, por vezes corre ainda sem saber para onde. Talvez corra do próprio destino.

A brincadeira, ainda que solitária, foi a maneira que encontrei para manter minha mente sã. Um dia ouvi da minha terapeuta, que mesmo em situações de guerra, sobrevive quem consegue brincar, pois cria um mundo de refúgio, onde a dor real não entra. Um lindo filme que ilustra essa figura mental é o filme A Vida é Bela, onde mesmo nos horrores dos campos de concentração, um menino passa intocável por esses horrores, acreditando estar participando apenas de um jogo.

O maior jogo que jogamos é a nossa própria vida, é o desafio diário de tentar imaginar uma brincadeira para fugir da realidade dura, sem se alienar, mas encontrando humor para sobreviver em meio ao caos, pois é isso que nos mantém a salvo de um surto.

Existem gatilhos que despertam um turbilhão de sensações e emoções e, para mim, um desses gatilhos é a música. Através da música consigo viajar ao passado, assim como, fazer projeções para o futuro.

Uma dessas músicas que sempre mexeu muito comigo é a canção 93 Million Miles, do cantor Jason Mraz, e acredito que seja por tocar exatamente nesse meu ponto fraco. No caso, a música fala exatamente desse porto seguro, da distância que pode existir, mas da segurança em saber que sempre haverá para onde voltar, fato que não vivi, pelo contrário, e numa inversão de papéis, acabei sempre sendo o porto seguro, desde muito cedo.

Como tudo na vida, dessa situação tirei boas lições, mas também, grandes consequências.

Uma dessas consequências foi sempre carregar um peso muito maior ao que eu estava preparado para suportar. Acredito que isso possa explicar parte das dores físicas que sinto todos os dias, dores que muitas vezes me paralisam, assim como, muitas vezes me senti paralisado durante minha infância e juventude.

Minhas dores andam pelo corpo, como não entendendo o lugar onde devem ficar, parece que estão perdidas, tentando achar o seu espaço, assim como eu muitas vezes me senti e ainda sinto, ao trazer à tona aquela criança que sentia dores emocionais e não entendia qual era o seu papel, se era o da criança, do pai ou da mãe.

Clinicamente, meu diagnóstico é o de dor crônica ou fibromialgia, mas vejo que essa dor crônica transcende ao corpo, a dor está crônica na alma, apenas refletindo no corpo.

Por várias vezes já me peguei imaginando o encontro do adulto André com a criança André. Podem achar que sou louco, mas já elaborei até diálogos mentais. Acredito que o adulto André tem tanta coisa para dizer para aquele menino André, que se sentia tão sozinho, com tantos medos, que são comuns das crianças.

Minha vontade é pegar aquele menino, colocá-lo no colo, fazer-lhe um carinho, dar um abraço bem apertado e dizer, ao pé do ouvido, que vai ficar tudo bem, que ele não precisa ter medo do futuro, pois o futuro é uma construção diária, uma luta constante e que pode ser modificado a todo momento.

Diria ainda para que ele não se cobrasse tanto, afinal, ele é só uma criança e uma criança não tem que pensar em coisas de adultos, que aproveitasse o seu tempo para brincar e aprontar, porque a vida passa rápido demais e as responsabilidades chegam.

Diria também para que ele escutasse o seu coração, pois o coração de toda criança é puro, tão puro que é possível ouvir Deus falando através dele. Que ele não se deixasse contaminar pelas pessoas negativas que ele encontraria pela vida, muitas delas, vindas da própria família.

Não sei ainda o que o menino André iria me falar, talvez apenas se calasse e me ouvisse, talvez chorasse, não de tristeza, mas pela alegria de ter alguém sempre pronto para lhe dar suporte.

Finalizando essa conversa, falaria para ele que não se cobrasse tanto pela vida dos adultos que o cercam, pois ele não tem responsabilidades sobre isso, que a sua única responsabilidade é a de brincar, aprender a jogar futebol, andar de bicicleta, coisa que esse menino nunca aprendeu, porque sempre teve grandes coisas para pensar.

Fico imaginando que isso traria paz a esse garoto e agora, fechando os olhos, vejo esse garoto me beijando a face e correndo para brincar.

Creio que esse encontro seria mágico e quem sabe, de alguma forma, trouxesse a libertação, tanto ao menino quanto a mim.

Agora, em minha mente, tenho a visão do homem e do menino, de mãos dadas, começando uma grande caminhada. O menino olha para o adulto e sorri com a segurança de quem tem um adulto para defendê-lo.

O adulto olha para a criança com a confiança de ser capaz de proteger aquele pequeno ser e que, juntos, farão uma grande caminhada, que ao menos dessa vez, será menos perigosa.

Eles sabem que terão muito a aprender, um com o outro, e que ao final do caminho, serão um só.


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